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Juiz de Fora, Minas Gerais, Brazil
Apesar de ser mestre em Linguística e ter toda a minha vida acadêmica voltada para o ensino de línguas, sempre fui amante da literatura, devoradora de livros, filmes e séries. Sempre tive um sonho: escrever. Durante muito tempo, o medo de fracassar me impediu de realizar esse sonho, mas uma grande amiga me incentivou e me deu a coragem de enfrentar meus fantasmas e graças a ela eu hoje posso dizer que me sinto uma pessoa melhor, mais confiante e absolutamente ciente do meu potencial.

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quarta-feira, 29 de junho de 2011

Capítulo VI - Frágil



Narrado por Melinda

A noite havia passado lentamente como se quisesse me torturar enquanto os ponteiros do relógio zombavam da minha cara. Eu quase podia ouvi-los rindo de mim. Dormir havia sido uma tarefa impossível. Apesar de ter tomado um chá calmante feito pela minha mãe, ele apenas me ajudou a controlar o choro convulsivo que tinha me dominado na noite anterior. O aperto enorme no peito, porém, continuava ali. Impiedoso. Opressor. Sufocante.
Eu sabia que todos haviam ficado preocupados comigo, mas não estava em condições de falar sobre o assunto naquele momento. Minha única opção tinha sido fechar os olhos e fingir estar dormindo para que minha família me deixasse sozinha. Eu podia notar os olhares de preocupação e pena dos meus pais e de Nikki sobre mim. Aquilo me deixava mal porque eu sabia que eles sofriam me vendo sofrer. Eu só esperava poder conversar com Brian e esclarecer toda aquela confusão da noite anterior. Eu imploraria a ele para que me escutasse, se necessário, mesmo que depois ele me expulsasse da sua vida para sempre. Eu só precisava que ele ouvisse toda a verdade dos meus lábios.
Meus olhos ainda estavam fechados embora eu não tivesse conseguido dormir. Minha cabeça doía de forma enlouquecedora e meu corpo protestava pela tensão nos músculos resultante da noite insone. Ao fundo, eu podia ouvir os sons da casa me indicando que minha família já estava de pé. Mais cedo, meus pais haviam vindo em meu quarto, mas não falaram comigo pensando que eu ainda estivesse dormindo.  Eu sabia que tinha que me levantar, mas ainda não tinha encontrado forças para enfrentar o mundo lá fora. O silêncio do meu quarto me parecia mais convidativo, me servia de redoma, agindo como um campo protetor, me isolando de tudo e de todos que pudessem me atingir.
Covarde. Era isso o que eu era. Covarde, por não ter contado tudo a Brian quando tive a chance. Covarde, por não ter tido a coragem de olhar em seu rosto e enfrentar o que quer que eu visse em seus olhos na noite anterior. Covarde, por não querer me levantar da cama e encarar as consequências da minha covardia.
A luz do dia preenchia o quarto quando eu finalmente tomei coragem de abrir os olhos e a realidade me atingiu com a força de um murro. Meu estômago protestou como se tivesse sido atingido com violência. Tudo doía. Ainda assim, eu precisava me levantar e, mesmo morrendo de medo, tentar fazê-lo me ouvir.
Nem mesmo a água quente do chuveiro tinha sido capaz de aliviar a tensão e a dor nos meus músculos. Meu corpo reagia dolorosamente a cada movimento meu. Parecia que eu tinha levado uma surra, daquelas que nos quebram por dentro sem deixar hematomas na pele. Mas mesmo a dor intensa no meu corpo não conseguia superar a que eu sentia na alma. Enquanto eu me trocava, os acontecimentos da noite anterior, aos poucos, iam se apossando da minha mente com detalhes mínimos e cruéis. A vontade de chorar voltava com força brutal e, embora eu soubesse que teria que me controlar, não sabia se seria capaz. Sentia-me fraca ... frágil ... vulnerável.
Apaguei a luz do closet depois de me trocar e, de volta ao meu quarto, encontrei Nikki sentada na minha cama a minha espera. Ela me observava enquanto em silêncio eu continuava a me arrumar sem coragem de olhá-la. Senti raiva de mim mesma por ser tão covarde. Como eu queria olhar nos olhos de Brian e lhe contar toda a verdade se eu não tinha coragem nem mesmo de encarar minha própria irmã?
_ Até quando você vai continuar fingindo que eu não estou aqui, Mel? – a voz carinhosa e suave de Nikki me tirou dos meus pensamentos. – Olhe para mim, minha irmã?
Sua voz não carregava nenhum tipo de reprovação. Eu só ouvia preocupação e carinho ali. Foi impossível não olhá-la com lágrimas nos olhos, o medo e a vergonha por toda aquela humilhação estampados em meu rosto. Nikki se levantou, caminhou rapidamente até mim e me abraçou protetoramente.
Chorei. Chorei como uma criança assustada enquanto ela acariciava meus cabelos e me abraçava ainda mais forte tentando me passar algum conforto. Nikki tinha uma personalidade forte e passava uma segurança incomum para alguém da nossa idade. Ela sabia perfeitamente o que queria e o que não queria para sua vida e, principalmente, sabia se fazer ouvir e respeitar. O fato é que sua presença em si já emanava a sua força. O fato é que ela sabia se impor, enquanto eu...
_ Não fique assim, Mel! Vai dar tudo certo! – minha irmã sussurrava docemente em meu ouvido tentando me confortar. – Brian ama você e vai saber entender o que aconteceu!
_ Você não pode me garantir isso, Nikki! – eu respondi chorosa – Você não viu como ele estava quando me deixou aqui ontem à noite. Ele nem mesmo falou comigo ou me olhou no rosto!
_ Quando nós chegamos ontem à noite ele estava parado dentro do carro em frente de casa, Mel! – ela disse me surpreendendo – Ele ficou um bom tempo conversando com o papai lá fora e pela aparência dele eu pude ver como ele estava mal com tudo o que aconteceu! Tenha um pouco de fé, minha irmã! Desça, tome o seu café e vá até ele. Eu tenho certeza de que ele vai ouvir o que você tem a dizer!
Eu não conseguia ouvir mais nada. Minha mente só conseguia processar a informação de que Brian tinha conversado com meu pai na noite passada. Custava-me acreditar que ele tinha ficado do lado de fora por mais de uma hora esperando meu pai chegar para contar a ele o que tinha acontecido. Será que agora ele me odiava tanto assim para querer me deixar em uma situação mais constrangedora ainda? Será que ele tinha contado ao meu pai sobre as calúnias que Mark havia jogado em cima de mim? O que meu pai estaria pensando ou sentindo agora?
_ Mel, você está tremendo! Está se sentindo mal? – minha irmã me perguntou com a voz assustada. – Deus do céu! Você está gelada, minha irmã! O que está acontecendo com você?
Eu não conseguia responder. O que eu diria a ela se eu nem mesma sabia o que estava acontecendo comigo?
_ Ele ... ele c-contou ao papai tudo o que aconteceu? – consegui perguntar com muito esforço.
_ Eu não sei sobre o que eles conversaram, Mel. Papai não me disse nada, mas provavelmente ele deve ter falado alguma coisa porque papai ficou muito assustado ao vê-lo em frente de casa sem você, ainda mais no estado em que ele estava... – ela disse me olhando com receio.
Fechei meus olhos sem conseguir impedir que as lágrimas descessem pelo meu rosto silenciosamente. Nikki voltou a me abraçar enquanto alisava meus cabelos na tentativa de me acalmar. Aos poucos, o choro foi cessando. Lavei meu rosto mais uma vez e juntas descemos para a mesa do café. Foi muito difícil sentar-me à mesa e encarar a minha família. Todos estavam em silêncio e eu podia perceber que me olhavam disfarçadamente, preocupados com a minha aparência.
_ Princesa! – meu pai me chamou – como você está se sentindo?
Era evidente a preocupação em seu tom de voz. Eu apenas sorri sem muita convicção tentando dizer que estava bem, mas obviamente ele percebeu a minha mentira e veio até mim, me abraçando.
_ Não fique assim, fofinha! Tome o seu café e vá falar com o seu noivo. Eu tenho certeza de que vocês vão se entender! – ele disse carinhosamente.
Eu apenas assenti. Não tinha certeza de que a minha voz sairia firme se eu tentasse dizer alguma coisa. Tomei apenas um suco e, com um enorme esforço, comi uma maçã. Meu estômago não conseguiria suportar mais do que isso. Meus pais me olhavam atentamente e eu podia ver nitidamente a preocupação estampada em seus rostos. Levantei-me da mesa com as pernas bambas sabendo que era chegado o momento. Minha insegurança fazia com que o caminho até a casa ao lado me parecesse interminável.  A porta da frente da casa de Brian nunca me pareceu tão gigantesca. Ou era eu que me sentia pequena?
Meu coração batia cada vez mais acelerado na medida em que eu subia os degraus que me levariam ao quarto de Brian. O olhar triste e angustiado de Linda ao me receber na porta da frente havia me deixado ainda mais insegura quanto ao desfecho daquela conversa, mas eu precisava ir até o fim, mesmo que esse fim não fosse o que eu esperava.
Parei ofegante e trêmula em frente à porta do quarto de Brian. Do outro lado daquela porta, estaria ou a minha felicidade ou a minha ruína total. Minhas mãos suavam ao girar a maçaneta que me daria acesso ao interior do quarto. Brian estava deitado de costas para a porta vestindo apenas uma calça de moletom. O peito forte estava nu e movia-se lentamente com sua respiração. Ele parecia dormir. Entrei silenciosamente, dando a volta em sua cama com medo de acordá-lo. Sentei-me na poltrona ao lado da enorme cama e, relutante, o encarei.
Seu rosto estava abatido como se tivesse chorado a noite toda. Seus olhos estavam fundos e exibiam duas olheiras escuras. Embora ainda dormisse, sua expressão sofrida deixava claro que o sono não era tranquilo. Fiquei ali, velando seu sono e admirando os traços finos e perfeitos de seu rosto que, mesmo com o cansaço aparente, estava ainda mais lindo.  O simples fato de estar no mesmo ambiente que ele aquecia meu coração, mas o medo de ver o desprezo em seus olhos me deixava paralisada. Eu só conseguia olhá-lo, sem coragem de me aproximar, embora sentisse um desejo imenso de tocá-lo, de acariciá-lo.
Brian dormia como um anjo, as mãos unidas sob o travesseiro como se estivesse fazendo uma oração. Minha vontade de tocá-lo, de sentir o calor da sua pele finalmente conseguiu superar o meu medo e eu me aproximei cuidadosamente para acariciar o seu rosto. Ajoelhei-me ao lado da sua cama, meu rosto bem próximo ao seu. Uma de minhas mãos se aproximava ainda trêmula de seu rosto quando o brilho do sol refletiu em um objeto sobre o criado-mudo chamando a minha atenção.
Meu coração bateu dolorido no peito ao reconhecer a aliança de Brian abandonada sobre o móvel. Recuei minha mão como se o contato com a sua pele fosse me queimar. Minha respiração estava suspensa e meus pulmões já imploravam por oxigênio, mas eu já não me lembrava como se respirava.
Meus olhos estavam presos naquele pequeno objeto que agora brilhava intensamente diante de mim. Sua imagem, de repente, começou a ficar embaçada por causa das lágrimas que já se acumulavam em meus olhos. Inspirei o ar com força e fechei meus olhos tentando controlar aquela sensação horrível que oprimia meu peito.  Meu corpo todo agora tremia enquanto eu tentava me levantar do chão, mas minhas pernas teimavam em fraquejar.
Minha cabeça girava com mil pensamentos ruins. Brian não me queria mais. Ele havia acreditado nas mentiras de Mark, sua aliança largada sobre o criado-mudo esfregava em minha cara que o rótulo de vadia havia ficado preso em mim. Doía pensar que ele tivesse acreditado em Mark sem que ao menos eu tivesse a chance de me defender, de me explicar.  Doía pensar que eu não o teria mais ao meu lado, que eu não sentiria mais o calor do seu abraço, que eu não teria mais o privilégio de sentir a maciez e o sabor maravilhoso dos seus beijos. Eu me odiava agora. Me odiava por não ter seguido os conselhos de Sofia e contado logo a verdade sobre Mark. Me odiava por ter sido covarde e ter saído correndo do carro e por não ter tentado me explicar ainda na noite anterior. Eu merecia o que estava acontecendo comigo. Eu merecia ficar sozinha. Eu não merecia Brian. Ele merecia alguém melhor. Merecia ter uma mulher que fosse forte e madura o suficiente para enfrentar a tudo e a todos para tê-lo ao seu lado.
Olhei mais uma vez para a aliança sobre o móvel. Baixei meus olhos e olhei para a aliança na minha mão direita. Eu não conseguiria tirá-la dali. Nunca. Mesmo que aquele fosse o fim, aquela aliança estaria para sempre em minha mão. Ela era parte de mim e eu a levaria embora como a doce recordação de um sonho que quase se realizou. 
Meus olhos pousaram uma última vez sobre o rosto perfeito de Brian registrando cada um daqueles traços que ficariam gravados para sempre em minha memória. Eu falaria com meu pai e partiria ainda naquela manhã para Hanover e ficaria em um alojamento de Dartmouth até que o apartamento que ele havia providenciado ficasse pronto. Iria mais cedo para a faculdade e deixaria Brian viver sua vida em paz. Daria a ele a chance de encontrar alguém que realmente o merecesse e de ser feliz. Eu sabia que, mesmo que eu me afastasse e ficasse sem vê-lo, minha angústia nunca diminuiria. Eu só esperava que, um dia, ele ao menos conseguisse me perdoar.


terça-feira, 21 de junho de 2011

Capítulo V - Indigno




Narrado por Brian

        As batidas do meu coração ainda não tinham recuperado o ritmo normal. Ele parecia um cavalo selvagem galopando livremente em campo aberto. Eu tinha mais uma vez em meus braços a mulher que possuía o meu coração e dominava meus pensamentos e, agora, tínhamos acabado de dar um passo ainda maior em nosso relacionamento: estávamos noivos. Eu sorria com esses pensamentos enquanto esperava que as crianças fizessem seus pedidos para que eu pudesse cumprir minha promessa e levar para Mel o sorvete mais gostoso de todos. Distraí-me com as crianças que pulavam e gritavam excitadas com a expectativa de tomar o sorvete. Olhando para cada uma delas, eu tentava imaginar a sensação de ter um filho com aquela mulher. Seria a realização de um sonho, seria como encontrar um tesouro por acaso, seria o paraíso. Minha mente vagava tentando desenhar os traços do rostinho do nosso bebê: a cor dos olhos e dos cabelos, a maciez e a suavidade da pele fininha e cheirosa, o som vivo do chorinho esfomeado e o lindo sorriso da mãe ao aninhá-lo no colo e amamentá-lo todos os dias. Seria realmente o melhor momento da minha vida quando isso acontecesse de verdade e o sorriso que eu levava nos lábios já era real, mas foi desfeito assim que ouvi aquilo:
– Vai parar de se fazer de difícil comigo agora ou vai aproveitar a chance de conhecer um homem de verdade? – olhei na direção em que Mel estava a tempo de vê-la tentar se afastar de um homem totalmente assustada, mas ele a agarrou pelo braço.
_ Me solta! – a dor era perceptível em sua voz. Será que aquele animal não percebia que a estava machucando apertando seu braço daquele jeito? – Você está me machucando Mark, me solta!
Ao ouvir aquele nome, a lembrança da festa de aniversário de 16 anos de Mel e Nikki me pegou de assalto. Era o mesmo palhaço que tinha tentado ficar com ela naquela noite. Era o mesmo idiota que desde então tentava seduzi-la em todas as oportunidades que tinha, mesmo ouvindo sempre um sonoro “não”. Ele não desistia, não respeitava a vontade dela, mas eu iria mostrar a ele que Mel tinha quem a defendesse e fizesse sua vontade ser respeitada. Eu já atravessava a rua de volta à praça quando a voz asquerosa insistiu:
_ Primeiro me responde! Você vai me dar uma chance ou não? – ele ainda a segurava pelo braço enquanto tentava beijá-la.
Meu sangue já estava entrando em ebulição em minhas veias. Eu já corria em direção aos dois para arrancar Mel das garras nojentas daquele verme. Ao mesmo tempo, eu tentava me controlar para não avançar nele. Eu sabia que esse era o maior medo dela, o motivo pelo qual ela ainda não tinha me contado sobre as constantes investidas dele. Foi com alívio e orgulho que vi quando minha menina estapeou o rosto daquele canalha. O susto fez com que ele a soltasse, mas eu ainda temia que ele fosse capaz de revidar a bofetada. O olhar furioso que ele lançava para ela me fez correr ainda mais. Se ele tocasse em um fio sequer do cabelo dela eu o mataria.
_ Ficou maluca, garota? Quem você pensa que é para me bater? Hein? – ele rosnava descontrolado passando a mão sobre o rosto vermelho. Os dedos delicados de Mel estavam marcados em suas bochechas. Meu docinho tinha usado todas as suas forças, eu estava certo disso.
Mel estava visivelmente assustada ao ver o ódio estampado no rosto de Mark. Ela tinha medo dele, seu olhar denunciava isso e eu precisava impedir que ele tomasse proveito da situação e tentasse intimidá-la novamente. Eu ainda pude ouvir a voz de Mel que lhe dizia alguma coisa, mas não conseguia compreender o que era. Estava completamente focado nele, me concentrava em suas feições e movimentos tentando prever sua próxima atitude. Naquele momento, tudo o que eu pensava era em chegar até ela e protegê-la da canalhice daquele moleque.
 Mark não dizia mais nada, apenas permanecia encarando-a com uma expressão indecifrável. Eu não podia me demorar mais. Acelerei ainda mais o passo para chegar até ela sem que ele percebesse. O fator surpresa seria minha arma contra ele.
_ Vá embora, Mark, por favor! – eu pude ouvir a voz amedrontada de Mel implorando que ele a deixasse em paz.
Seus olhos estavam cheios de lágrimas e embora ela se esforçasse para não chorar, uma lágrima escorreu por seu rosto. A expressão de Mark ainda era uma incógnita. Eu não sabia o que se passava por sua cabeça. Foi com alívio que vi Mel começar a se afastar vagarosamente. Ela parecia estudar sua reação enquanto dava alguns passos para longe dele. No início ele não se moveu, mas de repente, pareceu acordar de um transe e tentou se aproximar dela novamente. Eu ainda estava um pouco distante, mas precisava impedir aquela aproximação.
_ Mel? – eu a chamei para que ele soubesse que ela não estava sozinha e desprotegida.
Deu certo. Mark desviou o olhar de Mel e olhou em minha direção. Pude perceber claramente o momento em que uma ideia diabólica se acendeu em sua mente doentia. Suas feições adotaram uma expressão que deixou Mel visivelmente apavorada. Ela agora estava congelada diante dele e suas mãos estavam trêmulas e certamente suadas de nervosismo.
_ Agora eu entendi porque você está me dispensando! Quer dizer que o corno do seu namoradinho está na cidade, não é? – ele disse em um tom de voz mais alto do que o normal para que eu o ouvisse. – Você é mesmo muito engraçada, não é, Melinda? Quando o idiota está longe você não para de me ligar e me chamar para sair e quando ele chega você me coloca para escanteio? Pois fique você sabendo que eu não sou substituto de ninguém, nem sou o seu quebra-galho particular!
Ela o olhava atônita. Naquele momento, eu já estava ao lado dela e o encarava com um olhar mortal. Estava novamente concentrado nas ações do imbecil que tentava me envenenar contra minha menina. Ao menor movimento dele, eu o faria beijar o chão e, dessa vez, não iria me contentar em apenas empurrá-lo. Vendo que sua insinuação não tinha surtido efeito em mim, Mark resolveu pegar pesado:
_ Você já contou pro seu namoradinho como você gosta quando eu estou esfolando você por dentro, vadia?
Ao ouvir aquelas palavras, minha visão se tingiu de vermelho. Eu podia sentir a sede de sangue, do sangue daquele animal, me impulsionar para frente, enquanto meu punho fechado voava em direção ao seu rosto. O primeiro soco foi como uma dose de droga injetada na veia de um dependente químico. Trouxe algum alívio para a minha ira, mas não foi o suficiente para aplacá-la. Eu precisava de mais. Me peguei completamente viciado em socar a cara daquele cretino que se debatia embaixo de mim e tentava se proteger dos meus golpes. Eu podia ouvir os gritos apavorados de Mel e, embora não conseguisse entender o que ela dizia, tinha certeza de que me implorava para parar. Eu sabia que devia parar, mas não conseguia. Uma ira incontrolável tinha tomado conta de mim. As palavras ofensivas que ele tinha dito à minha noiva ainda ecoavam em meus ouvidos me incentivando a continuar a castigar o rosto de Mark.
Eu era pura fúria. Estava totalmente fora de mim. Apesar de ter plena consciência da presença de Mel ali tão perto, tudo o que eu conseguia pensar e fazer era esmurrar incansavelmente o rosto de Mark. Eu sabia que Mel deveria estar assustada comigo agora, talvez até decepcionada diante da violência que eu tinha demonstrado ser capaz, mas simplesmente não conseguia parar.
Eu ainda batia furiosamente no rosto de Mark que já sangrava como o porco que ele era, quando me senti ser arrancado de cima dele. Ainda tentei me debater para voltar a ensiná-lo a não desrespeitar a minha menina, mas os três homens que me seguravam firmemente pelos braços me impediram de prosseguir.
Mesmo depois de ter sido socado daquela forma, Mark ainda se levantou meio tonto tentando estancar o sangue com a própria camisa. Eu teria ficado quieto no meu canto se, antes de partir, ele não tivesse olhado mais uma vez para Mel com o ódio estampado no rosto e, em uma ameaça silenciosa, apontado o dedo em sua direção como se fosse uma arma e “atirado”.
O ódio novamente se apossou de mim e comecei a me debater para me soltar dos homens que ainda tentavam me conter. Dessa vez, eu não pararia até matar aquele infeliz. Ele nunca mais ameaçaria ninguém, muito menos a minha menina. Eu já estava disposto a me atracar com aqueles homens até que eles me soltassem, mas a voz de um deles me fez repensar minhas intenções:
_ Vá embora daqui, moleque, antes que eu resolva soltar este rapaz para que ele lhe ensine a não ameaçar moças indefesas!
Mark olhou para o homem com um sorriso debochado e virou-se mais uma vez na direção de Mel jogando-lhe um beijinho no ar. Eu já bufava de ódio novamente e não via a hora de pegá-lo, mas congelei ao perceber que Mel não me olhava nos olhos. Baixei os olhos e encarei o chão com vergonha de mim mesmo.
Vergonha. Angústia. Raiva. Impotência. Eu não sabia como agir, não conseguia pensar direito, mas, principalmente, eu não tinha coragem de olhar nos olhos da minha menina e ver a decepção estampada ali. Decepção que eu tinha causado. Minha culpa. Eu não deveria ter me deixado levar pela raiva. Eu não deveria ter me permitido levar pelas provocações de Mark. Ele havia conseguido o que queria. Eu via uma crise se instalando ali. Estava perdendo a briga apesar de não ter sido fisicamente atingido nem mesmo uma única vez. Porém, a destruição que a minha atitude tinha causado estava estampada no rostinho triste de Mel.
Nós havíamos caminhado lado a lado até a casa de minha avó, onde eu peguei meu carro para levá-la para casa. Durante todo o trajeto ela não tinha olhado para mim nenhuma vez. Sequer falou comigo. Manteve seu olhar fixo no lado de fora do carro através da janela ao seu lado. Meu sangue estava congelado nas veias e eu me sentia entorpecido, talvez pelo excesso da adrenalina que tinha sido injetada em meu coração no momento da briga. Ou talvez fosse simplesmente pelo pânico de que ela não me perdoasse por minha atitude violenta.
Meu olhar estava preso na estrada à minha frente e minha mente não conseguia processar nem mesmo uma frase coerente para tentar quebrar aquele silêncio angustiante. Eu tentava pensar em uma forma de começar uma conversa em que eu pudesse tentar me desculpar por ter estragado a nossa noite, mas meu cérebro não me obedecia. O medo de ouvi-la dizer que não queria ficar com um homem capaz de tamanha violência havia me deixado incapaz de dizer qualquer coisa. Eu repassava as palavras maldosas de Mark em minha cabeça e ainda não conseguia acreditar que ele tinha sido capaz de ofendê-la daquela forma. Ainda que Mel não fosse virgem, ninguém em sã consciência acreditaria por um minuto sequer nas calúnias daquele cafajeste. Mel seria incapaz de uma atitude tão baixa como a que ele a tinha acusado de ter. Ela era a pessoa mais pura que eu já tinha conhecido. Pura não só de corpo, mas também de alma. Mel era um anjo, uma criatura extremamente meiga, um docinho ... o meu docinho.
O carro estava agora parado em frente à casa de Mel e eu não sabia se ela queria que eu entrasse. Eu implorava a Deus para que ela dissesse alguma coisa, para que me pedisse para desligar o motor, que me pedisse para conversarmos e foi com o mais absoluto desespero que eu a vi descer do carro aos prantos e correr em direção à porta de casa sem nada dizer. Meu coração se apertou em meu peito e eu não conseguia me mover. Eu queria correr atrás dela e implorar para que ela me ouvisse, mas depois do que eu tinha feito eu não me sentia digno sequer de respirar o mesmo ar que ela. Eu me sentia sujo. Eu estava sujo. Tinha me sujado com a imundice de Mark ao me deixar levar pela raiva. Tinha caído na armadilha dele e me rebaixado ao seu nível. Mel merecia mais do que um noivo imundo e indigno e foi por isso que eu não a segui. Fiquei ali olhando a mulher da minha vida se afastar de mim totalmente impotente, totalmente destruído.
Meus músculos estavam paralisados. Mais de uma hora havia passado desde que Mel me deixara sozinho e eu permanecia parado do lado de fora de sua casa com o motor do carro ainda ligado. Eu não tinha coragem de sair dali. Era como se o meu oxigênio fosse acabar se eu me afastasse ainda mais dela.
Meu peito doía com a angústia de não poder estar com ela, de não poder aconchegá-la em meu colo e consolá-la. Mas acima de tudo, ele doía por saber que eu era o causador daquele sofrimento.
A luz do farol de um carro batendo no meu espelho retrovisor chamou a minha atenção. O carro do tio Emmett estacionava na garagem de casa trazendo toda a família. Tio Emmett, reconhecendo meu carro, aproximou-se sorrindo, mas seu sorriso se desfez ao olhar para o meu rosto.
_ O que foi, Brian? Por que você está deste jeito? Aconteceu alguma coisa com a minha menina? – a preocupação era visível em sua voz.
Seu tom de voz preocupado atraiu a atenção de todos que ainda saíam do carro. Em poucos segundos eu me encontrava rodeado por meus tios e primas. Nikki me olhava com os olhos arregalados, provavelmente tentando adivinhar o que tinha acontecido. Sem conseguir arrancar uma resposta de mim, tio Emmett abriu a porta do meu carro e me puxou para fora para olhar em meus olhos.
_ Deus do céu, menino! Diga-me o que aconteceu, por favor? – ele pediu angustiado.
Eu o olhava sem conseguir pronunciar uma única palavra. A vergonha me sufocava. Como eu iria dizer a ele que eu tinha agido como um troglodita e magoado a sua filha? Com que cara eu iria olhar para ele e saber que tinha quebrado a confiança que ele tinha depositado em mim quando me entregou sua menina? Meus olhos deixaram escapar as lágrimas que há tanto tempo eu lutava para segurar.
_ Fala comigo, filho? – tio Emmett me abraçou tentando me amparar. – Me diga o que aconteceu? – ele insistiu.
_ Eu vou ver como a Mel está, papai! – Nikki disse olhando em meus olhos e saiu de perto levando tia Rose e as irmãs.
Agradeci mentalmente por isso. A conversa que eu teria com tio Emmett já seria difícil o suficiente para que eu ainda tivesse toda a família como platéia. Assim que elas entraram e fecharam a porta, eu olhei para o rosto preocupado do meu tio e respirei fundo algumas vezes antes de contar toda aquela sujeira. Tio Emmett ouviu tudo o que eu tinha para dizer sem pronunciar uma palavra sequer. Apesar de ver o ódio brilhar em seus olhos quando repeti as palavras infames de Mark pude perceber que ele se esforçava para não sair dali atrás do canalha. Minha vergonha tornou-se ainda maior ao perceber que eu tinha que ter me controlado como ele fazia agora bem diante de mim.
_ Ela deve estar me odiando agora, tio! – eu disse arrasado ao terminar de contar a verdade. – Ela deve estar me achando um troglodita. Eu não podia ter me deixado levar pelas provocações daquele moleque.
Tio Emmett, que até então tinha ficado calado, me abraçou apertado como fazia quando eu ainda era um menino. Deixei que a emoção tomasse conta de vez e liberei o choro na tentativa de aliviar aquela pressão horrível em meu peito. A princípio, ele nada disse, apenas deixou-me molhar sua camisa com as minhas lágrimas enquanto acariciava meus cabelos com o mesmo carinho de sempre. Como era possível que ele não sentisse raiva de mim por ter magoado sua filha da forma que eu tinha magoado? Eu mesmo não conseguia me perdoar pelo que eu tinha feito, no entanto, ele estava ali, como sempre esteve, para me apoiar.
_ A violência realmente não é a melhor saída para resolver os problemas, Brian! Mas eu devo confessar que estou orgulhoso de você! – ele disse me surpreendendo.
_ C-como? – eu o olhava atônito sem conseguir acreditar em meus ouvidos. – O senhor não está decepcionado comigo? – perguntei.
_ De forma alguma! – ele disse com firmeza – Eu sei que você poderia ter tentado resolver a situação de outra maneira, mas eu estou orgulhoso por você ter defendido a honra da minha filha, mesmo que o tenha feito de forma violenta. Eu tenho que admitir que eu teria feito pior com aquele moleque. Certamente eu o teria matado se estivesse no seu lugar.
_ Mas eu queria matá-lo, tio. Só não o fiz porque me tiraram de cima dele, mas eu não o teria soltado até que ele estivesse morto. E é isso o que mais me assusta. O senhor sabe que eu nunca fui uma pessoa violenta, mas ele conseguiu despertar uma fúria assustadora em mim, algo que eu nunca tinha sentido antes. Eu me sinto tão sujo agora, sinto que eu não mereço a mulher que eu tenho. A Mel merece alguém melhor do que eu. – eu disse voltando a chorar.
_ Não diga tolices, menino! – ele me repreendeu. – Não existe ninguém neste mundo mais merecedor da minha filha do que você. O meu respeito e a minha admiração por você não mudaram em nada por causa da sua atitude. E eu tenho certeza de que a Mel também não se decepcionou com você!
Como eu queria que as suas palavras expressassem a verdade dos fatos! Eu queria muito acreditar que ela estava apenas assustada com a minha reação, que ela não tinha se decepcionado comigo, mas isso não era possível. Não depois de vê-la correr aos prantos para dentro de casa sem falar comigo.
_ Se o senhor tivesse visto como ela correu para longe de mim assim que eu parei o carro, não me diria essas coisas. – eu sussurrei sentindo mais uma vez o peito sufocado.
_ Vocês chegaram a falar sobre o assunto? – ele me perguntou.
_ Ela sequer olhou para mim depois que tudo acabou, tio! Se ela tivesse dito qualquer coisa, mesmo que tivesse gritado comigo ou me ofendido, eu estaria menos angustiado agora. – confessei.
_ Filho, já passou pela sua cabeça que ela pode ter agido assim por medo de você ter acreditado nas calúnias daquele rapaz? – ele me perguntou.
_ Eu nunca faria isso, tio! – respondi indignado. – Como ela poderia acreditar em um absurdo desses?
_ Da mesma forma que você está pensando que ela lhe odeia agora! – ele respondeu simplesmente. – Você não imagina as confusões que a falta de diálogo entre duas pessoas pode causar!
Sim, eu sabia. Meu pai tinha me contado sua história quando me revelou sobre as investidas de Mark para cima de Mel. Minha mãe tinha tentado esconder dele que o ex-marido a tinha abordado e tinha colocado sua vida e a de Sofia em perigo. Meu pai me contou que tinha reagido mal ao finalmente saber a verdade e que, por causa de sua reação, minha mãe quase perdeu o bebê. Foi pensando nisso que ele decidiu me contar sobre o que estava acontecendo com Mel. Ele esperava que eu estivesse preparado e que eu soubesse esperar até que Mel tivesse coragem de me contar a verdade. Ainda me lembro de suas palavras ao terminar de me contar tudo: “Ouça tudo o que ela tiver a lhe dizer, filho. E não a julgue por não ter contado antes, ela só está assustada e cabe a você fazê-la se sentir segura o suficiente para se abrir com você”.
O que mais me angustiava era que, diante da minha reação às palavras de Mark, ela jamais se sentiria confiante o suficiente para se abrir comigo. Parecia que, se eu ainda não tinha fechado as portas para o diálogo, eu certamente tinha colocado um imenso obstáculo para que ele acontecesse.
_ Vá para casa, Brian! – a voz carinhosa de tia Rose me tirou dos meus pensamentos – Descanse um pouco e amanhã vocês conversam. Mel está dormindo agora e você deveria tentar fazer o mesmo.
Eu estava tão absorto em meus pensamentos que não tinha percebido que tia Rose estava de volta. Apenas assenti com a cabeça, recebendo um abraço e um beijo carinhoso de meus tios e entrei novamente em meu carro dirigindo sem rumo pela cidade. Quando o cansaço finalmente começou a me tomar decidi voltar para casa. No caminho de volta, eu tentava me convencer de que tudo seria esclarecido no dia seguinte, mas algo me dizia que as coisas não seriam tão simples assim.
No instante em que entrei em casa, minha mãe veio em minha direção e me deu aquele abraço protetor e carinhoso que ela sempre reservava para mim quando eu estava triste. Suas mãos deslizavam suavemente por meus cabelos me trazendo um pouco de conforto. Ficou obvio que tia Rose havia ligado para ela assim que eu tinha saído de sua casa.
_ Amanhã vocês conversam e resolvem todos os problemas, anjinho! – ela disse com sua voz suave tentando me fazer sentir melhor.
_ Eu espero que sim, mãezinha! Eu espero honestamente que sim! – respondi sem conseguir segurar um suspiro cansado.
_ Você está esgotado, filho! Vá se deitar e tente descansar um pouco. Você precisa estar mais forte para a conversa que terão amanhã! – ela disse me levando pela mão até a porta do meu quarto.
Meu pai nos seguia calado, me olhando com carinho, apenas repousando uma de suas mãos sobre o meu ombro direito. Em seu silêncio, ele me dizia que estaria ali caso eu sentisse a necessidade de desabafar, mas eu não queria falar. Não naquele momento. Eu só queria me deitar e tentar dormir para que o dia seguinte chegasse mais rapidamente e eu pudesse tentar trazer a minha menina de volta para mim.
Entrei em meu quarto indo direto para o chuveiro. Eu esperava que a água quente pudesse lavar a sujeira de Mark que estava impregnada em minhas mãos que agora latejavam. Minha aliança estrangulava meu dedo inchado pelos incontáveis golpes aplicados no rosto daquele moleque inconseqüente. Com muito esforço, consegui tirá-la do dedo e senti um imenso vazio assim que a coloquei sobre a mesinha de cabeceira ao lado da minha cama. Minha mãe me esperava sentada em minha cama e me olhava com o semblante preocupado. Deitei-me calado com a cabeça apoiada em seu colo. Seus dedos passeavam suavemente por meus cabelos em um carinho gostoso que só uma mãe é capaz de oferecer. Não dissemos uma palavra sequer. Permanecemos por um longo tempo em um silêncio confortável e embora o cansaço já começasse a me dominar eu estava ciente de sua presença protetora ali.  Aos poucos, comecei a me permitir relaxar e deixei que o sono me abraçasse. No dia seguinte, eu conversaria com Mel e tentaria me explicar. Eu só não sabia ainda se aquele pesadelo estava prestes a acabar ou se estava apenas começando. 




domingo, 19 de junho de 2011

Capítulo IV - Intrigas



Narrado por Melinda

A lua brilhava imensa e soberana no céu limpo e estrelado de Edmonds. O clima ameno da primavera convidava a todos para desfrutar do agradável fim de noite que fechava com chave de ouro aquele jantar que, com certeza, ficaria marcado em minhas melhores lembranças para o resto da minha existência.
Brian e eu tínhamos caminhado de mãos dadas até uma praça perto da casa de nossos avós. Era maravilhoso senti-lo ali, tão pertinho de mim. A suavidade do toque das suas mãos sobre as minhas era o que me impedia de pensar que tudo aquilo era só mais um sonho. O perfume e o calor que só ele era capaz de transmitir me davam a certeza de que ele era real, de que ele estava ao meu lado. O sorriso brilhante e o olhar carinhoso que ele me dava faziam eu me sentir a pessoa mais importante do mundo.
Estávamos agora sentados em um banquinho da praça, admirando o reflexo da lua que conferia à água de um pequeno lago artificial um brilho prateado. Brian me abraçava por trás, seus braços envolviam fortemente a minha cintura e eu sentia seu peito colado às minhas costas enquanto seu queixo pousava suavemente sobre meu ombro esquerdo. Estávamos em silêncio, apenas curtindo a presença um do outro, mas mesmo sem dizer palavra alguma, estávamos conectados um ao outro de uma forma que ninguém jamais poderia compreender. Travávamos um diálogo silencioso através de nossos corpos que não perdiam o contato nem mesmo por um segundo. Havíamos ficado muito tempo longe um do outro e a simples possibilidade de não nos sentirmos o tempo todo nos machucaria. Eu não queria quebrar a atmosfera gostosa que nos cercava, mas havia uma coisa que estava me incomodando e eu precisava perguntar:
_ Bebê, por que você se aborreceu comigo mais cedo? – eu perguntei de repente e Brian me olhou com o semblante confuso. – Foi porque eu disse que preferia ficar tonta pelo resto da minha vida se eu pudesse ter você junto de mim? – completei.
Brian respirou profundamente antes de se soltar de mim. Ele se levantou, deu a volta no banquinho e se ajoelhou na minha frente. Seus olhos brilhavam ainda mais verdes e ele envolveu meu rosto com ambas as mãos e beijou suavemente meus lábios antes de falar:
_ A simples ideia de vê-la doente ou sofrendo de qualquer forma me machuca, docinho! E não, eu não me aborreci com você! Eu só não suporto pensar que algo de ruim possa lhe acontecer sem que eu possa fazer alguma coisa para impedir. – ele disse com uma expressão de dor e eu me arrependi de ter tocado naquele assunto.
Eu sabia perfeitamente do que ele estava falando. Aquela expressão sofrida em seu rosto já me angustiava. Brian ainda me olhava com a mesma expressão angustiada enquanto seus dedos acariciavam gentilmente a pele do meu rosto.  O toque delicado sobre a minha pele provocava uma sensação gostosa de maciez, suavidade, paz, carinho e ... amor. 
_ Me desculpe, bebê! – eu disse quebrando mais uma vez o silêncio. – Eu só disse aquilo para tentar descontrair o clima pesado que ficou depois que eu senti aquela vertigem. Eu podia sentir que você tinha ficado preocupado por minha causa. – eu completei acariciando seu rosto com a ponta dos dedos.
_ Eu sei disso, docinho, mas, por favor, nunca mais diga uma coisa daquelas. Nem por brincadeira! Promete? – ele pediu de olhos fechados enquanto apreciava o toque dos meus dedos que delineavam suavemente cada traço do seu rosto.
Suspirei profundamente e aproximei meu rosto do dele dando-lhe um beijo breve e suave nos lábios.
_ Prometo. – respondi em seus lábios, sentindo suas mãos me puxarem para mais perto enquanto ele aprofundava o beijo.
Eu jamais encontraria as palavras que fizessem justiça a todas as sensações maravilhosas que um simples beijo daquele homem me provocava. Eu só me perguntava, às vezes, se ele também sentiria tudo aquilo com tanta intensidade. A única coisa que me aborrecia era a necessidade de ar que sempre interrompia nossos beijos no melhor momento. Brian separou levemente nossos lábios, unindo-os novamente em vários selinhos demorados. Seria um pecado deixar de beijá-lo por um detalhe tão insignificante como respirar.
Um carro de sorvete passava pela praça tocando aquela musiqueta que mais parecia ser de circo e Brian sorriu como criança. Eu já sabia o que se passava em sua cabeça: ele simplesmente adorava sorvete e eu tinha certeza de que já deveria estar com água na boca de vontade de ir até lá.
_ Vai lá, bebê! Eu sei que você ama esse sorvete e se eu não deixar que você tome pelo menos um vou ficar me sentindo culpada. – eu disse sorrindo ao ver seus olhos brilhando intensamente.
_ Eu já volto, docinho! Prometo que vou trazer o melhor de todos para você! – ele disse antes de correr na direção do carrinho junto com outras crianças que estavam na praça.
Fiquei ali, sentada, observando como ele estava lindo sorrindo daquela forma. Percebi que ele esperaria até que todas as crianças fizessem seus pedidos antes de comprar o nosso sorvete. Inspirei profundamente, enchendo meus pulmões com o ar fresco da noite e voltei meu olhar para o brilho prateado da lua sobre a água do lago. As pequenas ondas que se formavam quando uma brisa leve soprava a água me distraíram e eu não percebi quando alguém chegou por trás de mim. Só me dei conta de que a pessoa tinha se aproximado quando senti dois braços envolvendo a minha cintura e aquela voz masculina sussurrar em meu ouvido:
_ Oi, gatinha! O que você está fazendo aqui sozinha? – a voz melosa de Mark me assustou.
Levantei-me do banco rapidamente me desvencilhando dos seus braços. Eu o olhava com os olhos arregalados sem conseguir acreditar na sua ousadia em me tocar daquela maneira. Minha vontade era de estapeá-lo, tamanha era a minha raiva, mas eu não tinha como fazê-lo sem chamar a atenção de Brian que ainda não tinha nos visto.
_ Eu não sei o que você tem nessa sua cabeça, Mark, mas eu tenho certeza de que eu jamais lhe dei intimidade para você me tocar assim. Por favor, vá embora e me deixe em paz! – eu pedi ainda ofegante por conta do susto.
Aquele sorrisinho confiante dele me irritava, isso era fato. Ele deu um passo à frente tentando diminuir a distância entre nós, mas parou irritado ao ver que eu tinha recuado o mesmo tanto.
_ Qual é o seu problema, hein? Vai ficar aí feito uma idiota esperando o seu namoradinho enquanto ele se diverte com a mulherada longe de você? – ele lançou o veneno dando um sorriso debochado.
_ Brian não é meu namoradinho, Mark! Ele é... – tentei dizer, mas ele me interrompeu me pegando de surpresa ao praticamente saltar para cima de mim.
_ Ah! Quer dizer então que ele já te deu o fora? Então agora eu tenho certeza de que você vai me dar uma chance, não é, gatinha? – ele tentou me abraçar e eu me afastei novamente, mas ele foi mais rápido e me agarrou pelo punho. – Vai parar de se fazer de difícil comigo agora ou vai aproveitar a chance de conhecer um homem de verdade?
_ Me solta! – eu pedi com a voz sufocada pela dor causada pelo aperto em meu punho. Tentei puxar o braço, mas ele apertou ainda mais os seus dedos tentando me impedir. – Você está me machucando Mark, me solta!
_ Primeiro me responde! Você vai me dar uma chance ou não? – ele insistiu tentando me beijar.
Eu não tinha escolha. Se eu não tomasse uma atitude drástica ele não me deixaria em paz e Brian estaria voltando a qualquer momento. Tudo o que eu menos precisava era que ele ficasse sabendo das investidas de Mark daquela forma. Eu iria contar a verdade para ele, mas não no meio de uma confusão como a que estava prestes a se formar. Eu já não ouvia mais nada, o pânico havia tomado conta de cada célula do meu corpo. A única coisa que eu conseguia sentir era a palma da minha mão esquerda queimando pela bofetada que eu tinha dado no rosto de Mark que agora me olhava furioso.
_ Ficou maluca, garota? Quem você pensa que é para me bater? Hein? – ele rosnava descontrolado passando a mão sobre o rosto vermelho e eu já estava começando a temer que ele fosse me agredir fisicamente.
O ódio estampado no rosto de Mark era assustador. Naquele momento eu já nem me importaria se Brian chegasse e nos visse ali. Tudo o que eu queria era me sentir protegida em seus braços.
_ Você não me deixou alternativa, Mark! Eu tenho tentado fazer você entender que entre nós nunca vai rolar nada, mas você insiste em não me ouvir! Por que essa obsessão por mim? Você não precisa disso! Eu não consigo entender o motivo dessa sua insistência! – eu disse sem conseguir evitar que o medo transparecesse na minha voz.
Mark não me respondeu, apenas permaneceu me encarando com uma expressão indecifrável. Eu não sabia o que esperar dele naquele momento. Somente rezava para que ele não visse Brian e resolvesse provocá-lo. Por que ele não ia embora e me deixava em paz de uma vez por todas? Eu não conseguia entender a fixação que ele tinha por mim. Mark era um rapaz bonito, sua família tinha dinheiro e muitas moças da cidade suspiravam por ele quando ele passava por elas. Então, por que eu?
_ Vá embora, Mark, por favor! – eu implorei desviando o meu olhar do dele. A forma como ele me encarava me causava arrepios e pela primeira vez eu percebi que eu tinha medo dele.
Esse pensamento trouxe lágrimas aos meus olhos. Embora eu me esforçasse para não chorar diante dele, não pude evitar que uma lágrima rolasse pelo meu rosto. Sua expressão, embora tenha mudado ao me ver chorando, ainda era indecifrável. Comecei a me afastar lentamente dele pedindo a Deus que ele não viesse atrás de mim, mas ele pareceu despertar do seu transe e deu mais um passo na minha direção.
_ Mel? – ouvi a voz suave de Brian chamar o meu nome ainda um pouco distante.
Meu coração, antes aos pulos de medo, agora estava congelado em meu peito ao ver a expressão que surgia no rosto de Mark. Eu já podia prever que aquela noite não acabaria bem e minhas mãos já estavam trêmulas e suadas.
_ Agora eu entendi porque você está me dispensando! Quer dizer que o corno do seu namoradinho está na cidade, não é? – ele disse em um tom de voz mais alto do que o normal para que Brian o ouvisse. – Você é mesmo muito engraçada, não é, Melinda? Quando o idiota está longe você não para de me ligar e me chamar para sair e quando ele chega você me coloca para escanteio? Pois fique você sabendo que eu não sou substituto de ninguém, nem sou o seu quebra-galho particular!
Eu o olhava atônita. Brian já estava ao nosso lado e o encarava com um olhar mortal. O pior de tudo é que ele não olhava para mim e eu não sabia se ele tinha ouvido, ou, pior, acreditado nas palavras venenosas de Mark. Brian só ficava parado ao meu lado sem me tocar e eu já estava totalmente desesperada com aquela situação. Como se o veneno destilado já não tivesse sido o suficiente, Mark resolveu dar o golpe final:
_ Você já contou pro seu namoradinho como você gosta quando eu estou esfolando você por dentro, vadia?
Tudo aconteceu muito rápido. Em um instante, Mark estava dizendo as palavras que talvez fossem acabar com o meu noivado que mal tinha começado e, no outro, ele estava no chão sendo socado impiedosamente por Brian.
_ Brian, não! Por favor, amor para! Não faça isso! – eu gritava aos prantos enquanto ele continuava a socar o rosto de Mark.
Brian era pura fúria. Eu nunca o tinha visto daquela forma, tão fora de si. Enquanto eu implorava para que ele parasse, ele castigava incansavelmente o rosto de Mark. Tudo o que eu mais temia estava acontecendo sem que eu pudesse fazer alguma coisa para impedir: Brian estava se metendo em confusão por minha culpa.
Meus gritos atraíram a atenção de algumas pessoas que passavam por ali e três homens se aproximaram para apartar a briga, ou melhor, para impedir que Brian matasse Mark. Embora eles fossem grandes e até bem fortes, os três tiveram que se esforçar para arrancar Brian de cima de Mark.
Mark sangrava abundantemente pelo nariz e pela boca. Assim que os homens puxaram Brian de cima dele, ele se levantou meio tonto tentando estancar o sangue com a própria camisa e antes de partir, me olhou com ódio e em uma ameaça silenciosa apontou o dedo em minha direção como se fosse uma arma e “puxou o gatilho”.
Brian enlouqueceu com aquele gesto e começou a se debater para se soltar dos homens que ainda tentavam contê-lo. Um deles, vendo o gesto ameaçador de Mark em minha direção, falou:
_ Vá embora daqui, moleque, antes que eu resolva soltar este rapaz para que ele lhe ensine a não ameaçar moças indefesas!
Mark lançou-lhe um sorriso debochado e virou-se mais uma vez em minha direção, dessa vez me jogando um beijinho no ar. Brian bufava como um touro na arena, pronto para partir para cima dele novamente assim que tivesse a chance de fazê-lo. Eu não tinha coragem de olhá-lo nos olhos. Eu não suportaria ver em seus olhos o desprezo que me daria a certeza de que ele teria acreditado nas palavras ferinas de Mark.
Medo. Vergonha. Angústia. Humilhação. Tantos sentimentos negativos me esmagavam enquanto Brian dirigia de volta para casa sem dizer uma palavra sequer. A única coisa que ele havia dito depois que os homens o soltaram tinha sido um “Vamos, Melinda. Eu vou levá-la para casa” que quase fez meu coração parar de bater. O tom frio e quase indiferente da sua voz e o fato de ele não ter sequer olhado em meu rosto ao dizer aquilo e mesmo depois, quando estávamos sozinhos no carro, me deram a certeza de que ele havia acreditado nas calúnias de Mark. Havíamos caminhado lado a lado até o carro em um silêncio opressor e em momento algum Brian tinha me tocado, me olhado ou mesmo falado comigo. Eu olhava para fora do carro através do vidro da porta ao meu lado enquanto envolvia a mim mesma em meus braços em uma inútil tentativa de me sentir mais forte e conter o tremor do meu corpo e a vontade de chorar.
Brian parou o carro na porta da minha casa, mas não desligou o motor. Eu já sabia que ele não iria entrar. Não havia mais clima para nada, nem para conversar ou até mesmo brigar. Eu não sabia que atitude tomar, o que dizer ou o que pensar. Tudo o que eu mais queria era que aquela briga jamais tivesse acontecido e que eu tivesse tido a chance de contar tudo para ele de uma forma menos turbulenta. Mas o estrago estava feito e, ao que tudo indicava, eu o tinha perdido, talvez para sempre.
O silêncio esmagador dentro do carro havia se tornado insuportável. Brian ainda não olhava para mim, apenas encarava o vidro da frente com o olhar vazio como se estivesse em outra dimensão. Abri a porta do carro e corri para dentro de casa já não conseguindo mais segurar as lágrimas que molhavam meu rosto. A casa estava mergulhada no mais absoluto silêncio. Parecia ter se juntado a Brian em um complô para me castigar.
Subi as escadas até o meu quarto, correndo direto para o chuveiro. Eu me sentia imunda e precisava lavar toda aquela sujeira que Mark havia jogado em cima de mim. Sob a água quente, eu esfregava a minha pele com força tentando arrancar qualquer vestígio de todo aquele lixo enquanto minhas lágrimas se misturavam à espuma que escorria do meu corpo. Os dedos enormes de Mark haviam ficado marcados em meu punho e eu sentia como se ele tivesse me marcado com a sua sujeira. Suas palavras rudes e ofensivas ecoavam em meus ouvidos e eu não sabia até que ponto eu ainda aguentaria ouvi-las sem perder o controle definitivamente.
Saí do Box e encarei a moça refletida no espelho. Sua aparência era ao mesmo tempo assustadora e digna de pena. Ela estava em ruínas e eu não sabia se ela conseguiria se reerguer. Aquela noite, que tinha começado como a promessa da realização de um sonho, havia se transformado em um horrendo pesadelo.