Narrador por Brian
A noite havia sido longa e desesperadora. Embora eu soubesse que Mel não acordaria antes do amanhecer, minha ansiedade me fazia desejar que ela despertasse logo. Eu precisava que ela me olhasse nos olhos, só assim eu saberia se ela estava bem. A espera era torturante.
Tio Emmett estava agora onde eu estivera durante toda a noite. Havíamos trocado de lugar por recomendação da tia Alice. Já que tinha sido ele quem a resgatara, seria aconselhável que ela o visse primeiro, para que a sensação de segurança não se perdesse. Dependendo da sua reação, eu poderia surgir em seu campo de visão.
Aos poucos, ela começava a dar os primeiros sinais de que estava prestes a acordar. Um movimento fraquinho nos dedos das mãos ... um gemido quase inaudível ... uma contração suave nas feições do rosto ... De repente, seus olhos estavam abertos e ela olhava fixamente para o rosto do pai. Parecia não estar ciente de onde estava e do que tinha acontecido.
_ Oi filhota! – tio Emmett sussurrou inseguro – Como você está se sentindo?
Ela não disse nada. Apenas continuou a olhá-lo fixamente, as sobrancelhas unidas sobre os olhos em um claro sinal de confusão. Meu coração martelava em meu peito pela expectativa do momento em que ela se daria conta da realidade. Eu morria de medo da sua reação. Mesmo que o pior não tivesse acontecido, a experiência por si só era traumatizante o suficiente. Seus olhos, de repente se arregalaram e seu rosto se contorceu em uma expressão de puro desespero.
_ Não foi um pesadelo! – aquilo não era uma pergunta.
Tio Emmett a abraçou com força quando o choro descontrolado explodiu. Doía vê-la tão destruída, minha vontade era correr até ela e apertá-la em meus braços até que todo aquele sofrimento passasse para mim. Eu preferia sentir a dor dela por toda a eternidade a vê-la chorar por um segundo que fosse.
_ Você vai ficar bem, filha! Eu estou aqui com você! Você está segura agora! – tio Emmett sussurrava repetidamente em seu ouvido, tentando acalmá-la.
Soluços intensos sacudiam o seu corpo pequeno e frágil. Mel apertava seus braços em volta do pescoço do pai em busca de apoio. Seus olhos, de repente me viram paralisado no canto do quarto. A expressão torturada em seu rosto me fez correr até ela. Eu já tinha chegado ao meu limite. Mel se soltou dos braços do pai e se jogou em meus braços, me apertando com toda a sua força. Eu a apertava contra o meu corpo, tentando manter o controle e não desabar em lágrimas junto com ela. Tio Emmett tinha se afastado um pouco para que ela não o visse chorar. Era insuportável senti-la tão trêmula e tão fragilizada em meus braços.
_ Shhh... Não chore, amor! Eu estou aqui com você! – consegui dizer com a voz embargada – Eu não vou a lugar nenhum, eu prometo!
_ Eu amo você! – ela conseguiu dizer com muito esforço, sua voz entrecortada pelos soluços.
_ E eu amo você! – respondi colando a minha testa na dela.
Mel me encarou com aqueles enormes olhos azuis tão tristes, mas um sorriso tímido brotou em seus lábios.
_ Me beije! – ela sussurrou e, sem esperar a minha resposta, colou seus lábios nos meus.
Eu procurava uma palavra que pudesse definir o que eu estava sentindo naquele momento, mas ter os lábios da minha menina roçando nos meus acabava com qualquer linha de raciocínio que eu pudesse ter. Suas mãos macias acariciando meus cabelos enviavam ondas elétricas por todo o meu corpo. Eu podia sentir o seu corpo menos trêmulo contra o meu. Ela estava se acalmando, se sentindo segura e saber que eu estava lhe proporcionando isso me enchia de alegria. Até aquele momento eu estava morto de medo de que ela não me deixasse chegar perto dela, mas, para o meu total alívio, ela estava relaxada em meus braços. Permanecemos calados por um bom tempo, apenas abraçados um ao outro, sentindo o calor dos nossos corpos e a sensação maravilhosa que era estarmos novamente juntos. Em poucas horas, Mel iria para casa e voltaria a se fortalecer, deixando para trás toda aquela confusão. Só me restava esperar que Sofia acordasse para me sentir totalmente aliviado. Assim que eu soubesse que elas estariam seguras, começaria uma caçada. Aquele canalha não sairia impune, ele iria me pagar pelo que tinha feito, nem que fosse com a própria vida.
Narrado por Mel
Quando abri os meus olhos, me sentia um pouco tonta. Não sabia exatamente onde estava. Só sentia que não estava em meu quarto. Meu pai estava ali, me olhando de uma forma estranha. Parecia triste. Fiquei feliz por vê-lo ao meu lado. Sua presença me fazia sentir segura, me dando a certeza de que tudo não tinha passado de um sonho ruim.
_ Oi filhota! – meu pai sussurrou – Como você está se sentindo?
No princípio aquela pergunta me deixou confusa. Aos poucos, a realidade foi tomando forma diante de mim. Meu coração batia dolorido no peito enquanto eu percebia que todo aquele pesadelo...
_ Não foi um pesadelo! – constatei desesperada.
Uma enorme sensação de insegurança começou a me dominar e não consegui controlar o choro que se seguiu. Meu corpo foi envolvido pelos braços fortes e protetores do meu pai que sussurrava palavras de conforto em meu ouvido. Eu sentia a minha cabeça latejar, meus punhos feridos doíam. Eu sentia a falta de Brian. Será que Mark estivera certo o tempo todo? Será que agora eu era imunda aos olhos dele? Era por isso que ele não estava aqui? A simples possibilidade de que isso fosse verdade me desesperou ainda mais. Eu me agarrava em meu pai em busca de conforto, soluçando intensamente. Uma sensação estranha tomou conta de mim. Era como se eu estivesse sendo observada. Abri os meus olhos e o vi ali, parado, me olhando como se estivesse com medo de se aproximar. Eu queria tanto que ele me abraçasse!
De repente, eu estava em seus braços. Ele me abraçava com força, do jeito que eu queria que ele fizesse, do jeito que eu precisava que ele fizesse. Eu também o apertava em meus braços com toda a força que eu tinha. Eu não poderia deixá-lo se afastar de mim. Eu morreria se ele o fizesse.
_ Shhh... Não chore, amor! Eu estou aqui com você! – ele dizia com a voz suave – Eu não vou a lugar nenhum, eu prometo!
Aquilo era tudo o que eu precisava ouvir para me sentir segura novamente. A promessa de que ele estaria ao meu lado me trazia uma enorme sensação de paz. Se ele estivesse comigo, eu conseguiria superar qualquer coisa.
_ Eu amo você! – essa era a maior verdade da minha vida.
_ E eu amo você! – ele respondeu com um sorriso triste, mas lindo nos lábios, colando as nossas testas.
Meus olhos se fixaram em seus olhos verdes, ternos e brilhantes. Eu estava morta de saudades dele. Embora estivesse consciente da presença do meu pai naquele quarto, eu não podia mais esperar. Eu precisava senti-lo.
_ Me beije! – pedi ansiosa, sem conseguir esperar pela sua resposta.
Sentir a maciez dos lábios de Brian colados aos meus novamente me deu um sopro de vida, me devolveu a força e a vontade de lutar. Eu sabia que não seria fácil superar os traumas daquela experiência apavorante, mas com Brian ao meu lado, eu me sentiria mais forte, me sentiria mais segura e enfrentaria qualquer dificuldade de cabeça erguida.
Narrado por Sofia
Eu sentia como se estivesse voltando de uma longa viagem, mas não me lembrasse de onde estivera. Eram poucas a coisas que eu podia distinguir. A dor lancinante que parecia que iria partir a minha cabeça em mil pedaços, os músculos do meu corpo rígidos como uma rocha e uma confusão enorme em minha mente. Onde eu estava afinal? O que tinha acontecido comigo? Por que a minha cabeça doía tanto?
Lentamente, comecei a ouvir ruídos distantes e a sentir odores estranhos. Eu não estava em meu quarto, disso eu já sabia. Aquele colchão sob o meu corpo não era o da minha cama. Alguma coisa fina e dura espetava a minha mão provocando uma dorzinha irritante. Abri os olhos para o quarto escuro, mas minha cabeça latejou insuportavelmente assim que o fiz. Não consegui evitar um gemido de dor, fechando imediatamente os olhos em busca de algum alívio. Acho que voltei a dormir. Algum tempo depois, senti um toque suave de dedos em meu rosto e meus lábios foram carinhosamente envolvidos por lábios macios. Sorri. Finalmente, uma sensação boa no meio de todo aquele caos.
_ Oi, princesa! – a voz carinhosa de Seth sussurrou em meu ouvido – Senti a sua falta!
_ Oi, amor! – respondi sentindo uma pontada forte na cabeça – Ai! Minha cabeça dói!
Tentei levar a mão à cabeça, mas Seth segurou levemente meu braço me impedindo de alcançá-la.
_ Fique quietinha, amor! Logo essa dor vai melhorar! – ele disse colocando meu braço de volta ao lado do meu corpo.
Senti seus lábios tocarem levemente a minha testa, o perfume da sua pele invadindo as minhas narinas.
_ Onde eu estou? – perguntei ainda de olhos fechados, minha cabeça parecia que ia explodir – Por que a minha cabeça dói tanto?
Um silêncio estranho tomou conta do quarto por alguns segundos. Senti o toque suave da mão de Seth acariciando a minha barriga.
_ Qual é a última coisa de que você se lembra? – ele perguntou com um tom de voz estranho.
Eu queria muito abrir os olhos e tentar decifrar em seu rosto o motivo daquela pergunta, mas tinha medo de que a minha cabeça voltasse a latejar como da primeira vez. Busquei em minha memória alguma lembrança dos últimos acontecimentos, mas era como se algo tivesse sido apagado. Senti-me ainda mais confusa e angustiada.
_ Eu saí de casa com a Mel. Nós fomos procurar um vestido para ela ... – notei que a partir dali eu não sabia de mais nada – ... E agora eu estou aqui. O que foi que aconteceu comigo?
Mais um longo momento de silêncio se passou antes que ele respondesse à minha pergunta.
_ Você sofreu uma pancada forte na cabeça, amor! – Seth respondeu com uma voz suave demais. Parecia estar escolhendo as palavras para falar comigo – É por isso que a sua cabeça dói, mas a dor vai passar logo, fique tranquila.
Havia algo mais acontecendo, eu poderia jurar. Seth continuava a acariciar a minha barriga e, se não fosse pela dor de cabeça enlouquecedora, eu estaria pegando fogo agora. Abri vagarosamente os olhos, testando para ver se minha cabeça voltaria a latejar. A dor não aumentou dessa vez, talvez pela escuridão do quarto. Tenho certeza de que, se a luz estivesse acesa, eu não conseguiria mantê-los abertos. No entanto, ficar ao lado de Seth sem poder ver o seu rosto era um pecado.
_ Amor? Você me faria um favor? – perguntei sentindo uma nova fisgada na minha cabeça.
_ Qualquer coisa, princesa! – ele respondeu carinhosamente.
_ Acende a luz! Eu quero ver o seu rosto! – pedi ansiosa.
Narrado por Seth
Ela tinha aberto os olhos por um breve instante soltando um gemido de dor. Mesmo que tenha voltado a dormir, eu já me sentia aliviado por saber que ela apenas dormia por causa dos medicamentos, não estava mais desacordada. Bella e Edward entraram no quarto poucos minutos depois e ficaram mais tranqüilos em saber que ela tinha voltado a si, mesmo que por breves segundos.
Duas horas mais tarde, ela voltou a acordar. Seu rosto já não apresentava mais a palidez de antes da transfusão. Sua pele estava novamente corada e apesar do curativo que envolvia a sua cabeça, ela estava mais linda do que nunca. A única coisa que me faltava era que ela me olhasse e me presenteasse com aquele brilho azul intenso que só ela tinha nos olhos. Mas, talvez, a luz ainda a incomodasse. Ela conversava comigo, mas permanecia de olhos fechados. Fiquei preocupado quando ela mostrou não se lembrar do que tinha acontecido. Será que a lesão no cérebro tinha afetado a memória dela? O olhar de Edward para mim me tranqüilizou. Ele apenas moveu os lábios silenciosamente me dizendo que aquilo “era normal”.
Inconscientemente, minha mão acariciava o ventre de Sofia. Era automático. Desde o momento em que soube do tesouro que ela carregava, eu não conseguia evitar tocá-lo, mesmo que fosse sobre a pele dela. Eu não via a hora de poder contar para ela e ver seus olhos brilharem de emoção. Queria chorar de felicidade junto a ela, mas, antes, precisávamos ter certeza de que ela estava bem e que não corria mais riscos.
Sofia parecia serena apesar da dor que sentia na cabeça. Seus olhos começaram a se abrir lentamente, talvez testando se a claridade os incomodaria. Aparentemente, tudo estava bem, mas o pedido que veio a seguir, me fez gelar ao seu lado.
_ Acende a luz! Eu quero ver o seu rosto! – ela disse.
Bella sufocou um grito de desespero levando as mãos aos lábios. Edward imediatamente a abraçou e a levou para fora do quarto para não alarmar Sofia. Eu não sabia o que fazer, não sabia o que dizer. Todo o alívio que eu vinha sentindo por vê-la acordada e falando comigo se foi assim que ela me fez aquele pedido. Quando ela abriu os olhos pela primeira vez e logo os fechou, eu tinha pensado que a claridade do sol iluminando o quarto a tivesse incomodado. Depois, mesmo estando acordada ela continuava sem abri-los e, mais uma vez, eu pensei que estivesse evitando olhar para a luz intensa. Meu coração estava de novo apertado em meu peito. Embora olhasse diretamente em minha direção, ela não podia me ver. Não percebia a luz do sol entrando pela janela do quarto e eu não encontrava a coragem de lhe dizer a verdade. Eu não sabia como dizer.
Tentando me convencer que aquilo tudo era real, passei a mão diante dos olhos de Sofia algumas vezes. Eles não se moveram. Sofia me “olhava” ansiosa, esperando que a luz fosse acesa. Eu precisava dizer alguma coisa, mas o que?
_ Jasper pediu para que nós evitássemos expô-la à luz antes de examinar você, princesa! – disse a primeira coisa que me veio à cabeça – A luz pode piorar a sua dor de cabeça! – menti.
_ Acho que não tem como ficar pior do que já está, amor! – ela insistiu.
_ Fique quietinha, minha vida! Descanse! Logo ... logo ele virá examiná-la e nós vamos ter certeza de que você está bem! – tentei distraí-la.
Ela sorriu assentindo e fechou novamente os olhos. Meus olhos também se fecharam, mas buscando algum controle. Eu fazia um esforço imenso para respirar normalmente enquanto o que eu mais queria era gritar de desespero.
Alguns minutos tinham se passado quando Jasper entrou no quarto seguido de Edward e Bella, que já tinha conseguido se controlar. Sofia abriu os olhos assim que ouviu a porta se abrir. Jasper se aproximou da cama e acariciou seu rosto. Os olhos dela agora estavam cheios de lágrimas. Era angustiante vê-la assim.
_ Oi, Sofia! Como você está se sentindo? – ele perguntou em um tom preocupado.
_ Minha cabeça dói – ele disse soltando um gemido.
_ Eu vou medicá-la e em poucos minutos a dor vai diminuir, mas antes eu preciso examiná-la, está bem? – ele pediu já lançando um fino feixe de luz sobre os olhos de Sofia.
Ele já a estava examinando sem que ela percebesse. Enquanto ele examinava seus olhos, Edward aferia a sua pressão e ouvia seus batimentos cardíacos. Eu assistia a tudo apreensivo, implorando para que ela estivesse realmente bem. De repente, Sofia começou a chorar silenciosamente, grossas lágrimas escorrendo pelo seu rosto.
_É permanente? – ela perguntou com a voz sufocada – Eu sei que o quarto não está escuro. Vocês não iriam me examinar sem acender as luzes. Só me digam a verdade, por favor. É permanente?
Um silêncio desconfortável tomou conta do quarto antes que Jasper dissesse alguma coisa.
_ Não há nada de errado com os seus olhos, Sofia! – ele começou – As suas pupilas reagem normalmente à luz o que indica que os seus olhos estão bem. O que acontece é que você levou uma pancada forte que deixou uma pequena lesão no lobo occipital, que é responsável pela nossa visão. Com o tempo, essa lesão vai desaparecer e, aos poucos a sua visão vai voltar ao normal.
_ Quanto tempo? – ela perguntou aos soluços.
_ Não há como prever um prazo, Sofia! O tempo de recuperação varia de paciente para paciente, mas a lesão é pequena, então, não deve demorar muito – Jasper explicou enxugando as lágrimas do rosto de Sofia que segurava a minha mão com força – É muito importante que você faça repouso absoluto pelo menos nos primeiros dias. Nada de descer e subir escadas ou sair para a rua porque você pode vir a sentir tonturas, enjôos ou até mesmo desmaiar.
Sofia apenas assentiu. Estava calada e tentava aparentar uma calma que eu sabia que ela não sentia. A mão trêmula e suada apertava a minha em busca de apoio. Sentei-me na beirada da cama e abracei o seu corpo da melhor maneira que pude sem causar-lhe dor. Colei a minha testa na dela e fechei os meus olhos, sentindo aos poucos os soluços darem lugar à respiração normal. Percebi que as pessoas deixaram silenciosamente o quarto, nos dando privacidade. Senti o toque gentil dos dedos delicados traçando detalhadamente as feições do meu rosto.
_ Eu estou com medo! – ela disse com a voz triste depois de algum tempo em silêncio.
_ Eu estou aqui! Estou com você! Sempre! – prometi tentando passar segurança.
_ Eu sei! – ela respondeu com um sorriso fraco nos lábios – e é só isso que me dá forças para lutar, é você que não me deixa desistir!
_ Existe outro motivo muito forte para que você lute! – respondi sentindo meu coração acelerar no peito.
_ Que motivo? – ela perguntou confusa.
Peguei sua mão direita, beijando-a e descendo-a por seu corpo parando em seu ventre. Nossas mãos unidas acariciando-o levemente.
_ Nosso filho! – eu disse emocionado vendo seus olhos se iluminarem e um sorriso lindo nascer em seus lábios.
