Narrado por Mel
Eu não sabia há quanto tempo estava de pé, parada diante daquela porta, com as mãos suadas e as pernas trêmulas sem realmente criar coragem de entrar. Toda a determinação que havia me arrancado da cama antes mesmo de amanhecer agora vacilava diante daquela porta fechada. Aquele pequeno pedaço de madeira pintada de branco que me separava de um dos meus piores pesadelos parecia se agigantar diante de mim. Ou será que era eu que me sentia pequena e insignificante, sendo novamente oprimida pelo medo de enfrentar os meus fantasmas?
Eu sabia que precisava vencer aquela barreira e enfrentar de vez aquela situação. Era o último passo para a cura total. A última etapa antes de encerrar aquele capítulo da minha vida para poder seguir em frente com tranquilidade. Eu sentia que aquilo era importante, que eu precisava fazer aquilo para me sentir livre para alçar novos voos, para crescer, para deixar de ser a menina sempre indefesa e assustada e me tornar a mulher que toma as rédeas de sua própria vida, alguém digno de estar ao lado de Brian como igual, não como sua eterna protegida. E tudo o que eu tinha que fazer era girar aquela maçaneta que parecia queimar a minha mão como carvão em brasa e atravessar aquela porta.
O quarto estaria mergulhado no mais absoluto silêncio se não fosse pelo monitor cardíaco que emitia o som de um bipe tranquilo e regular. Meus olhos ainda não haviam pousado sobre o seu rosto, estavam presos no chão claro e limpo. As paredes, de um verde claro calmante, eram igualmente limpas e ostentavam pequenos quadros com pinturas delicadas. Em um canto, numa pequena mesa branca, sobre um livro grosso e pesado repousava um terço de prata, ao lado de um vaso com flores frescas. Um lençol imaculadamente branco pendia de um dos lados da cama como se a pessoa que a ocupava o tivesse jogado de lado ao se levantar apressadamente. Por um momento, esse pensamento fez o meu coração disparar de medo e uma vontade enorme de correr dali e nunca mais voltar quase me fez desistir de tudo.
Obriguei-me a erguer os olhos e encará-lo de uma vez por todas. O rosto magro e abatido não possuía nem mesmo a sombra da beleza que ainda ostentava meses atrás. O corpo, antes vigoroso e de músculos bem definidos, agora jazia flácido e atrofiado sobre aquela cama. A força que ele um dia emanara havia sido reduzida a uma fragilidade assustadora.
Fechei os olhos, tentando acalmar as batidas do meu coração. Respirei fundo algumas vezes. Eu precisava vencer aquela tontura que ameaçava me dominar, precisava controlar o velho medo que se esgueirava como uma sombra dentro de mim tentando me envolver, me acovardar. As lembranças daquele dia horrendo tentavam a todo o momento me tomar, mas eu as reprimia com todas as minhas forças.
Abri os olhos e me forcei a encará-lo. Meu corpo inteiro se travou e eu senti a minha respiração suspensa ao vê-lo de olhos abertos. Olhos incrivelmente claros e tristes me encaravam de volta. Eu não saberia explicar porque, de repente, todo o meu medo se esvaiu. Pela primeira vez em muito tempo, aqueles olhos não me fitavam de forma debochada ou ameaçadora. Ao contrário, eles pareciam amedrontados e profundamente infelizes. Eu, que tinha ensaiado tantas coisas para dizer a ele, palavras duras e até cruéis que estavam entaladas em minha garganta, de repente estava muda, minha mente mergulhada no mais absoluto vazio diante daquela imagem deprimente.
_ Oi! – ele disse quebrando o silêncio.
Não respondi. Fiquei ali, calada, congelada, sem saber o que dizer.
_ Melinda, eu sei que você deve me odiar pelo que eu lhe fiz passar ... – sua voz soava fraca - ... mas eu queria lhe dizer algumas coisas!
Ele esperou alguns instantes por uma resposta que não veio.
_ Desde pequeno, eu vejo o meu pai se envolvendo com várias mulheres sem se entregar realmente a nenhuma. Eu não sei o que a minha mãe pensa disso, mas eu sei que ela sempre soube das escapadas dele. Ela se cala, talvez porque tenha medo dele, talvez porque tenha medo de confrontá-lo e perdê-lo. O fato é que ela finge que nada disso acontece e que o casamento deles é perfeito. Eu cresci em meio a mentiras e fingimentos, sendo ignorado pelo meu pai e mimado pela minha mãe. Eu sempre tive tudo de maneira fácil, nunca tive que lutar por nada na minha vida ... – ele disse me olhando nos olhos - ... e nunca tive quem colocasse limites nas minhas atitudes.
Ele parou um pouco, me encarando, talvez esperando que eu finalmente dissesse alguma coisa, mas eu não queria dizer nada.
_ Eu cresci achando que podia ter tudo o que quisesse e, por incrível que pareça, a única coisa que eu realmente quis com todas as minhas forças foi a que eu jamais tive: você. Eu sempre fui apaixonado por você, Melinda! Desde menino, eu sempre sonhei que um dia você iria corresponder ao que eu sinto por você e nós seríamos felizes de verdade. No seu aniversário de 16 anos, eu tinha passado a tarde toda ensaiando uma forma de pedir você para namorar comigo – ele sorriu de forma triste – mas quando eu a vi naquela boate, tão linda, tão sedutora ... chamando a atenção de tantos rapazes enquanto dançava ... eu simplesmente perdi a cabeça. Eu sei que eu não tinha direito nenhum sobre você, mas naquele momento eu só pensava em ter você e afastar qualquer outro homem que pudesse se aproximar. Eu já tinha bebido bastante e por isso eu agi daquela forma idiota. Quando o Brian me empurrou para longe de você e a abraçou, eu percebi que você estava apaixonada por ele. Eu nunca tinha sido rejeitado por nenhuma garota na minha vida e, sinceramente, eu não soube como lidar com aquilo. O ciúme e a raiva que tomaram conta de mim me levaram por um caminho perigoso. Eu comecei a beber todos os dias e tempos depois eu acabei me envolvendo com drogas...
Meus olhos se arregalaram com aquela confissão. Mark estava me surpreendendo mais a cada palavra dita. Antes de tudo, eu jamais imaginara que ele seria capaz de se abrir dessa forma, principalmente comigo. Seus olhos cravados em meu rosto estavam agora cheios de lágrimas.
_ Eu não conseguia encontrar uma forma de fazer com que você se interessasse por mim e isso me matava um pouco mais a cada segundo, a cada vez que você me rejeitava. No fundo eu acho que tinha consciência de que as minhas atitudes só pioravam as coisas, mas eu estava perdido e a cada “não” que eu recebia de você eu me afundava ainda mais na bebida e nas drogas...
Eu não queria mais ouvir aquilo tudo. Já me arrependia amargamente de ter entrado naquele quarto. Eu já não sabia se sentia raiva ou pena daquela criatura infeliz deitada no leito à minha frente. Uma imensa confusão de sentimentos tomava conta de mim, mas eu sabia que, se eu quisesse virar de vez aquela página, teria que aguentar até o fim.
_ Naquela noite em que eu provoquei o Brian na praça, eu sabia que vocês tinham ficado noivos ... eu tinha ouvido por acidente uma conversa entre a Nikki e a Ashley. Elas estavam frenéticas porque o Brian estava voltando para casa e ia pedi-la em casamento naquela mesma noite, num jantar na casa dos seus avós. Eu fiquei louco de ciúmes quando ouvi aquilo. Quando eu a vi sozinha na praça, eu estava totalmente chapado e acabei estragando tudo de novo.
Fechei os meus olhos me lembrando da angústia que eu tinha sentido ao achar que Brian teria acreditado nas mentiras que Mark dissera naquela noite. Meu coração bateu apertado no peito e eu não consegui segurar a lágrima que rolou dos meus olhos. Quando voltei a abri-los, Mark me olhava angustiado.
_ Desculpe! Eu não queria fazer você chorar. – ele disse sincero – Eu só queria que você soubesse o que me levou a agir da forma como eu agi. Eu não tenho palavras para expressar o quanto eu me arrependo de tudo o que eu fiz. Aquele dia no shopping não sai da minha cabeça. A imagem da sua prima caída, inconsciente no estacionamento me assombra até hoje. – uma grossa lágrima rolou dos seus olhos – Deus do céu, Melinda! Eu cheguei sequestrar você ... eu ia ... – ele não conseguiu terminar a frase.
Um choro convulsivo tomou conta do seu corpo. Ele chorou por muito tempo sem conseguir dizer uma palavra sequer. Era visível a culpa que ele sentia por todos os erros que tinha cometido.
_ ... Graças a Deus o seu pai chegou a tempo de me impedir de fazer aquela monstruosidade com você! – ele conseguiu dizer entre soluços – Quando o efeito da droga passou, eu me vi deitado em um lugar imundo no meio de várias pessoas fedidas e decadentes que eu nunca tinha visto na minha vida. Ali eu me dei conta da profundidade do buraco em que eu havia me atirado e do tamanho da merda que eu tinha feito não só com você, mas comigo também. Liguei para o meu pai, contei tudo o que eu tinha feito e pedi ajuda. Ele me internou em uma clínica de reabilitação para dependentes químicos. Lá eu participei de um grupo de terapia que me ajudou a perceber o quanto o meu amor por você era nocivo e doentio, o quanto as minhas atitudes me afastaram de mim mesmo e, principalmente, o quanto elas tinham feito você sofrer. Melinda, eu não estou querendo dizer que foram as drogas e o álcool que me tornaram a pessoa horrível que eu fui com você. O que eu estou tentando dizer é que eu já era uma pessoa ruim e que o vício só intensificou esse meu lado errado. Eu achava que os fins justificavam os meios, mas hoje eu sei o quanto eu estava errado ... Eu sei que eu não tenho o direito de lhe pedir perdão, mas se algum dia você acreditar em mim e achar que eu mereço o seu perdão ...
_ Mark ... – eu ia dizer que não sentia ódio dele, porém perdoá-lo pelo que ele havia feito levaria ainda algum tempo. Mas não pude terminar a minha frase.
_ Eu posso saber o que essa menina está fazendo aqui? - uma voz furiosa vinda de trás de mim me fez sobressaltar.
Virei-me assustada em direção à porta do quarto por onde uma mulher tinha entrado e me olhava com fogo nos olhos.
_ Se você pensa que pode vir aqui e tripudiar sobre o meu filho você está muito enganada, menina! – ela praticamente rosnava andando em minha direção.
_ Eu não ... – tentei dizer, mas ela me pegou pelo braço com tanta fúria que eu me calei assustada.
_ Você vai sair deste quarto imediatamente, está me entendendo? Já não basta todo o mal que você causou ao meu filho? É por sua culpa que ele está nesta cama de hospital! Se você não tivesse virado a cabeça do meu menino, ele não estaria desse jeito!
_ MÃE, PARE COM ISSO! – o grito enfurecido de Mark a calou de repente – ELA NÃO TEM CULPA DE NADA! O ÚNICO CULPADO POR EU ESTAR AQUI SOU EU MESMO! SERÁ QUE VOCÊ AINDA NÃO PERCEBEU QUE FINGIR QUE A SUA VIDA É PERFEITA NUNCA TE LEVOU A NADA? SERÁ QUE VOCÊ NÃO PERCEBEU QUE ESSA SUA MANIA DE TAMPAR O SOL COM A PENEIRA SE RECUSANDO A ENXERGAR A REALIDADE SÓ PIORA AS COISAS?
Ela o olhava com os olhos arregalados e marejados sem conseguir dizer uma palavra sequer. Aos poucos, o aperto em meus braços foi cedendo até que ela finalmente me soltou e deu um passo para trás encarando o filho com uma expressão estranha no rosto. Eu não sabia o que ela estava pensando, mas ela me parecia a ponto de desmoronar a qualquer momento. Mark voltou a olhar em meus olhos e com um sorriso ainda mais triste continuou:
_ Me desculpe por isso, Melinda! Minha mãe tem o péssimo hábito de arrumar desculpas para todos os meus erros, mas isso vai ter que parar a partir de agora! – ele disse as últimas palavras olhando de forma severa nos olhos da mãe e continuou - Naquele dia, na porta da sua casa, eu não queria assustá-la. Eu tinha ido até lá para pedir perdão pelos meus erros e para dizer que eu ia me entregar para a polícia, eu ia pagar pelo que tinha feito com a sua prima e com você. Era o certo a se fazer e eu queria que você soubesse que eu estava querendo o que era certo. Mas você se assustou, Brian e Seth entenderam tudo errado e eu acabei me apavorando e fugindo.
_ Filho, você não ... – a mãe de Mark tentou falar, mas foi interrompida por ele.
_ Mãe, por favor, pare! Não adianta a senhora dizer que eu não sabia o que eu estava fazendo por causa das drogas e da bebida. Eu sabia perfeitamente o que eu estava fazendo, eu sabia que era errado e ainda assim eu o fiz. A única coisa que as drogas e o álcool fizeram comigo foi me dessensibilizar. A única coisa que eles realmente fizeram foi me deixar completamente insensível ao sofrimento dos outros, insensível ao fato de que as minhas atitudes podiam ferir os outros. Eu não vou fechar os meus olhos e fingir que tudo foi por culpa das drogas porque não foi. Eu optei por me drogar e por me embebedar. Eu estava consciente dos riscos e ainda assim eu os aceitei.
Ele suspirou profundamente aparentando um enorme cansaço e voltou a olhar em meus olhos. Seu rosto estava tão sereno que eu mal o reconhecia como aquele monstro que me perseguira por tanto tempo.
_ Você é uma pessoa linda, Melinda! Não só fisicamente, mas você tem a alma pura como a de uma criança. E é isso o que faz de você uma pessoa tão especial. É quase impossível um homem não se apaixonar por você ... – sua voz de repente soou embargada - ... você merece o melhor que essa vida pode lhe dar e eu tenho certeza de que você será feliz com o Brian. Ele ama você com a mesma intensidade com que você o ama, eu tenho certeza disso. Eu vi isso nos olhos dele em todas as vezes que nós nos confrontamos. Ele seria capaz de dar a vida dele pela sua e só uma pessoa que ama a outra acima de qualquer coisa é capaz de fazer isso.
_ Mark ... – eu tentei dizer alguma coisa, mas ele não me deixou continuar.
_ Não ... – ele sorriu tristemente - ... não precisa dizer nada. Vai tranquila! Eu aprendi a minha lição! Você está livre de mim para sempre, ainda que eu jamais seja capaz de esquecer você. Eu vou amar você para sempre, mas eu não vou mais permitir que esse amor me envenene e me intoxique. Eu preciso aprender a conviver com ele sem deixar que ele me domine e me faça agir erradamente... Vai, Melinda! Vai viver a sua vida, vai ser feliz ao lado do homem que você ama. Você merece!
Quando dei por mim, eu já tinha me aproximado da cama. Minha mão apertou levemente a dele. Ele fechou os olhos com força, sua respiração se alterando ao meu toque. Eu via a força que ele fazia para não chorar na minha presença, mas as lágrimas desciam pelo seu rosto lentamente enquanto seus dedos apertavam os meus em uma despedida silenciosa.
_ Obrigado! – ele disse com a voz embargada sabendo que com aquele gesto eu o havia perdoado.
_ Adeus! – eu disse simplesmente, saindo logo em seguida ainda sentindo o seu olhar sobre mim.
Encostei-me à parede do lado de fora do quarto assim que a porta de fechou atrás de mim. Meu coração batia absurdamente forte em meu peito. Chegava a doer. O que tinha acabado de acontecer ali era simplesmente inacreditável. Minhas lágrimas de alívio desciam livremente pelo meu rosto. Levei a mão ao peito tentando controlar as batidas do meu coração e fechei os olhos respirando profundamente. Não sei por quanto tempo permaneci ali, mas meus olhos se abriram instantaneamente ao sentir aquele toque carinhoso em meu rosto.
_ Você está bem? – ele me perguntou com o olhar angustiado.
Perdi-me naqueles olhos verdes, naquele olhar apaixonado e cheio de ternura. Minhas mãos tocaram levemente o seu peito, subindo lentamente pelo seu pescoço, meus dedos se emaranhando em seus cabelos macios e cheirosos. Sorri ao vê-lo fechar os olhos apreciando o carinho.
_ Eu tenho você! – eu disse me aproximando lentamente do seu rosto - Eu não poderia estar melhor!
Não esperei por sua resposta. Meus lábios se colaram aos dele em um beijo terno e demorado. Esqueci-me de onde estávamos e das pessoas que passavam ao nosso redor. Tudo o que eu sentia era a suavidade dos lábios de Brian sobre os meus, o sabor viciante daquela boca macia que se moldava à minha e o toque delicado daquelas mãos em meu rosto. De repente, me dei conta de que eu tinha sobrevivido a todo aquele horror, de que eu tinha ao meu lado o melhor homem do mundo e que, portanto, seria capaz de enfrentar o que viesse pela frente. Com Brian ao meu lado, eu seria capaz de vencer até mesmo a morte.
