Narrado por Edward
Ela dormia serena e eu morria de pena de ter que acordá-la, mas nossa filha tinha nascido havia quase quatro horas e precisava se alimentar. A emoção que senti ao vê-la sugando com força o leite do seio de Bella não poderia ser descrita com palavras. Era estranho pensar que embora Sofia fosse a minha segunda experiência como pai, todas aquelas emoções eram absolutamente novas para mim. Meu coração ainda não tinha recuperado o ritmo normal e eu tinha a sensação de que ele jamais recuperaria. Era uma felicidade imensa e incontrolável, sem o medo e a dor que tinham me privado de curtir a primeira vez.
Sofia era linda. Tão delicada! Tão calminha! Só chorava na hora de mamar e de trocar as fraudas. Ela era realmente uma bonequinha e todos queriam pegá-la no colo. Eu olhava minha família disputando mais alguns segundos com ela no colo e pensava em como eu já a amava mesmo antes de conhecê-la, mesmo antes que eu pudesse senti-la se mexer na barriga de Bella. Eu a amava pelo simples fato de ela existir e esse amor era a coisa mais forte do mundo. Eu seria capaz de sacrificar a minha vida por ela, mas ao mesmo tempo queria viver muito para vê-la crescer e realizar seus sonhos, para ouvi-la falar do seu primeiro amor e da sua primeira decepção, para ficar acordado até a madrugada para ouvir o barulho da chave abrindo a porta e ter a certeza que ela estava a salvo dentro de casa.
Brian estava encantado com a irmã. Ele tinha me obrigado a levá-lo até o berçário para conhecê-la antes de todos depois que Bella dormiu. Eu não queria sair do lado dela, mas não tinha como negar o pedido do meu filho. Era tão bonitinho ver o olhar apaixonado que ele dava para a irmã! Ele conversava com ela e falava que ia ensiná-la a brincar com o videogame que tinha ganhado de Emmett no Natal, que lhe ensinaria a nadar para que eles pudessem brincar juntos na piscina e que, se ela quisesse, ele ia contar historinhas para ela dormir. Bella e eu tínhamos ficado receosos de que ele sentisse ciúmes quando Sofia nascesse, mas Brian estava reagindo com naturalidade. Às vezes ele parecia maduro demais para a sua pouca idade e isso me enchia de orgulho.
Eu estava acostumado a ser pai de um menino, mas agora teria que aprender a ser pai de uma menina. Minha filha! As palavras soaram desajeitadas e estranhas em minha boca na primeira vez em que as pronunciei. Comecei a dizê-las para mim mesmo no dia em que a ultrassonografia revelou que íamos ter uma menina. Era um universo que eu ainda não conhecia, mas que eu ia adorar desbravar. Eu via o corpo de Bella mudar de forma dia-a-dia e achava tudo lindo. Eu a abraçava todas as manhãs, conversava com sua barriga sem me achar um louco. Vibrava com cada movimento de minha filha, como se eu fosse uma criança feliz por um brinquedo novo e não fazia questão de segurar a emoção, afinal homem chora sim, e muito.
De repente minha filha tinha nascido e eu me via encantado em ficar acordado feito bobo a vendo dormir. Eu a olhava de hora em hora só pra ter certeza de que ela estava respirando, afinal bebês respiram como passarinhos durante os primeiros dias. Me descobri ansioso para trocar fraldas, sujar as mãos, fazer papinha, tomar banho de xixi e ficar a noite toda acordado com ela no colo quando viessem os dentinhos ou só para tê-la juntinho de mim e não via a hora de ouvi-la dizer “papai”. O primeiro “papai” é inesquecível e eu tinha certeza de que quando a ouvisse me chamar eu iria me desmanchar. Eu sabia que ia virar massinha de modelar nas mãos daquela pequena criatura que agora se agitava ansiosa no colo de Jasper bem diante de mim.
Os outros já tinham saído do quarto lotado para que Sofia se acalmasse, mas Bella e eu pedimos que Jake e Leah ficassem. Nós já havíamos conversado sobre a escolha dos padrinhos e tanto Bella quanto eu nos sentíamos em dívida com eles. Se Jake não tivesse salvado a vida de Bella minha vida hoje ainda seria um vazio sem fim. Mesmo sem saber, ao salvar a vida dela, ele tinha salvado a minha também. Leah tinha sido fantástica ao conseguir o divórcio para Bella. Por causa dela eu pude fazer de Bella a Sra. Cullen e isso tinha muita importância para mim.
Bella estava com medo de que eles não aceitassem nosso pedido e não conseguia articular direito as palavras. Quando ela finalmente fez o pedido um silêncio estranho se instalou no quarto. Senti o corpo de Bella enrijecer em meus braços quando Jake e Leah se entreolharam sérios e a apertei ainda mais tentando lhe passar segurança. Jake era um sacana mesmo. Quase matou minha Bella do coração fingindo que não ia aceitar. Ela chorava socando seu peito e o repreendia enquanto ele ria da cara dela. Era linda a amizade dos dois. Jake tinha um amor de irmão tão grande por Bella que eu tinha certeza de que se um dia eu faltasse, ela poderia contar com ele. Bella e eu nos emocionamos quando Jake tomou Sofia nos braços e disse que a amava. Ele tentou brincar, mas nós sabíamos que ele estava tentando disfarçar as próprias emoções.
Depois que todos já tinham paparicado minha filha a tarde toda, Emmett me arrastou até o restaurante do hospital para comermos alguma coisa. Eu tinha ficado tão distraído com o nascimento de Sofia que não tinha me dado conta de que estava há mais de doze horas sem comer nada. Lembrei-me que Bella também não havia se alimentado e pedi que uma enfermeira levasse uma refeição para ela no quarto. Ela deveria estar faminta. Emmett e eu nos sentamos em uma mesa mais afastada e conversávamos sobre a sensação de déjà vu.
_ Edward, quando eu parei no sinal vermelho e vi você parado na frente do hospital... – ele não conseguiu completar a frase.
Ele não precisava completar a frase para que eu entendesse. Eu sabia que ele tinha revivido tudo nos mínimos detalhes.
_ Eu sei, Emmett! Aconteceu comigo também! – eu disse tocando seu ombro.
_ Eu estava morrendo de medo de falhar com você de novo, meu irmão!- sua expressão era de dor.
_ Emmett, pela última vez, você nunca falhou comigo! Aquilo que aconteceu não foi sua culpa! Você não tinha como adivinhar que aquele bêbado ia avançar o sinal justo naquela hora! Você não pode tomar para si uma culpa que é de outra pessoa! Eu nunca culpei você pelo que aconteceu, cara! Por favor, esquece isso! – eu pedi exasperado.
Emmett assentiu com a cabeça e não disse mais nada. Acabamos de comer em silêncio e eu já me preparava para me levantar quando senti Emmett ficar tenso ao meu lado. Ele olhava para o outro lado do salão com um olhar assassino.
_ Eu tenho vontade de matá-la! – ele disse entre dentes observando Tânia e Jéssica que tinham acabado de entrar no restaurante e se sentaram em uma mesa distante de nós.
As duas conversavam animadamente e nós as ficamos observando de longe. De repente o olhar de Tânia cruzou com o meu e ela abriu um sorriso. Jéssica seguiu seu olhar e nos viu ainda sentados. Emmett mantinha as mãos fortemente fechadas em punho tentando conter o ódio que estava sentindo. Eu me levantei subitamente sentindo que o ar ali estava irrespirável. Se eu ficasse ali por mais cinco segundos perderia o controle e seria capaz de matar aquela ordinária.
_ Emmett, vamos voltar para o quarto! Eu não quero deixar Bella sozinha com essa mulher rondando o hospital! – eu disse e Emmett me seguiu para fora do restaurante.
Quando entrei de volta no quarto, Rose ninava Sofia enquanto Bella estava no banho. Eu também precisava de um bom banho e de uma boa noite de sono. Estava exausto por estar acordado havia mais de vinte e quatro horas.
_ Ela já comeu, Rose? – perguntei preocupado.
_ Ela acabou de jantar e pediu para que eu ficasse com a Sofia para tomar um banho! – ela me tranquilizou.
Deixei-me cair na poltrona ao lado da cama e tentei relaxar um pouco meu corpo dolorido.
_ Edward, vá para casa descansar. Eu sei que você está cansado, amor! Está escrito no seu rosto! – Bella pediu ao perceber meu cansaço.
_ Eu só vou para casa quando você for, amor! Eu não saio daqui sem você! – eu disse colando sua testa na minha e a abracei.
_ Eu prometo que não vou fugir, amor! – ela me provocou – Eu ainda estarei aqui quando você voltar. – tive que rir com isso. Ela realmente achava que ia se livrar de mim?
_ Não adianta fugir de mim, Bella! Eu vou atrás de você e a trago de volta nem que seja amarrada, bobinha! – eu segurei seu rosto delicado e a beijei com vontade.
Estava morto de saudades dos lábios de Bella. No exato momento em que meus lábios se colaram aos dela, eu me esqueci de onde estava, de quem estava ao meu redor, me esqueci até de meu próprio nome. Tudo o que meu cérebro conseguia processar era o prazer que eu sentia com roçar de nossas línguas e com o contato da minha pele na pele macia de Bella. Mas tudo o que é bom dura pouco e o chato do meu irmão tinha que nos atrapalhar:
_ Hey, casal! Vamos parar com essa safadeza na frente dos meus filhotes, ok? Vocês estão corrompendo a pureza deles! – com essa, eu me soltei de Bella e começamos a rir. De onde Emmett tirava essas coisas?
_ Até parece, Emmett! Por acaso você vai ficar os próximos sete meses sem sexo? – resolvi provocá-lo, mas foi Rose quem corou violentamente. Emmett me olhou indignado.
_ Ficou doido, maninho? Não fica dando ideia torta pra minha Rose! Não é porque você vai ficar na seca daqui pra frente que eu tenho que ficar também! – ele devolveu a provocação e minha Bella ficou roxa de vergonha.
O sacana tinha que me lembrar desse detalhe? O pior é que o meu amiguinho já tinha ficado todo animadinho com o beijo que eu tinha dado em Bella. Pelo jeito a temporada de banhos gelados estava aberta e começaria hoje mesmo. Depois que Rose praticamente rebocou Emmett para casa, Bella e eu ficamos babando em cima da nossa filha. Aproveitei que ela estava amamentando e tomei um banho. Quando saí do banheiro Irina já tinha levado Sofia de volta ao berçário. Bella estava deitada na cama com os olhos fechados. Recostei-me na poltrona e fechei os olhos, mas os abri assim que Bella me chamou para me deitar com ela na cama. Confesso que estava morto de vontade de dormir abraçado a ela, mas tinha ficado com receio de deixá-la desconfortável. Não pensei duas vezes quando ela me chamou. Corri para junto dela e me deitei ao seu lado. A cama era meio apertada para duas pessoas, mas eu não podia reclamar. Isso me obrigava a ficar ainda mais perto de Bella. Era fácil relaxar sentindo meu corpo colado ao dela, sentindo seu cheiro e sentindo o toque delicado de suas mãos em meus cabelos. Envolvi o corpo de Bella em meus braços e adormeci sentindo o perfume que vinha de sua pele.
Narrado por Emmett
Dia 14 de maio de 2011. Rose ia fazer a primeira ultrassonografia comigo presente. Sem chances de eu faltar. Que noite foi a do dia 13...Nem dormi direito. Havia um clima de expectativa no ar, até mesmo porque o Dr. Austin havia me esclarecido que parecia ser uma gravidez muito recente e que não aconselhava que comemorássemos muito. Meu lado racional aceitou o comentário, óbvio, todos sabemos dos riscos e tal...Mas meu lado emocional, juro, deu cinco socos, uma rasteira e um chute nas costelas dele. Que isso! Sai com essa praga para lá! Qual é meu irmão? Quer voar da ponte? Que ir para a vala?
Mas tudo bem, fomos em frente. Entrei no consultório com a Rose. Era uma sala meio escura, com uma cama, um monte de monitores, cabos, coisas que piscavam e faziam bip bip. Na minha frente, uma tv. Tudo preparado, suspense no ar. Seria a segunda instância do processo de descoberta da gravidez: verificar se ambos os embriões estavam com batimentos cardíacos. Cara, nunca na minha vida quis tanto ouvir um batimento cardíaco. Aliás, dois!
Antes de começar o exame, o Dr. Austin ainda fez mais um comentário racional e infeliz: "Primeiro trimestre é sempre um período crítico e tal...". Cacete, será que a minha surra imaginária de minutos atrás não surtiu efeito? Hmm... precisava melhorar minhas táticas de combate pessoal e tortura e aplicar mais uma dose de imaginação violenta nesse cara.
De repente apareceu aquela imagem borrada na TV. Cinza, sem graça, cheia de chuviscos. Devia ser mais um daqueles exames inventados por alguém que nunca foi pai ou mãe. Eu estava muito tenso, tão tenso que acho que meus músculos viraram uma blindagem nível III-A. Nem sei se piscava, ou se respirava. Só olhava aquela TV. Com o tempo a imagem foi melhorando um pouco e surgiram dois feijões. Primeiro alívio: os dois embriões estavam lá ainda. Nunca gostei tanto de feijão. Meus olhos começaram a ficar molhados.
Meus filhos já estavam com 36mm e 35mm, compatíveis com uma gestação de 9/10 semanas. Espera um pouco! 36mm? Caramba! Há duas semanas Rose havia dito que eles estavam com 11mm! Como crescem essas coisas... Seria como você ficar sem ver um amigo seu durante 15 dias e encontrá-lo na rua medindo 6m de altura.
Outro fato legal é que, quando o médico começou a medi-los eu entendi de verdade o que era uma coisa que sempre aparece no laudo da ultrassonografia: uma medida chamada 'cabeça-nádega'. Até a ultrassonografia de hoje eu não tinha o poder de visualizar o que era cabeça e o que era nádega. Agora estava claro. Eu estava de verdade vendo duas pessoas bem pequenas! A cabeça, o formato dos olhos, da boca, braços, mãos, pernas...DEDOS! Caramba, DEDOS!
Agora, o mais impressionante mesmo foi em um dado momento em que meus filhotes começaram a se mexer lá dentro. Cara, é algo além da compreensão. Realmente já são pessoas de 3 cm! Viram o corpo, mexem as mãos e tudo! Só faltaram reclamar que estavam dormindo...um desses movimentos parecia claramente que eles viravam de costas, se ajeitando para continuar a soneca...Só faltavam bater palmas e falar: "Como é que é? Estamos dormindo, pô! Sai pra lá, mané!".
Obviamente um desses cientistas do Discovery Channel, que provavelmente nunca foi pai ou mãe, diria que se tratavam de impulsos nervosos primitivos, que ainda não eram racionais, etc... etc. Pro inferno! Para mim, quando mexeram as mãos, estavam dando tchauzinho para mim e ponto final. Dane-se a teoria, ora! E tem mais! Eles pareciam estar um em cima do outro na tela, como se estivessem em um beliche. Quando o de cima se mexeu, o de baixo começou a se mexer também e deve ter dito: "Ô! Você aí de cima! Dá para ficar quieto? E tem mais, hein? Se fizer xixi na cama e pingar em mim o bicho vai pegar...dou um peteleco nesse rascunho de orelha que você tem aí!".
Eu ainda estava absorvendo o impacto da imagem de meus filhos quando o médico avisou:
_ Está vendo aquelas coisinhas se mexendo? São os corações! Os dois embriões estão com coração!
Comecei a chorar, não teve jeito. Era muita tensão. Era mais um passo tomado para a continuidade da gravidez. Os dois estavam se desenvolvendo. Quando pensei que já tinha escorrido todas as lágrimas reservadas para o dia, o médico então perguntou:
_ Vocês querem ouvir os batimentos cardíacos? - Que isso! Lógico que não! Coloca um funk aí! Porra, óbvio que eu queria ouvir!!!
Tum Tum! Tum Tum!
Ouvi então sons que não tenho como explicar. Era um som gutural, primitivo, lindo. Eram os batimentos cardíacos das minhas crianças. E que corações! Apesar do pequeno tamanho dos embriões, os corações batiam a toda velocidade. Fantástico, mas o meu devia estar mais rápido que isso, acho. Enquanto a Rose e o médico conversavam entre si como duas comadres falando da última receita de empadão que viram na TV, eu ficava ali brotando lágrimas nem sei de onde...a camisa parecia pingar de tantas lágrimas.
Pior for a saída para a recepção do hospital. As pessoas me olhando todo molhado, chorando igual a sei lá o que. O mais engraçado foi outro casal que estava aguardando. A mulher do cara imediatamente olhou para o marido, o cutucou e pareceu dizer baixinho: "Viu! Ele tá chorando...e você nem tchum!". Mulheres...vá entendê-las!
Eu adoro música, me lembro de umas cavernosas. As letras, acordes, detalhes mínimos. Mas tenho certeza, aqueles sons dos primeiros batimentos cardíacos dos meus filhos eu NUNCA irei esquecer...Na hora pensei muitas coisas, mas as únicas que me lembro agora de ter dito para mim mesmo foram: "Sejam fortes, meus filhos...", "Obrigado Rose...eu te amo." e "Deus, obrigado".
Milagre era a forma mais fácil de explicar o que eu vi. Deus, ou seja lá o que for, nos fez do barro e um sopro, nos dá uma alma e nos ama para sempre. É, acho que é verdade mesmo, pois quando vi meus filhos tive a certeza que poderia mover todo o barro do mundo, daria todo o ar dos meus pulmões e minha alma a eles sem pestanejar ... meu amor por eles era incondicional e completo.

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