Narrado por Seth
Aquelas últimas duas semanas tinham sido perfeitas. Dormíamos juntos e acordávamos juntos e, se antes eu já não tinha dúvidas de que ela era a mulher com quem eu queria passar o resto dos meus dias, agora ninguém me tiraria essa certeza. O simples pensamento de que eu poderia amanhecer sem o seu corpo colado ao meu fazia meu coração bater insuportavelmente apertado em meu peito. Eu precisava dela. Precisava sentir o calor do seu corpo, a maciez do seu toque e o perfume que exalava da sua pele. Eu estava totalmente dependente do gosto dos seus beijos e precisava tê-la ao meu lado 24 horas por dia. Pensando bem, talvez nem isso fosse o suficiente para satisfazer a minha necessidade dela.
Eu observava o seu sono sereno. Admirava cada pequeno detalhe daquele rosto perfeito que me tirava a razão: a pele sedosa e cheirosa, as maçãs do rosto coradas, o nariz pequeno, arrebitado e perfeito, os lábios rosados e suculentos que me instigavam a devorá-los, os cabelos longos, macios e dourados que iluminavam ainda mais o seu rosto. Pequenos detalhes que ficavam ainda mais perfeitos toda vez que eu mergulhava naqueles olhos azuis e quase me afogava no amor que eles transmitiam. Aqueles olhos tinham um poder inacreditável sobre mim. Bastava vê-los brilhando ao me olhar que eu perdia completamente a capacidade de pensar. Meu cérebro virava pudim quando eles me encaravam daquele jeito que só ela sabia fazer.
Não sei quanto tempo eu fiquei ali, quieto, abraçado a ela enquanto esperava que ela acordasse. Mas eu não me importava. Esperaria a vida toda por ela se eu pudesse tê-la sempre assim, em meus braços. Aos poucos, sua respiração foi se tornando mais forte e eu pude perceber que ela estava acordada quando um sorriso brotou em seus lábios, embora seus olhos ainda estivessem fechados. Os dedos das suas mãos começaram a desenhar pequenos círculos em meu peito nu, me fazendo sorrir.
_ Bom dia, meu amor! – ela disse ainda de olhos fechados, com um sorriso meigo nos lábios.
_ Bom dia, princesa! – respondi suspirando enquanto meus braços a puxavam para ainda mais perto de mim.
Ela apoiou a cabeça em meu peito virando seu rosto de frente para mim, me fazendo sofrer todo o impacto de encarar seus olhos brilhantes. Por um momento, eu não soube quem eu era, nem onde estava. Um sorriso estonteante iluminou seu rosto perfeito e meu coração disparou em meu peito. Deus do céu! Que poder essa mulher tinha sobre mim! Não era normal isso. Ou era? A intensidade das emoções que ela me fazia sentir chegava a me assustar. Eu sentia como se o meu destino não estivesse em minhas mãos, mas nas dela. Era angustiante pensar que, se por algum motivo ela não me quisesse mais, eu ficaria a deriva no mundo, sem rumo ... sem destino ... sem vida.
O toque suave dos seus dedos em meu rosto me trouxe de volta à realidade. Ela me olhava com uma expressão que parecia preocupada enquanto acariciava minha testa com a ponta dos dedos tentando desfazer uma ruga que havia se formado entre meus olhos sem que eu percebesse.
_ O que foi, amor? Por que você ficou triste de repente? – sua voz era apenas um sussurro.
Rolei o meu corpo na cama ficando sobre o dela. Fechei os olhos colando as nossas testas sem conseguir evitar que um suspiro angustiado escapasse de mim.
_ Seth? – ela insistiu, segurando meu rosto com ambas as mãos delicadas, sua voz denunciando certa ansiedade pelo meu silêncio.
Ainda em silêncio, afastei um pouco o meu rosto e voltei a abrir os olhos encarando seu olhar tenso. Minhas mãos voaram automaticamente para o seu rosto de anjo, acariciando a pele macia, descendo pelas bochechas até tocarem os lábios entreabertos. Meus olhos pararam ali, naquela boca que fazia meus lábios formigarem de vontade de beijá-la. Sem que eu tivesse dado conta, eu tinha me aproximado lentamente do seu rosto e tocado levemente seus lábios em um beijo suave ... lento ... longo. Sofia abriu os lábios e sua língua quente e macia acariciou a minha, apagando qualquer traço da angústia que tinha tomado conta de mim. Meu corpo estremeceu ao sentir suas pernas envolverem a minha cintura enquanto suas mãos desciam por minhas costas, me apertando, me arranhando, parando em minhas nádegas, me puxando com força contra o seu corpo.
_ Eu amo você! – eu disse ofegante quando separamos nossos lábios em busca de ar.
_ Então me ame! – ela disse me encarando, os olhos ardendo de desejo.
_ Sempre! – eu respondi voltando a beijá-la, meu corpo se encaixando no dela com uma perfeição sobrenatural.
Amar Sofia era o meu destino. Eu seria qualquer coisa que ela quisesse que eu fosse, iria onde ela me mandasse, faria tudo o que ela quisesse, com ela e por ela. Eu só precisava tê-la ao meu lado para sempre. Sem ela eu não teria uma vida ... eu não seria um homem ... eu seria um nada.
Narrado por Sofia
O caminho de volta para casa parecia ter ficado mais curto. A estrada livre do tráfego fez com que o nosso retorno para casa fosse mais rápido do que a ida. Minha mente repassava com riqueza de detalhes todos os momentos daqueles dias simplesmente perfeitos e maravilhosos que me deixaram na boca um gostinho de “quero mais”. Na verdade, eu poderia perfeitamente passar o resto dos meus dias naquele lugar, amando e sendo amada, passando cada segundo do dia ao lado dele, recebendo sua atenção, seu carinho, seu amor.
Seth me completava como eu jamais teria imaginado ser possível um ser humano completar o outro. Eu sempre achei aquela conversa de “encontrar a cara-metade” muito absurda. É claro que eu sempre acreditei que duas pessoas pudessem se amar de forma intensa. Eu cresci vendo isso diariamente através dos meus pais e, no fundo, sempre sonhei em viver um amor como o deles. Mas, daí a achar que uma pessoa pudesse completar a outra me parecia coisa de conto de fadas. No entanto, com Seth era assim. Ele conseguia superar todas as minhas expectativas. Ele ia além do que eu jamais poderia esperar de um homem.
Carinhoso. Atencioso. Protetor. Seth parecia adivinhar os meus pensamentos e minhas vontades e sempre fazia até o impossível para realizá-las, mesmo que fosse a coisa mais absurda do mundo. Para ele, a minha felicidade era prioridade. Ver um sorriso nascendo em meus lábios era mais importante para ele do que respirar. Por isso tudo, para mim, era difícil entender o seu comportamento durante a viagem de volta para casa. Ele parecia chateado com alguma coisa, mas eu não me lembrava de nada que tivesse acontecido para que ele tivesse ficado daquele jeito, a não ser por dois homens que tinham ficado me encarando no restaurante onde havíamos almoçado. Embora o olhar quase obsceno deles tivesse me incomodado quando Mel e eu passamos por sua mesa em direção ao banheiro, eles não se dirigiram a mim em nenhum momento, nem fizeram nenhum comentário desrespeitoso que eu tivesse escutado.
Seth tinha permanecido calado durante o resto da viagem. Embora minha cabeça estivesse apoiada em seu peito o tempo todo e seus dedos acariciassem os meus cabelos, eu o sentia distante, calado. Parecia que aquelas carícias eram algo feito mecanicamente e isso me angustiava.
_ Seth! – sussurrei em seu ouvido fazendo-o olhar em meu rosto. – Você está chateado com alguma coisa? – perguntei baixinho para que Mel e Brian, que estavam no banco da frente, não ouvissem.
Ele me olhou por um longo tempo, calado. Havia algo de diferente no modo como ele me olhava que eu não conseguia entender. Um pouco de tristeza, ansiedade ou medo, sei lá! Seus lábios pousaram levemente em minha testa em um beijo suave, seus dedos ainda acariciando meus cabelos. Ele não disse nada. Apenas negou com a cabeça e suspirou profundamente. Decidi deixá-lo em paz, embora meu coração estivesse inquieto.
O restante do percurso de volta foi angustiante. Eu tentava cavar em minha memória algo que pudesse tê-lo feito ficar daquele jeito, mas não conseguia encontrar nada que justificasse aquele comportamento. Minha cabeça começou a doer pelo esforço que eu fazia para conter a vontade de chorar. Minha garganta estava fechada, eu mal conseguia respirar, sentia como se todo o oxigênio dentro do carro tivesse se esgotado.
O carro finalmente parou em frente de casa. Mel e Brian logo desceram de mãos dadas exalando felicidade enquanto Seth permanecia calado, taciturno. Minhas mãos tremiam ao sair do carro. Peguei a minha mala e segui apressada em direção à minha casa sem sequer olhar para trás. Meu corpo parecia que ia implodir a qualquer momento, meus músculos estavam tensos, minha cabeça agora doía de uma forma enlouquecedora. Eu só queria entrar em casa, tirar aquela roupa, tomar um banho, deitar em minha cama e dormir.
Meu pai estava na sala de casa quando entrei. Ele se levantou preocupado ao olhar em meu rosto e veio em minha direção já sabendo que algo de errado havia acontecido.
_ Hey, bonequinha! O que foi? Por que você está com esse rostinho tão triste? – ele disse me abraçando forte como fazia quando eu era pequena e tinha pesadelos.
_ É só uma dor de cabeça chata, pai. – menti – Eu vou subir, tomar um banho e me deitar um pouco.
Tentei me desvencilhar dos braços do meu pai, mas ele me segurou ainda mais firme. Ele me conhecia muito bem e sabia que havia algo a mais.
_ Você e Seth discutiram? – ele foi direto ao ponto.
Senti um aperto insuportável no peito. Minha voz estava presa em minha garganta fechada. Eu não ia conseguir falar sem que ele soubesse que eu estava mentindo. Apertei-me ainda mais em seu corpo procurando a segurança que ele sempre me deu.
_ Tem algum analgésico aqui em casa? Eu realmente preciso de um. – fugi da resposta para a pergunta que ele havia feito.
Eu não tinha como responder se nós havíamos brigado ou não. Não havia como brigar com uma pessoa ausente. Embora eu pudesse sentir o corpo de Seth junto ao meu durante toda a viagem de volta, ele estava a mil quilômetros de distância de mim. Um corpo. Era apenas isso que veio ao meu lado no carro. Meu Seth não estava ali. Aquele homem distante, quase frio que tinha viajado ao meu lado não era o meu namorado. Eu não o conhecia, não o reconhecia.
_ Suba e tome um banho. Eu vou pegar um remédio e levo para você tomar! – meu pai disse se soltando de mim.
Assenti de cabeça baixa e subi as escadas correndo em direção ao meu quarto. Não olhei para trás. Sabia que seus olhos estavam sobre mim, me estudando, querendo ler em minhas reações o que se passava em meu coração. Entrei em meu quarto, cega pelas lágrimas que inundavam meus olhos. Meu peito doía, minha cabeça doía, meu corpo doía. Encostei-me na porta fechada e deixei a angústia se extravasar em um choro compulsivo. Como tudo tinha chegado ao ponto em que chegou? Por que ele estava agindo daquela forma comigo? O que eu tinha feito de errado? Eram tantas perguntas, mas nenhuma resposta.
Entrei sob a ducha ainda vestida com as minhas roupas. Eu queria que a água lavasse aquela tristeza que tinha se apossado de mim. Queria que ela clareasse a minha mente e me ajudasse a entender o que diabos estava acontecendo conosco. Perdi a noção de quanto tempo tinha permanecido sob o chuveiro. A água havia refrescado o meu corpo e lavado as minhas lágrimas, mas não tinha sido o suficiente para me fazer sentir melhor. Ela não tinha lavado a angústia que apertava o meu peito fazendo meu coração bater dolorosamente.
Deitei-me encolhida em minha cama vestindo apenas um roupão. Meus cabelos ainda úmidos esparramaram-se sobre o travesseiro deixando-o frio. A sensação chegava a ser boa, aliviava um pouco a dor em minha cabeça. Fechei meus olhos e tentei relaxar. Talvez, se eu conseguisse dormir, aquela sensação horrível se atenuasse, mas minha cabeça latejava com tanta força que eu tinha certeza de que seria impossível dormir sem um remédio.
A porta do meu quarto se abriu, mas eu não me movi. Senti o colchão afundar atrás de mim e as mãos protetoras do meu pai acariciarem os meus cabelos.
_ Filha! – ele sussurrou em meu ouvido – Tome este remédio! Você vai se sentir melhor em pouco tempo!
Eu tinha minhas dúvidas quanto a isso. A única coisa, ou melhor, a única pessoa que poderia me fazer sentir melhor era Seth, mas ele não estava ali. Abri meus olhos, sentei-me na cama e tomei o comprimido sem encarar os olhos do meu pai. Tomei toda a água do copo, sentindo a minha garganta seca como o deserto. Voltei a deitar a cabeça sobre o travesseiro e fechei novamente os olhos sentindo meus cabelos sendo acariciados. Meu pai permaneceu ali, ao meu lado, em silêncio. Aos poucos, o remédio começou a surtir efeito e me deixei mergulhar no inconsciente.
***********
Dormi um sono sem sonhos, um sono vazio que combinava com o meu estado de espírito. Abri os olhos e notei que a noite já havia chegado a julgar pela escuridão do meu quarto. A dor de cabeça tinha desaparecido, mas a angústia continuava ali. Impiedosa. Massacrando o meu peito. Quase me impedindo de respirar.
O relógio marcava 20 horas. Em poucos minutos alguém entraria pela porta me chamando para jantar. Embora eu estivesse sem apetite, sabia que teria que descer. Meus pais não permitiriam que eu ficasse tantas horas sem me alimentar. Sentei-me na cama abraçando as minhas pernas, meu rosto escondido em meus joelhos. Minha vontade era ficar em meu quarto, fugir do olhar especulativo do meu pai. Eu não queria falar com ninguém que não fosse Seth, mas a julgar pelo seu comportamento mais cedo eu não tinha nem mesmo como saber se o veria ainda hoje.
Adiei a minha decida o máximo que pude. Fiquei surpresa ao encontrar Seth, tio Jake, tia Leah e os gêmeos sentados no sofá conversando com a minha família. Meus avós vieram até mim e me abraçaram assim que me viram chegar. Estavam cheios de saudades e, eu tinha que confessar, também sentia muito a falta deles.
Meus olhos pousaram sobre Seth e eu não soube como agir. Tinha medo de tentar abraçá-lo e senti-lo distante novamente. Ele veio em minha direção e me abraçou, mas aquele abraço foi diferente de todos os que ele já tinha me dado. Não tinha a mesma intensidade de sempre, o mesmo calor. Parecia uma abraço tenso ... incerto ... inseguro. Seus lábios pousaram trêmulos sobre a minha testa. Fechei os olhos e respirei fundo, sentindo o perfume que exalava do seu corpo, agarrando-me a ele com força, tentando acabar de vez com aquela distância, mas ele se afastou quando tio Jake e tia Leah vieram me abraçar. Me senti oca. Minha vontade era correr de volta para o meu quarto e me trancar lá dentro, só saindo depois que aquele pesadelo acabasse. Sim. Só podia ser um pesadelo, daqueles que parecem tão reais que são capazes de nos enganar. E eu precisava desesperadamente acordar.
O jantar foi servido, mas a comida simplesmente não passava em minha garganta. À mesa, todos conversavam descontraidamente, alheios ao meu estado apático, provavelmente, achando que era só cansaço pela viagem. Seth continuava calado, parecia ansioso. Às vezes eu sentia o seu olhar sobre mim, mas mantive meus olhos baixos, não querendo mais senti-lo tão frio. Era insuportável.
Estávamos todos na sala de estar. Todos continuavam a conversar normalmente como se não percebessem o clima estranho entre Seth e eu. Eu já estava me aproximando do limite da minha ansiedade. Estava a ponto de explodir de tensão e não iria conseguir dormir sem antes arrancar dele o que estava acontecendo. Mesmo morrendo de medo do que poderia ouvir eu tinha que saber.
Levantei-me do sofá puxando-o pela mão para um canto da sala onde poderíamos ter um pouco de privacidade.
_ Eu sinto que você tem alguma coisa para me dizer, Seth! Por favor, diga logo? Eu não aguento mais o seu silêncio! – pedi, minha voz saindo sufocada.
Ele fechou os olhos e suspirou. Parecia angustiado. Um arrepio perpassou a minha coluna. De repente, tive a impressão de que o que ele iria me dizer me faria desmoronar. Tive medo, mas não recuei. Qualquer coisa seria menos doloroso do que aquilo que eu estava sentindo. Seth abriu os olhos e me encarou, calado mais uma vez.
_ Seth, por favor? – implorei.
_ Eu não sei como dizer! – ele disse com um tom de voz sofrido.
_ Apenas diga! – falei impaciente. – Você não quer mais namorar comigo? É isso? – perguntei com o coração espremido no peito.
_ É isso. Eu não quero mais namorar você! – ele disse simplesmente, partindo o meu coração, acabando com os meus sonhos.
