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Juiz de Fora, Minas Gerais, Brazil
Apesar de ser mestre em Linguística e ter toda a minha vida acadêmica voltada para o ensino de línguas, sempre fui amante da literatura, devoradora de livros, filmes e séries. Sempre tive um sonho: escrever. Durante muito tempo, o medo de fracassar me impediu de realizar esse sonho, mas uma grande amiga me incentivou e me deu a coragem de enfrentar meus fantasmas e graças a ela eu hoje posso dizer que me sinto uma pessoa melhor, mais confiante e absolutamente ciente do meu potencial.

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domingo, 25 de setembro de 2011

Capítulo XX – Tesouro



                                    
Narrador por Brian

  A noite havia sido longa e desesperadora. Embora eu soubesse que Mel não acordaria antes do amanhecer, minha ansiedade me fazia desejar que ela despertasse logo. Eu precisava que ela me olhasse nos olhos, só assim eu saberia se ela estava bem. A espera era torturante.
Tio Emmett estava agora onde eu estivera durante toda a noite. Havíamos trocado de lugar por recomendação da tia Alice. Já que tinha sido ele quem a resgatara, seria aconselhável que ela o visse primeiro, para que a sensação de segurança não se perdesse. Dependendo da sua reação, eu poderia surgir em seu campo de visão. 
Aos poucos, ela começava a dar os primeiros sinais de que estava prestes a acordar. Um movimento fraquinho nos dedos das mãos ... um gemido quase inaudível ... uma contração suave nas feições do rosto ... De repente, seus olhos estavam abertos e ela olhava fixamente para o rosto do pai. Parecia não estar ciente de onde estava e do que tinha acontecido.
_ Oi filhota! – tio Emmett sussurrou inseguro – Como você está se sentindo?
Ela não disse nada. Apenas continuou a olhá-lo fixamente, as sobrancelhas unidas sobre os olhos em um claro sinal de confusão. Meu coração martelava em meu peito pela expectativa do momento em que ela se daria conta da realidade. Eu morria de medo da sua reação. Mesmo que o pior não tivesse acontecido, a experiência por si só era traumatizante o suficiente. Seus olhos, de repente se arregalaram e seu rosto se contorceu em uma expressão de puro desespero.
_ Não foi um pesadelo! – aquilo não era uma pergunta.
Tio Emmett a abraçou com força quando o choro descontrolado explodiu. Doía vê-la tão destruída, minha vontade era correr até ela e apertá-la em meus braços até que todo aquele sofrimento passasse para mim. Eu preferia sentir a dor dela por toda a eternidade a vê-la chorar por um segundo que fosse.
_ Você vai ficar bem, filha! Eu estou aqui com você! Você está segura agora! – tio Emmett sussurrava repetidamente em seu ouvido, tentando acalmá-la.
Soluços intensos sacudiam o seu corpo pequeno e frágil. Mel apertava seus braços em volta do pescoço do pai em busca de apoio. Seus olhos, de repente me viram paralisado no canto do quarto. A expressão torturada em seu rosto me fez correr até ela. Eu já tinha chegado ao meu limite. Mel se soltou dos braços do pai e se jogou em meus braços, me apertando com toda a sua força. Eu a apertava contra o meu corpo, tentando manter o controle e não desabar em lágrimas junto com ela. Tio Emmett tinha se afastado um pouco para que ela não o visse chorar. Era insuportável senti-la tão trêmula e tão fragilizada em meus braços.
_ Shhh... Não chore, amor! Eu estou aqui com você! – consegui dizer com a voz embargada – Eu não vou a lugar nenhum, eu prometo!
_ Eu amo você! – ela conseguiu dizer com muito esforço, sua voz entrecortada pelos soluços.
_ E eu amo você! – respondi colando a minha testa na dela.
Mel me encarou com aqueles enormes olhos azuis tão tristes, mas um sorriso tímido brotou em seus lábios.
_ Me beije! – ela sussurrou e, sem esperar a minha resposta, colou seus lábios nos meus.
Eu procurava uma palavra que pudesse definir o que eu estava sentindo naquele momento, mas ter os lábios da minha menina roçando nos meus acabava com qualquer linha de raciocínio que eu pudesse ter. Suas mãos macias acariciando meus cabelos enviavam ondas elétricas por todo o meu corpo. Eu podia sentir o seu corpo menos trêmulo contra o meu. Ela estava se acalmando, se sentindo segura e saber que eu estava lhe proporcionando isso me enchia de alegria. Até aquele momento eu estava morto de medo de que ela não me deixasse chegar perto dela, mas, para o meu total alívio, ela estava relaxada em meus braços. Permanecemos calados por um bom tempo, apenas abraçados um ao outro, sentindo o calor dos nossos corpos e a sensação maravilhosa que era estarmos novamente juntos. Em poucas horas, Mel iria para casa e voltaria a se fortalecer, deixando para trás toda aquela confusão. Só me restava esperar que Sofia acordasse para me sentir totalmente aliviado. Assim que eu soubesse que elas estariam seguras, começaria uma caçada. Aquele canalha não sairia impune, ele iria me pagar pelo que tinha feito, nem que fosse com a própria vida.


Narrado por Mel

  Quando abri os meus olhos, me sentia um pouco tonta. Não sabia exatamente onde estava. Só sentia que não estava em meu quarto. Meu pai estava ali, me olhando de uma forma estranha. Parecia triste. Fiquei feliz por vê-lo ao meu lado. Sua presença me fazia sentir segura, me dando a certeza de que tudo não tinha passado de um sonho ruim.
_ Oi filhota! – meu pai sussurrou – Como você está se sentindo?
No princípio aquela pergunta me deixou confusa. Aos poucos, a realidade foi tomando forma diante de mim. Meu coração batia dolorido no peito enquanto eu percebia que todo aquele pesadelo...
_ Não foi um pesadelo! – constatei desesperada.
Uma enorme sensação de insegurança começou a me dominar e não consegui controlar o choro que se seguiu. Meu corpo foi envolvido pelos braços fortes e protetores do meu pai que sussurrava palavras de conforto em meu ouvido. Eu sentia a minha cabeça latejar, meus punhos feridos doíam. Eu sentia a falta de Brian. Será que Mark estivera certo o tempo todo? Será que agora eu era imunda aos olhos dele? Era por isso que ele não estava aqui? A simples possibilidade de que isso fosse verdade me desesperou ainda mais. Eu me agarrava em meu pai em busca de conforto, soluçando intensamente. Uma sensação estranha tomou conta de mim. Era como se eu estivesse sendo observada. Abri os meus olhos e o vi ali, parado, me olhando como se estivesse com medo de se aproximar. Eu queria tanto que ele me abraçasse!
De repente, eu estava em seus braços. Ele me abraçava com força, do jeito que eu queria que ele fizesse, do jeito que eu precisava que ele fizesse. Eu também o apertava em meus braços com toda a força que eu tinha. Eu não poderia deixá-lo se afastar de mim. Eu morreria se ele o fizesse.
_ Shhh... Não chore, amor! Eu estou aqui com você! – ele dizia com a voz suave – Eu não vou a lugar nenhum, eu prometo!
Aquilo era tudo o que eu precisava ouvir para me sentir segura novamente. A promessa de que ele estaria ao meu lado me trazia uma enorme sensação de paz. Se ele estivesse comigo, eu conseguiria superar qualquer coisa.
_ Eu amo você! – essa era a maior verdade da minha vida.
_ E eu amo você! – ele respondeu com um sorriso triste, mas lindo nos lábios, colando as nossas testas.
Meus olhos se fixaram em seus olhos verdes, ternos e brilhantes. Eu estava morta de saudades dele. Embora estivesse consciente da presença do meu pai naquele quarto, eu não podia mais esperar. Eu precisava senti-lo.
_ Me beije! – pedi ansiosa, sem conseguir esperar pela sua resposta.
Sentir a maciez dos lábios de Brian colados aos meus novamente me deu um sopro de vida, me devolveu a força e a vontade de lutar. Eu sabia que não seria fácil superar os traumas daquela experiência apavorante, mas com Brian ao meu lado, eu me sentiria mais forte, me sentiria mais segura e enfrentaria qualquer dificuldade de cabeça erguida.

Narrado por Sofia

        Eu sentia como se estivesse voltando de uma longa viagem, mas não me lembrasse de onde estivera. Eram poucas a coisas que eu podia distinguir. A dor lancinante que parecia que iria partir a minha cabeça em mil pedaços, os músculos do meu corpo rígidos como uma rocha e uma confusão enorme em minha mente. Onde eu estava afinal? O que tinha acontecido comigo? Por que a minha cabeça doía tanto?
        Lentamente, comecei a ouvir ruídos distantes e a sentir odores estranhos. Eu não estava em meu quarto, disso eu já sabia. Aquele colchão sob o meu corpo não era o da minha cama. Alguma coisa fina e dura espetava a minha mão provocando uma dorzinha irritante. Abri os olhos para o quarto escuro, mas minha cabeça latejou insuportavelmente assim que o fiz. Não consegui evitar um gemido de dor, fechando imediatamente os olhos em busca de algum alívio. Acho que voltei a dormir. Algum tempo depois, senti um toque suave de dedos em meu rosto e meus lábios foram carinhosamente envolvidos por lábios macios. Sorri. Finalmente, uma sensação boa no meio de todo aquele caos.
        _ Oi, princesa! – a voz carinhosa de Seth sussurrou em meu ouvido – Senti a sua falta!
        _ Oi, amor! – respondi sentindo uma pontada forte na cabeça – Ai! Minha cabeça dói!
        Tentei levar a mão à cabeça, mas Seth segurou levemente meu braço me impedindo de alcançá-la.
        _ Fique quietinha, amor! Logo essa dor vai melhorar! – ele disse colocando meu braço de volta ao lado do meu corpo.
        Senti seus lábios tocarem levemente a minha testa, o perfume da sua pele invadindo as minhas narinas.
        _ Onde eu estou? – perguntei ainda de olhos fechados, minha cabeça parecia que ia explodir – Por que a minha cabeça dói tanto?
        Um silêncio estranho tomou conta do quarto por alguns segundos. Senti o toque suave da mão de Seth acariciando a minha barriga.
        _ Qual é a última coisa de que você se lembra? – ele perguntou com um tom de voz estranho.
        Eu queria muito abrir os olhos e tentar decifrar em seu rosto o motivo daquela pergunta, mas tinha medo de que a minha cabeça voltasse a latejar como da primeira vez. Busquei em minha memória alguma lembrança dos últimos acontecimentos, mas era como se algo tivesse sido apagado. Senti-me ainda mais confusa e angustiada.
        _ Eu saí de casa com a Mel. Nós fomos procurar um vestido para ela ... – notei que a partir dali eu não sabia de mais nada – ... E agora eu estou aqui. O que foi que aconteceu comigo?
        Mais um longo momento de silêncio se passou antes que ele respondesse à minha pergunta.
        _ Você sofreu uma pancada forte na cabeça, amor! – Seth respondeu com uma voz suave demais. Parecia estar escolhendo as palavras para falar comigo – É por isso que a sua cabeça dói, mas a dor vai passar logo, fique tranquila.
        Havia algo mais acontecendo, eu poderia jurar. Seth continuava a acariciar a minha barriga e, se não fosse pela dor de cabeça enlouquecedora, eu estaria pegando fogo agora. Abri vagarosamente os olhos, testando para ver se minha cabeça voltaria a latejar. A dor não aumentou dessa vez, talvez pela escuridão do quarto. Tenho certeza de que, se a luz estivesse acesa, eu não conseguiria mantê-los abertos. No entanto, ficar ao lado de Seth sem poder ver o seu rosto era um pecado.
        _ Amor? Você me faria um favor? – perguntei sentindo uma nova fisgada na minha cabeça.
        _ Qualquer coisa, princesa! – ele respondeu carinhosamente.
        _ Acende a luz! Eu quero ver o seu rosto! – pedi ansiosa.
Narrado por Seth

Ela tinha aberto os olhos por um breve instante soltando um gemido de dor. Mesmo que tenha voltado a dormir, eu já me sentia aliviado por saber que ela apenas dormia por causa dos medicamentos, não estava mais desacordada. Bella e Edward entraram no quarto poucos minutos depois e ficaram mais tranqüilos em saber que ela tinha voltado a si, mesmo que por breves segundos.
Duas horas mais tarde, ela voltou a acordar. Seu rosto já não apresentava mais a palidez de antes da transfusão. Sua pele estava novamente corada e apesar do curativo que envolvia a sua cabeça, ela estava mais linda do que nunca. A única coisa que me faltava era que ela me olhasse e me presenteasse com aquele brilho azul intenso que só ela tinha nos olhos. Mas, talvez, a luz ainda a incomodasse. Ela conversava comigo, mas permanecia de olhos fechados. Fiquei preocupado quando ela mostrou não se lembrar do que tinha acontecido. Será que a lesão no cérebro tinha afetado a memória dela? O olhar de Edward para mim me tranqüilizou. Ele apenas moveu os lábios silenciosamente me dizendo que aquilo “era normal”.
Inconscientemente, minha mão acariciava o ventre de Sofia. Era automático. Desde o momento em que soube do tesouro que ela carregava, eu não conseguia evitar tocá-lo, mesmo que fosse sobre a pele dela. Eu não via a hora de poder contar para ela e ver seus olhos brilharem de emoção. Queria chorar de felicidade junto a ela, mas, antes, precisávamos ter certeza de que ela estava bem e que não corria mais riscos.
Sofia parecia serena apesar da dor que sentia na cabeça. Seus olhos começaram a se abrir lentamente, talvez testando se a claridade os incomodaria. Aparentemente, tudo estava bem, mas o pedido que veio a seguir, me fez gelar ao seu lado.
_ Acende a luz! Eu quero ver o seu rosto! – ela disse.
Bella sufocou um grito de desespero levando as mãos aos lábios. Edward imediatamente a abraçou e a levou para fora do quarto para não alarmar Sofia. Eu não sabia o que fazer, não sabia o que dizer. Todo o alívio que eu vinha sentindo por vê-la acordada e falando comigo se foi assim que ela me fez aquele pedido. Quando ela abriu os olhos pela primeira vez e logo os fechou, eu tinha pensado que a claridade do sol iluminando o quarto a tivesse incomodado. Depois, mesmo estando acordada ela continuava sem abri-los e, mais uma vez, eu pensei que estivesse evitando olhar para a luz intensa. Meu coração estava de novo apertado em meu peito. Embora olhasse diretamente em minha direção, ela não podia me ver. Não percebia a luz do sol entrando pela janela do quarto e eu não encontrava a coragem de lhe dizer a verdade. Eu não sabia como dizer.
Tentando me convencer que aquilo tudo era real, passei a mão diante dos olhos de Sofia algumas vezes. Eles não se moveram. Sofia me “olhava” ansiosa, esperando que a luz fosse acesa. Eu precisava dizer alguma coisa, mas o que?
_ Jasper pediu para que nós evitássemos expô-la à luz antes de examinar você, princesa! – disse a primeira coisa que me veio à cabeça – A luz pode piorar a sua dor de cabeça! – menti.
_ Acho que não tem como ficar pior do que já está, amor! – ela insistiu.
_ Fique quietinha, minha vida! Descanse! Logo ... logo ele virá examiná-la e nós vamos ter certeza de que você está bem! – tentei distraí-la.
Ela sorriu assentindo e fechou novamente os olhos. Meus olhos também se fecharam, mas buscando algum controle. Eu fazia um esforço imenso para respirar normalmente enquanto o que eu mais queria era gritar de desespero.
Alguns minutos tinham se passado quando Jasper entrou no quarto seguido de Edward e Bella, que já tinha conseguido se controlar. Sofia abriu os olhos assim que ouviu a porta se abrir. Jasper se aproximou da cama e acariciou seu rosto. Os olhos dela agora estavam cheios de lágrimas. Era angustiante vê-la assim.
_ Oi, Sofia! Como você está se sentindo? – ele perguntou em um tom preocupado.
_ Minha cabeça dói – ele disse soltando um gemido.
_ Eu vou medicá-la e em poucos minutos a dor vai diminuir, mas antes eu preciso examiná-la, está bem? – ele pediu já lançando um fino feixe de luz sobre os olhos de Sofia.
Ele já a estava examinando sem que ela percebesse. Enquanto ele examinava seus olhos, Edward aferia a sua pressão e ouvia seus batimentos cardíacos. Eu assistia a tudo apreensivo, implorando para que ela estivesse realmente bem. De repente, Sofia começou a chorar silenciosamente, grossas lágrimas escorrendo pelo seu rosto.
_É permanente? – ela perguntou com a voz sufocada – Eu sei que o quarto não está escuro. Vocês não iriam me examinar sem acender as luzes. Só me digam a verdade, por favor. É permanente?
Um silêncio desconfortável tomou conta do quarto antes que Jasper dissesse alguma coisa.
_ Não há nada de errado com os seus olhos, Sofia! – ele começou – As suas pupilas reagem normalmente à luz o que indica que os seus olhos estão bem. O que acontece é que você levou uma pancada forte que deixou uma pequena lesão no lobo occipital, que é responsável pela nossa visão. Com o tempo, essa lesão vai desaparecer e, aos poucos a sua visão vai voltar ao normal.
_ Quanto tempo? – ela perguntou aos soluços.
_ Não há como prever um prazo, Sofia! O tempo de recuperação varia de paciente para paciente, mas a lesão é pequena, então, não deve demorar muito – Jasper explicou enxugando as lágrimas do rosto de Sofia que segurava a minha mão com força – É muito importante que você faça repouso absoluto pelo menos nos primeiros dias. Nada de descer e subir escadas ou sair para a rua porque você pode vir a sentir tonturas, enjôos ou até mesmo desmaiar.
Sofia apenas assentiu. Estava calada e tentava aparentar uma calma que eu sabia que ela não sentia. A mão trêmula e suada apertava a minha em busca de apoio. Sentei-me na beirada da cama e abracei o seu corpo da melhor maneira que pude sem causar-lhe dor. Colei a minha testa na dela e fechei os meus olhos, sentindo aos poucos os soluços darem lugar à respiração normal. Percebi que as pessoas deixaram silenciosamente o quarto, nos dando privacidade. Senti o toque gentil dos dedos delicados traçando detalhadamente as feições do meu rosto.
_ Eu estou com medo! – ela disse com a voz triste depois de algum tempo em silêncio.
_ Eu estou aqui! Estou com você! Sempre! – prometi tentando passar segurança.
_ Eu sei! – ela respondeu com um sorriso fraco nos lábios – e é só isso que me dá forças para lutar, é você que não me deixa desistir!
_ Existe outro motivo muito forte para que você lute! – respondi sentindo meu coração acelerar no peito.
_ Que motivo? – ela perguntou confusa.
Peguei sua mão direita, beijando-a e descendo-a por seu corpo parando em seu ventre. Nossas mãos unidas acariciando-o levemente.
_ Nosso filho! – eu disse emocionado vendo seus olhos se iluminarem e um sorriso lindo nascer em seus lábios.



domingo, 18 de setembro de 2011

Capítulo XIX – Espera


                                    
Narrado por Brian

         Seth e eu tínhamos ido a Port Angeles para buscar os nossos ternos para o casamento. Tínhamos passado boa parte do dia fora e voltávamos para Edmonds por volta das 15 horas. Eu já estava morto de saudades de Mel, mas resolvi parar em casa para tomar um banho antes de ir lhe dar um beijo. Ao entrarmos em casa, fomos surpreendidos pelo choro desconsolado de Linda que era abraçada por Jay no sofá da sala.
        _ Lindinha, o que foi que aconteceu, meu anjo? – corri em sua direção assim que a vi naquele estado.
        Linda se soltou de Jay e agarrou-se ao meu pescoço chorando ainda mais intensamente.
        _ S-Sofia! – foi a única palavra que ela conseguiu dizer.
        Meu coração disparou em meu peito. Um medo enorme do que poderia ter acontecido começou a tomar conta de mim. Eu estava congelado no meio da sala, esperando que Linda dissesse mais alguma coisa, sentindo o meu corpo todo bambo.
        _ Aconteceu alguma coisa com a Sofia? – perguntei com medo da resposta.
        Linda assentiu sem conseguir dizer nada, o choro intenso a impedindo de falar. Foi Jay quem nos explicou o que tinha acontecido.
        _ Ela foi encontrada desacordada no estacionamento do shopping com um ferimento na cabeça! – Jay nos disse olhando diretamente nos olhos de Seth.
        Levantei-me, de repente, como se tivesse levado um choque elétrico. Recuei dois passos com a respiração acelerada, sentindo o mais absoluto desespero.
        _ Mel? – foi tudo o que consegui dizer.
        _ Ainda não sabemos. – Jay disse com a expressão torturada.
        Eu não precisava perguntar mais nada. Corri de volta para o carro com Seth em meu encalço. Ele mal havia tido tempo de entrar no carro e eu já arrancava em alta velocidade em direção ao hospital. Uma sensação horrível tomava conta do meu corpo. Eu dirigia como um louco pelas ruas, avançando todos os sinais vermelhos sem sequer pensar em frear. Parecia não enxergar nem mesmo a pista à minha frente. Seth parecia não estar muito diferente. Meus pensamentos estavam todos voltados para Sofia e Mel. Como elas estariam? O que teria acontecido exatamente?
        Senti meu corpo ser sacudido com a freada forte do carro. Eu havia feito o percurso que levaria 15 minutos em apenas 5. Saímos correndo do carro e disparamos para dentro do hospital. Corríamos pelos corredores como se nossas vidas dependessem daquilo. Bem. De certa forma, elas dependiam mesmo.  A recepcionista nos informou que Sofia estava sendo submetida a exames e nos indicou o quarto para onde ela seria levada quando tudo terminasse. Paramos em frente à porta, tentando acalmar a respiração. Meu peito queimava em busca de oxigênio quando entramos no quarto. Meus pais estavam sentados no sofá, esperando que minha irmã fosse trazida para o quarto. Meu pai abraçava minha mãe com força, a expressão torturada em seu rosto me deixando ainda mais apavorado.
        _ Pai! – consegui dizer com a voz sufocada.
        Ele apenas olhou para mim, os olhos cheios de lágrimas. Eu já não sabia até que ponto aguentaria aquilo tudo. Toda aquela espera angustiante por qualquer notícia estava me enlouquecendo.
        _ Ela ainda está passando por exames, filho! Chegou aqui inconsciente e com um ferimento feio na cabeça! – ele disse com a voz embargada e minha mãe estremeceu em seus braços.
        Eu não conseguia respirar. Embora quisesse saber como ela estava, morria de medo do que iria escutar.
        _ Quem fez isso com ela, pai? – minha voz saiu sufocada - Conseguiram prender o desgraçado?
        Ele apenas negou com a cabeça, mas seu olhar denunciava que tinha algo a mais por trás daquilo tudo. Seus olhos passaram rapidamente pelo rosto de minha mãe e ele voltou a nos encarar. Ele estava escondendo alguma coisa dela, estava tentando poupá-la de algo mais grave. Eu só não conseguia imaginar o que seria.
        Seth nos ouvia calado, encostado à parede do quarto com os olhos marejados cravados no leito vazio. Seu silêncio denunciava todo o medo que ele sentia. O mesmo medo que se estendia a todos nós.
        _ Está demorando tanto, Edward! – a voz chorosa e sussurrada de minha mãe quebrou o silêncio que perdurava já há alguns minutos.
        _ Fique aqui, amor! Eu vou até lá ver o que está causando toda essa demora! – meu pai disse depositando um beijo na testa de minha mãe e se levantando. – Brian, vem comigo?
        O olhar do meu pai mais uma vez me disse que havia algo por trás daquilo tudo. Minhas pernas estavam bambas, minhas mãos suavam e tremiam. Eu estava morto de medo do que ele tinha para me dizer. Algo me dizia que aquilo poderia acabar com a minha vida.
        Seth havia se sentado ao lado de minha mãe e segurava sua mão quando saímos do quarto. Meu pai caminhava pelos corredores de cabeça baixa, seu silêncio estava me enlouquecendo. Eu estava a ponto de explodir.
        _ Pai! – o chamei simplesmente. Ele sabia o que eu queria saber.
        _ Mel estava com ela, Brian! Mark Sanders bateu na sua irmã e o golpe fez com que ela caísse e batesse a cabeça em uma pilastra do estacionamento. – ele disse com a voz sufocada – Mel, de alguma forma, conseguiu ligar para o celular do Emmett sem que Mark percebesse e nós ouvimos tudo.
        Minha cabeça rodava com as possibilidades que se apresentavam diante dos meus olhos. Se Mel estava com Sofia, então, o que tinha acontecido com ela? Onde ela estava? De repente, a junção dos nomes de Mark Sanders e Mel na mesma frase fez meu corpo todo se arrepiar. Olhei apavorado para o rosto do meu pai sem coragem de perguntar. Meu pai pareceu ler os meus pensamentos.
_Nós ainda não tivemos notícias, filho! Emmett me ligou, quando eu estava voltando do shopping trazendo a sua irmã, dizendo que estava indo com a polícia atrás deles. Ele rastreou o celular da Mel pelo GPS e estava furioso ao telefone, mas depois disso ele não voltou a ligar.
Peguei o meu telefone já discando o número do celular do tio Emmett. Meu coração batia disparado no peito quando ele atendeu.
_ Tio? Onde ela está? Como ela está? Vocês conseguiram pegar aquele desgraçado? – minhas perguntas saíam atropeladas. Minha ansiedade não me permitia pensar direito.
_ Ela está bem, Brian! O bastardo conseguiu fugir, mas eu consegui chegar antes que o pior acontecesse. Ela está sedada agora porque chegou aqui muito abalada e não permitia que ninguém tocasse nela para cuidar dos ferimentos ... – ele dizia sem tomar fôlego, mas eu o interrompi apavorado.
_ Ferimentos? Tio, o que aquele cachorro fez com a Mel? – eu gritava descontrolado – Por favor, me diz onde vocês estão? Eu preciso ver como ela está.
Meu tio me passou o número do quarto do hospital onde Mel estava. Corri para lá enquanto meu pai buscava notícias de Sofia. Eu estava dividido. De um lado, minha irmã estava ferida e não sabíamos a gravidade dos seus ferimentos. De outro, a mulher que eu amo tinha acabado de passar por uma situação traumatizante e só Deus poderia saber como ela iria reagir a tudo aquilo. Se antes eu tinha raiva daquele moleque insolente por perseguir a minha Mel, agora eu sentia um ódio mortal por ele ter ferido a minha irmã e por ter tentado sequestrar a minha menina. Saber que ele estava solto por aí só me fazia sentir mais ódio ainda. Ele ainda representava uma ameaça. Ele ainda poderia tentar alguma coisa contra Mel. Por mais que eu não pudesse nem pensar nessa possibilidade, no fundo eu torcia para que ele fosse burro o suficiente para tentar. Da próxima vez, eu estaria preparado. Da próxima vez, ele não sairia vivo.

Narrado por Seth

        Um ódio sobrenatural se apossava de mim toda vez que eu me lembrava das palavras de Jay. Pensar que aquele fedelho metido a homem tentou sequestrar Mel e bateu em Sofia me fazia querer levantar daquela poltrona e persegui-lo até o inferno. Eu nem conseguia imaginar o que faria com ele caso o encontrasse. As formas mais cruéis de tortura não me pareciam severas o bastante para ele. Ele merecia mais ... muito mais...
        Cinco horas. Eu olhava o relógio à minha frente e seguia cada movimento do ponteiro dos segundos. Sofia estava desacordada havia cinco angustiantes horas. O rosto ainda pálido e frágil carregava a marca da bofetada que aquele sujeito lhe havia dado. Ela havia sido trazida para o quarto pouco depois que Edward e Brian saíram em busca de notícias. Jasper e tio Jake tinham feito todos os exames possíveis e necessários para saber a gravidade da pancada na cabeça. Sofia havia sofrido uma fratura da parte posterior do crânio e a tomografia acusou uma pequena lesão no lobo occipital. Jasper havia me explicado que a lesão não era permanente, em termos leigos, era semelhante a um hematoma sobre a pele, e desapareceria com o tempo. Só nos restava esperar que Sofia acordasse para que ele pudesse confirmar se a visão havia sido afetada pela lesão ou o quanto ela teria sido afetada.
        Edward dormia no sofá no canto do quarto depois de ter obrigado Bella a ir para casa. Ela estava exausta e ele a convenceu a ir alegando que os filhos estariam assustados e que precisavam saber que a irmã estava bem. Eu tinha pensado em convencê-lo a ir com Bella, mas o olhar angustiado que ele direcionava para a filha me desencorajou.
Minha cabeça doía de forma enlouquecedora. A tensão provocada pelo medo e pelas horas de espera tinha transformado meus músculos em pedra. Todo o meu corpo estava rígido, eu precisava me esticar um pouco. Levantei-me cuidadosamente para não perturbar o sono de Edward e saí do quarto depois de depositar um beijo suave nos lábios de Sofia. Caminhei sem destino pelos corredores e quando dei por mim estava parado diante da porta do quarto de Mel. Abri lentamente a porta para checar se todos dormiam. A luz do corredor iluminou levemente o quarto escuro e pude ver o rosto cansado de Brian que estava sentado na poltrona ao lado da cama de Mel e segurava uma de suas mãos. Entrei e caminhei em sua direção, parando ao lado da cama. Mel dormia aparentemente serena, sob o efeito do sedativo que lhe haviam aplicado.
_ Como ela está, Brian? – sussurrei para não perturbar o sono de Mel.
_ Fisicamente, ela está bem! – ele sussurrou de volta sem desviar os olhos angustiados do rosto de Mel. – Minha irmã já acordou?
_ Ainda não! – respondi sentindo meu coração ainda mais espremido no peito – Eu não vejo a hora de vê-la acordada! Esta espera está me matando!
_ Eu sei! Eu sinto a mesma coisa! – ele respondeu, o olhar torturado cravado no rosto de Mel.
_ Onde estão os pais dela? – perguntei ao não ver Emmett e Rose ali.
_ Tio Emmett foi levar tia Rose para casa. Ela estava exausta, mas se recusava a ir e deixá-lo aqui. Acho que depois que ela estiver dormindo ele volta para cá! – ele me respondeu com um fio de voz.
Depois disso, não dissemos mais nada. Brian permanecia acariciando suavemente a mão de Mel sem deixar de olhá-la por um segundo que fosse. Ficamos ali, em silêncio, por incontáveis minutos até que resolvi voltar para o quarto de Sofia. Quando entrei, Edward estava de pé ao lado da cama da filha, acariciando o seu rosto com a ponta dos dedos. Aproximei-me dos dois. Edward não parecia estar consciente da minha presença ali. Ele olhava para o rosto da filha de uma forma tão intensa que chegava a dar a impressão de que ele estava lendo os seus pensamentos.
_ Hey, bonequinha! – ele sussurrou depois de algum tempo, uma lágrima sofrida rolando dos seus olhos – Acorda, filha! Olha para mim?
Sofia permanecia quieta, para o meu total desespero. Ergui a mão vacilante e toquei levemente o seu rosto. A pele suave e macia, normalmente rosada, agora estava pálida. Edward me encarou com os olhos cheios de lágrimas, fazendo meu coração bater sufocado em meu peito.
_ Fique um pouco aqui com ela, Seth! Eu preciso respirar um pouco de ar fresco! – ele disse saindo apressado do quarto.
Era visível o esforço que ele fazia para não chorar na minha frente. Eu sabia que assim que ele estivesse do lado de fora daquele quarto, as lágrimas viriam com força. A mesma força com que as minhas lágrimas tentavam romper a barreira que eu tinha me forçado a construir. Apesar de me sentir totalmente perdido e aflito sem saber o que estava acontecendo com Sofia, eu sabia que precisava me manter sob controle. Quando ela acordasse, eu estaria lá para dar todo o apoio e carinho que ela precisasse. E para isso, eu precisava estar inteiro, eu precisava ser forte. Por ela.
Eu ainda estava parado ao lado do leito, acariciando o rosto de Sofia quando a porta se abriu. Por ela passou uma enfermeira seguida por meu tio. Sua expressão estava carregada, eu não saberia dizer se de preocupação ou de cansaço. Com medo do que aquela expressão poderia significar, permaneci calado. A enfermeira passou por mim e pendurou, ao lado do soro, uma bolsa com um líquido vermelho e viscoso. Sangue. Olhei assustado para o rosto do meu tio em busca de uma explicação para aquilo tudo. O que estava acontecendo com Sofia, afinal?
_ Os exames de sangue acusaram uma leve anemia, Seth! Provavelmente devido à perda de grande quantidade de sangue. Vamos fazer uma transfusão para que o seu corpo se recupere mais rapidamente. Agora, mais do que nunca, ela deve estar forte. – ele esclareceu.
_ O que você quer dizer com isso, tio? Por que agora mais do que nunca? – perguntei estranhando a sua forma de se expressar.
Tio Jake olhou rapidamente para a enfermeira e de novo para mim. O que quer que ele tivesse para me dizer, não queria dizer diante dela. A enfermeira pareceu levar uma eternidade para conectar a bolsa de sangue em Sofia e sair do quarto, ou então a minha ansiedade já teria atingido níveis tão absurdos que um segundo pareceria durar séculos. Assim que ela saiu, tio Jake me puxou para um canto do quarto. Meu coração estava novamente disparado em meu peito, o medo do que ele teria a dizer quase me provocando um ataque cardíaco. Nos sentamos no sofá e tio Jake me encarou sério.
_ Você a ama muito, não ama? – ele perguntou de repente.
Que diabo de pergunta era aquela e, principalmente, em um momento como aquele? Franzi o cenho confuso com aquela pergunta. A resposta era tão óbvia que a pergunta me parecia absurda.
_ O senhor sabe que sim, tio! Mais do que qualquer coisa neste mundo! O que está acontecendo, afinal? – perguntei olhando aflito para o rosto de Sofia.
Tio Jake não disse nada. Apenas me entregou uma pasta com o logotipo do hospital. Exames. Deus do céu! O que tinha ali de tão sério? Minhas mãos tremiam ao abrir aquele documento. Meus olhos correram rapidamente pelo conteúdo. A maior parte do que estava escrito ali eu não era capaz de entender, mas o resultado do último exame fez com que o meu coração quase explodisse o meu peito, batendo forte e disparado. Minha cabeça começou a girar, meu olhos se encheram de lágrimas, minhas mãos trêmulas e suadas soltaram o papel e voaram para o meu rosto e o choro que eu tinha mantido sob controle até aquele momento explodiu com fúria.
_ O senhor tem certeza de que esse exame está certo, tio? – perguntei, tempos depois, com dificuldade, minha voz entrecortada pelos soluços intensos.
_ Está, filho! Agora, mais do que nunca, você precisa ser forte! Sofia vai precisar de você e você não vai poder mostrar fragilidade. Seja o homem que eu sei que você é e fique ao lado dela. – ele disse me abraçando.
Levantei-me do sofá e caminhei de volta para ela. Acariciei a sua pele ainda pálida com a ponta dos dedos. Embora minhas lágrimas me impedissem de vê-la com clareza, a mancha arroxeada que surgia em seu rosto, no local em que ela havia sido atingida, começava a se pronunciar. Medo. Ódio. Angústia. Felicidade. Um turbilhão de sentimentos tomava conta de mim, bagunçando ainda mais a minha cabeça. Se antes eu já tinha motivos para odiar Mark Sanders, agora, depois de ver aquele exame, eu queria matá-lo com as minhas próprias mãos. E eu não deixaria que ele tivesse a oportunidade de ferir mais ninguém. No que dependesse de mim, os seus dias estariam contados.


       
       
       

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Capítulo XVIII – Resgatadas




Narrado por Edward
        
Emmett e eu estávamos havia horas conversando em sua sala. A ala pediátrica tinha crescido assustadoramente nos últimos anos e precisava de um administrador exclusivo. Pensávamos na possibilidade de colocá-la sobre a responsabilidade de Brian e Seth, transformando-a em uma clínica pediátrica independente do hospital. Como diretor do setor, eu não me opunha, mas precisávamos ainda verificar as implicações jurídicas de nossa atitude.
_ ... de qualquer forma, essa transição não aconteceria da noite para o dia, Edward. Enquanto isso, eles podem passar um período aqui comigo para se familiarizar com ... – ele foi interrompido pelo toque do seu celular.
_ Atende, Emmett! – eu disse quando ele hesitou – Pode ser importante!
_ É a Mel! – ele disse sorrindo ao ver o nome da filha no visor – Oi, filhota do papai!
Seu sorriso, de repente, esmaeceu. Emmett me olhava visivelmente assustado.
_ Emmett, o que foi? Algum problema com a Mel? – perguntei ansioso com o seu silêncio.
Ele não me respondeu. Colocou o telefone no viva-voz deixando-o sobre a mesa. Do outro lado da linha, podíamos ouvir a voz chorosa de Mel, mas ela não falava com o pai.
_ Mark, pelo amor de Deus, nós precisamos voltar! Sofia está ferida! Não podemos deixá-la caída no estacionamento do shopping! – meu coração acelerou ao ouvir aquilo. Minha filha estava ferida?
_ Não me importa! Eu não vou voltar lá e ser preso por agressão! Eu não sou nenhum estúpido, Melinda! – ele respondeu aos gritos. O desgraçado tinha agredido a minha menina e a deixado caída sem socorro.
Meu corpo praticamente saltou da cadeira, minhas mãos trêmulas e suadas já buscavam o pager. Eu precisava acionar a equipe de emergência do hospital e correr para o shopping.
_ Mas ela está mal, está sangrando muito! Nós precisamos levá-la a um hospital! – ela gritava aos prantos.
_ EU JÁ FALEI QUE NÃO IMPORTA, DROGA! – ele gritava a plenos pulmões – AGORA CALA ESSA MALDITA BOCA ANTES QUE EU PERCA O CONTROLE DE NOVO E BATA EM VOCÊ TAMBÉM!
Eu não podia mais ficar parado ali. Corri daquela sala, deixando Emmett congelado em sua cadeira ouvindo o desespero da filha. Eu disparava pelos corredores como um louco, a adrenalina correndo descontrolada pelo meu corpo me deixando cada vez mais trêmulo. Eu tinha que me controlar, precisava pensar com clareza para prestar socorro à minha filha. A equipe de emergência já estava a postos me esperando quando os avistei. Entrei em meu carro, arrancando em alta velocidade sendo seguido pela ambulância. Os carros, nas ruas, paravam nos acostamentos nos dando passagem. Minhas mãos suavam, escorregando pelo volante quando entramos no estacionamento do shopping. Uma pequena quantidade de curiosos, que se amontoava tentando ver o que tinha acontecido, se espalhou ao ver a ambulância encostando e os paramédicos retirando a maca para remover minha menina dali.
Corri em direção a Sofia. Não sabia há quanto tempo ela estava inconsciente, não fazia idéia da extensão dos seus ferimentos, mas a enorme poça de sangue que se acumulava perto de sua cabeça me fez prender a respiração. Jake, que tinha me acompanhado com a ambulância, examinou o ferimento na cabeça de Sofia, estancou o sangue, passou o colete cervical em seu pescoço e imobilizou o seu corpo, prendendo-o à maca. Eu não conseguia agir. Assistia a tudo petrificado, trêmulo, apavorado. Sofia não respondia a nenhum estímulo e a cada minuto que ela passava inconsciente a sua situação poderia se agravar ainda mais.
A maca foi colocada no fundo da ambulância e Jake me deu um olhar preocupado antes de desaparecer atrás da porta fechada. A ambulância saiu em disparada pelas ruas de Edmonds de volta ao hospital, as sirenes afastando todos os carros do caminho na medida em que passávamos por eles. Eu não conseguia mais enxergar a estrada. Dirigia no piloto automático, minha mente me atormentando com a imagem da minha menina ferida ... inconsciente. Eu revivia com riqueza de detalhes os momentos angustiantes que enfrentara na época em que Bella estava grávida de Sofia. A crise de hipertensão que poderia ter acabado em tragédia, a tensão constante pela ameaça de Michael, o desespero ao acharmos que ele a tinha sequestrado ... Tínhamos lutado tanto, enfrentado tantas dificuldades e agora corríamos mais uma vez o risco de perdê-la. O olhar de Jake me dissera que o ferimento poderia ser grave. Eu implorava a Deus para que ele estivesse enganado, para que tudo aquilo não passasse de mais um enorme susto.
Bella. Deus do céu! Como eu iria contar a ela o que tinha acontecido? Como eu poderia dar uma notícia dessas a ela, vê-la desmoronar diante de mim e permanecer de pé? Eu ainda me fazia todas essas perguntas sem conseguir encontrar uma resposta sequer, quando o meu telefone tocou. Era Emmett.
_ Diga, Emmett! – atendi sem tirar os olhos da pista.
_ Edward, estou indo com a polícia atrás daquele bastardo. Ele está com a minha filha e nós vamos acabar com ele de uma vez por todas! – sua voz soava furiosa ao telefone. – Como está Sofia?
_ Ainda não sabemos, Emmett! – respondi com o coração apertado no peito – Ela está inconsciente e perdeu muito sangue. Estamos a caminho do hospital. Jake está com ela na ambulância.
Ele ficou em silêncio por quase uma eternidade. Meu corpo saltou de susto com o seu grito colérico.
_ Desgraçado! Eu vou matar aquele moleque com as minhas próprias mãos! Eu acabo com a minha vida, mas ele não vai mais tocar em um fio de cabelo das nossas meninas! Eu prometo, Edward!
Não houve tempo para que eu dissesse qualquer coisa. Emmett já tinha desligado. Eu só esperava que ele não fizesse nenhuma bobagem. Por mais que eu desejasse matar o bastardo eu mesmo, sabia que não era a atitude certa a ser tomada.
A ambulância parou em frente ao hospital e a maca foi rapidamente levada para o centro de traumatologia. No canto da sala, encostado em uma parede, eu observava os médicos e enfermeiros prestarem o socorro a Sofia. Minha cabeça rodava, meu estômago se contorcia e eu sentia que faltava pouco para minhas pernas falharem. Não há profissionalismo médico que se sustente quando alguém que a gente ama corre perigo de vida. A sensação de impotência é aterradora.
Eu respirava profundamente, tentando acalmar as batidas do meu coração e controlar a sensação de náusea que ainda me golpeava o estômago, quando a porta da sala se abriu com força de repente. O que eu mais temia tinha acabado de acontecer. Bella tinha ficado sabendo de tudo e acabava de entrar na sala em total desespero.
_ Jake? – ela sussurrou com o olhar assustado cravado em nossa filha. Ela ainda não tinha me visto.
Jake não respondeu e Bella fez menção de se aproximar da maca. Corri em sua direção e a puxei de volta abraçando-a por trás envolvendo a sua cintura com força.
_ Edward, o que foi que aconteceu? – ela me perguntou baixinho, sua voz saindo chorosa.
_ Ela foi agredida no shopping, amor! Estava caída inconsciente no estacionamento. – respondi simplesmente.
Bella levou a mão à boca abafando um grito de horror. Seus olhos me encaravam assustados. Seu corpo todo tremia em reação à notícia e eu decidi ocultar o resto, pelo menos por aquele momento. Era informação demais para absorver de uma só vez. Eu mesmo ainda não tinha conseguido processar aquilo tudo. Virei seu corpo de frente para mim e peguei o seu rosto com ambas as mãos forçando-a a olhar em meus olhos.
_ Ela vai ficar bem, amor! Vai ficar tudo bem, acredite em mim! – prometi sem estar totalmente seguro se toda aquela confusão teria uma solução favorável.
Bella apenas assentiu, deixando uma lágrima rolar de seus olhos. Apertei o seu corpo contra o meu em um abraço sufocante e depositei um beijo trêmulo em sua testa. Bella permaneceu quieta em meus braços, chorando silenciosamente. Meu coração batia dolorido no peito. Medo ... Raiva .... Angústia. Depois de receber os primeiros socorros, Sofia foi levada para a sala de tomografia. Ela ainda teria que passar por muitos exames até termos uma idéia da extensão dos seus ferimentos. Embora eu quisesse acompanhá-la, permaneci ao lado de Bella. Ela precisava de mim e eu sabia que Sofia estava em boas mãos. Jake e, depois, Jasper, cuidariam dela como cuidariam de suas próprias filhas. A sala da traumatologia foi, aos poucos, ficando silenciosa. O único ruído que eu identificava era o som dos soluços baixinhos de Bella que continuava fortemente agarrada a mim. Inspirei profundamente tentando manter o controle, pedindo a Deus que salvasse a nossa menina ... nosso tesouro ... nossa bonequinha ...

Narrado por Emmett

        Depois do susto e da inércia inicial provocados pelo telefonema de Mel, minha mente começou a trabalhar em uma velocidade espantosa. Eu ouvia a voz assustada da minha filha implorando para que aquele monstro voltasse para o shopping onde ele havia abandonado o corpo inconsciente de Sofia. Mel chorava desesperada, preocupada com a prima. Edward já tinha saído em busca da filha e eu precisava fazer alguma coisa para salvar a minha. A voz daquele moleque ameaçando a minha menina fazia o meu coração acelerar no peito, mas ele quase parou ao ouvir aquilo:
_ Mulher nenhuma diz não para mim, Melinda! Eu tenho uma reputação a zelar e não vou deixar que você seja a primeira a manchá-la.
_ O que ... o que você quer dizer com isso? – a voz de Mel soava apavorada – O que você vai fazer comigo, Mark?
 Eu soube o que ele queria dizer assim que ele pronunciou aquelas palavras. Eu não podia mais ficar parado ali. Acionei a polícia e informei sobre o sequestro da minha filha. Enquanto passava todas as informações para o delegado, entrei no programa de rastreamento de celulares e digitei o código do GPS do celular de Sofia. O site não demorou a me dar a sua exata localização. Passei a informação para o delegado e desliguei o telefone. Iria me encontrar com aquele demônio e esperava que a polícia não chegasse a tempo de me impedir de matá-lo. Liguei para Edward no caminho para a casa onde aquele monstro mantinha a minha filha e meu ódio só fez aumentar ainda mais quando meu irmão me informou do estado de Sofia. Lembrei-me da ameaça de Michael, da luta de Edward para manter a família segura, do seu completo desespero ao pensar que a filha tivesse sido levada, do descontrole de Bella ao saber da notícia. Minha filha não passaria por isso. Minha família não passaria por isso. Eu não iria deixar. Iria ao inferno, mas acabaria com a raça amaldiçoada daquele imbecil.
Parei em frente à casa abandonando o carro aberto, o motor ligado com a chave ainda na ignição. Já podia ouvir ao longe o barulho das sirenes. Eu não tinha muito tempo até que a polícia chegasse e tomasse conta da situação. Corri até a porta da frente e forcei a maçaneta. Inacreditavelmente, ela estava destrancada. Entrei. Do andar inferior eu podia ouvir o choro desesperado da minha menina. Meu coração batia cada vez mais forte e mais rápido em meu peito. Subi as escadas correndo, seguindo o som do choro da minha filha que vinha de trás da única porta trancada.
_ MEL! – gritei do lado de fora enquanto tentava arrombar a porta com meus pés – ABRE ESSA PORTA, SEU DESGRAÇADO! EU VOU ACABAR COM A SUA RAÇA MALDITA SE VOCÊ ENCOSTAR A SUA MÃO IMUNDA NA MINHA FILHA!
A porta não demorou a ceder. Partiu-se ao meio e tombou sobre o chão com um estalo seco. Disparei para dentro do quarto como um touro furioso, mas o monstro não estava mais lá. Tinha fugido pela janela como o covarde que era. Sobre a cama, encolhida na cabeceira como um bichinho acuado, minha menina chorava descontroladamente de olhos fechados. Seu corpo seminu tremia convulsivamente, todos os músculos contraídos pelo estresse. Seu braço trazia uma enorme mancha roxa, era visível a marca dos dedos do canalha. Os punhos sangravam, em carne viva. Aproximei-me vagarosamente, tentando não assustá-la ainda mais.
_ Filha? – eu a chamei baixinho, mas ela não reagiu – Mel? Olha para mim, meu amor? Acabou! Você está segura agora!
Ela abriu os olhos parecendo reconhecer a minha voz e me encarou. Seu olhar amedrontado me fez prender a respiração. Senti uma imensa vontade de chorar, mas precisava manter o controle ... por ela ... para ela.
_ Me ... me l-leva daqui, papai? – ela disse entre soluços.
_ Eu vou te levar, amorzinho! O papai vai te levar daqui! – eu sussurrei em seu ouvido abraçando o seu corpo frágil, cobrindo-o com uma manta. – Você está segura agora! Eu estou aqui com você!
A polícia logo invadiu a casa, mas o canalha já deveria estar longe dali. Por mais que eu desejasse ir atrás dele até o inferno, minha filha era a minha prioridade. Mel estava assustada, machucada e precisava de cuidados médicos. A casa estava toda cercada quando passei pela porta da frente com minha menina no colo. Ela se encolheu ainda mais em meus braços ao ver tantas pessoas estranhas. Estava aterrorizada e seu corpo ainda tremia muito. As lágrimas desciam livremente pelo rosto de anjo e meu coração já não aguentava mais vê-la tão fragilizada. Meu ódio por aquele moleque aumentava na proporção em que as lágrimas escorriam pelo rosto da minha garotinha. Soluços intensos sacudiam o corpo pequeno e frágil de Mel.
Coloquei-a sentada no banco do carro, mas ela não queria se soltar de mim. Eu não tinha como dirigir com ela naquele estado. Uma policial, vendo a minha aflição, ofereceu-se para tomar a direção. Sentei com Mel em meu colo no banco de trás enquanto o carro partia em direção ao hospital sendo escoltado por uma viatura da policia. Mel agarrava-se a mim como quem se agarra a um galho de árvore à beira do precipício antes de cair. Eu a apertava em meus braços, acariciando seus cabelos, tentando acalmá-la, mas nada parecia surtir efeito. Já estava à beira do desespero. Vê-la daquele jeito estava me matando.
O carro mal tinha parado em frente ao hospital e toda a equipe de emergência já corria em nossa direção. Saí com Mel em meus braços e tentei colocá-la sobre a maca, mas ela permanecia agarrada a mim. Entrei no prédio com ela nos braços, não poderia forçá-la a uma situação que a deixasse ainda mais fragilizada. Se ela precisava me sentir junto dela, ela me teria ali, durante todo o tempo que fosse necessário.
Na sala de emergência, ela se encolhia a cada vez que alguém chegava perto dela. Não permitia que ninguém além de mim a tocasse. Rose entrou na sala transtornada, correndo em nossa direção e abraçando a filha com força. Mel voltou a chorar convulsivamente, demonstrando uma fragilidade de cortar o coração. Tentávamos acalmá-la, mas nada parecia funcionar. Ela precisava de cuidados, seu punho ainda sangrava e a ferida precisava ser limpa. Ela precisava ser examinada, mas no estado em que estava, ela não permitiria que ninguém se aproximasse.
Rose foi obrigada a sedá-la para que pudéssemos examiná-la e cuidar de seus ferimentos. Não sei como descrever o alívio que senti quando Rose não encontrou nenhuma laceração que indicasse violência sexual. Meu maior medo era que eu não tivesse chegado a tempo de evitar que ele a marcasse daquela forma. Ela jamais se recuperaria de um trauma tão grande e tão horrendo. Mel não demorou a ser transferida para o quarto. Passaria a noite em observação. Fisicamente ela estava bem, mas, psicologicamente, ainda era muito cedo para dizer qualquer coisa. Ainda tínhamos que contar a Seth e a Brian sobre o que havia acontecido e tentar impedi-los de fazer qualquer bobagem. Eu precisava conversar com Edward, saber sobre o estado de saúde de Sofia, mas não queria sair de perto da minha filha. Rose dormia exausta no sofá no canto do quarto. Embora tivesse saído de um plantão de 24 horas, tinha se recusado a ir para casa, ainda que eu prometesse não arredar o pé do quarto de Mel.
Levantei-me da poltrona onde estivera sentado desde que Mel fora levada para o quarto ainda sedada. Aproximei-me da cama, acariciando o rosto sereno da minha menina. Os punhos estavam agora envoltos em um curativo, a mão pequena e delicada trazia uma agulha com soro. Ela precisava descansar. Eu precisava descansar. Os dias que se seguiriam seriam difíceis para todos nós. Teríamos que manter a serenidade diante dos possíveis traumas que aquela experiência teria infligido em minha filha. Uma lágrima traiçoeira escapou de meus olhos. Encostei-me na parede ao lado da cama e deixei meu corpo escorregar até que eu me sentasse no chão abraçado às minhas pernas. Hoje, eu me permitiria fraquejar. Amanhã, eu voltaria a ser a fortaleza que a minha família precisava que eu fosse. Naquele momento, tudo o que eu queria fazer era chorar. Chorar por Mel ... chorar por Sofia ... chorar por mim.