Narrado por Melinda
A noite havia passado lentamente como se quisesse me torturar enquanto os ponteiros do relógio zombavam da minha cara. Eu quase podia ouvi-los rindo de mim. Dormir havia sido uma tarefa impossível. Apesar de ter tomado um chá calmante feito pela minha mãe, ele apenas me ajudou a controlar o choro convulsivo que tinha me dominado na noite anterior. O aperto enorme no peito, porém, continuava ali. Impiedoso. Opressor. Sufocante.
Eu sabia que todos haviam ficado preocupados comigo, mas não estava em condições de falar sobre o assunto naquele momento. Minha única opção tinha sido fechar os olhos e fingir estar dormindo para que minha família me deixasse sozinha. Eu podia notar os olhares de preocupação e pena dos meus pais e de Nikki sobre mim. Aquilo me deixava mal porque eu sabia que eles sofriam me vendo sofrer. Eu só esperava poder conversar com Brian e esclarecer toda aquela confusão da noite anterior. Eu imploraria a ele para que me escutasse, se necessário, mesmo que depois ele me expulsasse da sua vida para sempre. Eu só precisava que ele ouvisse toda a verdade dos meus lábios.
Meus olhos ainda estavam fechados embora eu não tivesse conseguido dormir. Minha cabeça doía de forma enlouquecedora e meu corpo protestava pela tensão nos músculos resultante da noite insone. Ao fundo, eu podia ouvir os sons da casa me indicando que minha família já estava de pé. Mais cedo, meus pais haviam vindo em meu quarto, mas não falaram comigo pensando que eu ainda estivesse dormindo. Eu sabia que tinha que me levantar, mas ainda não tinha encontrado forças para enfrentar o mundo lá fora. O silêncio do meu quarto me parecia mais convidativo, me servia de redoma, agindo como um campo protetor, me isolando de tudo e de todos que pudessem me atingir.
Covarde. Era isso o que eu era. Covarde, por não ter contado tudo a Brian quando tive a chance. Covarde, por não ter tido a coragem de olhar em seu rosto e enfrentar o que quer que eu visse em seus olhos na noite anterior. Covarde, por não querer me levantar da cama e encarar as consequências da minha covardia.
A luz do dia preenchia o quarto quando eu finalmente tomei coragem de abrir os olhos e a realidade me atingiu com a força de um murro. Meu estômago protestou como se tivesse sido atingido com violência. Tudo doía. Ainda assim, eu precisava me levantar e, mesmo morrendo de medo, tentar fazê-lo me ouvir.
Nem mesmo a água quente do chuveiro tinha sido capaz de aliviar a tensão e a dor nos meus músculos. Meu corpo reagia dolorosamente a cada movimento meu. Parecia que eu tinha levado uma surra, daquelas que nos quebram por dentro sem deixar hematomas na pele. Mas mesmo a dor intensa no meu corpo não conseguia superar a que eu sentia na alma. Enquanto eu me trocava, os acontecimentos da noite anterior, aos poucos, iam se apossando da minha mente com detalhes mínimos e cruéis. A vontade de chorar voltava com força brutal e, embora eu soubesse que teria que me controlar, não sabia se seria capaz. Sentia-me fraca ... frágil ... vulnerável.
Apaguei a luz do closet depois de me trocar e, de volta ao meu quarto, encontrei Nikki sentada na minha cama a minha espera. Ela me observava enquanto em silêncio eu continuava a me arrumar sem coragem de olhá-la. Senti raiva de mim mesma por ser tão covarde. Como eu queria olhar nos olhos de Brian e lhe contar toda a verdade se eu não tinha coragem nem mesmo de encarar minha própria irmã?
_ Até quando você vai continuar fingindo que eu não estou aqui, Mel? – a voz carinhosa e suave de Nikki me tirou dos meus pensamentos. – Olhe para mim, minha irmã?
Sua voz não carregava nenhum tipo de reprovação. Eu só ouvia preocupação e carinho ali. Foi impossível não olhá-la com lágrimas nos olhos, o medo e a vergonha por toda aquela humilhação estampados em meu rosto. Nikki se levantou, caminhou rapidamente até mim e me abraçou protetoramente.
Chorei. Chorei como uma criança assustada enquanto ela acariciava meus cabelos e me abraçava ainda mais forte tentando me passar algum conforto. Nikki tinha uma personalidade forte e passava uma segurança incomum para alguém da nossa idade. Ela sabia perfeitamente o que queria e o que não queria para sua vida e, principalmente, sabia se fazer ouvir e respeitar. O fato é que sua presença em si já emanava a sua força. O fato é que ela sabia se impor, enquanto eu...
_ Não fique assim, Mel! Vai dar tudo certo! – minha irmã sussurrava docemente em meu ouvido tentando me confortar. – Brian ama você e vai saber entender o que aconteceu!
_ Você não pode me garantir isso, Nikki! – eu respondi chorosa – Você não viu como ele estava quando me deixou aqui ontem à noite. Ele nem mesmo falou comigo ou me olhou no rosto!
_ Quando nós chegamos ontem à noite ele estava parado dentro do carro em frente de casa, Mel! – ela disse me surpreendendo – Ele ficou um bom tempo conversando com o papai lá fora e pela aparência dele eu pude ver como ele estava mal com tudo o que aconteceu! Tenha um pouco de fé, minha irmã! Desça, tome o seu café e vá até ele. Eu tenho certeza de que ele vai ouvir o que você tem a dizer!
Eu não conseguia ouvir mais nada. Minha mente só conseguia processar a informação de que Brian tinha conversado com meu pai na noite passada. Custava-me acreditar que ele tinha ficado do lado de fora por mais de uma hora esperando meu pai chegar para contar a ele o que tinha acontecido. Será que agora ele me odiava tanto assim para querer me deixar em uma situação mais constrangedora ainda? Será que ele tinha contado ao meu pai sobre as calúnias que Mark havia jogado em cima de mim? O que meu pai estaria pensando ou sentindo agora?
_ Mel, você está tremendo! Está se sentindo mal? – minha irmã me perguntou com a voz assustada. – Deus do céu! Você está gelada, minha irmã! O que está acontecendo com você?
Eu não conseguia responder. O que eu diria a ela se eu nem mesma sabia o que estava acontecendo comigo?
_ Ele ... ele c-contou ao papai tudo o que aconteceu? – consegui perguntar com muito esforço.
_ Eu não sei sobre o que eles conversaram, Mel. Papai não me disse nada, mas provavelmente ele deve ter falado alguma coisa porque papai ficou muito assustado ao vê-lo em frente de casa sem você, ainda mais no estado em que ele estava... – ela disse me olhando com receio.
Fechei meus olhos sem conseguir impedir que as lágrimas descessem pelo meu rosto silenciosamente. Nikki voltou a me abraçar enquanto alisava meus cabelos na tentativa de me acalmar. Aos poucos, o choro foi cessando. Lavei meu rosto mais uma vez e juntas descemos para a mesa do café. Foi muito difícil sentar-me à mesa e encarar a minha família. Todos estavam em silêncio e eu podia perceber que me olhavam disfarçadamente, preocupados com a minha aparência.
_ Princesa! – meu pai me chamou – como você está se sentindo?
Era evidente a preocupação em seu tom de voz. Eu apenas sorri sem muita convicção tentando dizer que estava bem, mas obviamente ele percebeu a minha mentira e veio até mim, me abraçando.
_ Não fique assim, fofinha! Tome o seu café e vá falar com o seu noivo. Eu tenho certeza de que vocês vão se entender! – ele disse carinhosamente.
Eu apenas assenti. Não tinha certeza de que a minha voz sairia firme se eu tentasse dizer alguma coisa. Tomei apenas um suco e, com um enorme esforço, comi uma maçã. Meu estômago não conseguiria suportar mais do que isso. Meus pais me olhavam atentamente e eu podia ver nitidamente a preocupação estampada em seus rostos. Levantei-me da mesa com as pernas bambas sabendo que era chegado o momento. Minha insegurança fazia com que o caminho até a casa ao lado me parecesse interminável. A porta da frente da casa de Brian nunca me pareceu tão gigantesca. Ou era eu que me sentia pequena?
Meu coração batia cada vez mais acelerado na medida em que eu subia os degraus que me levariam ao quarto de Brian. O olhar triste e angustiado de Linda ao me receber na porta da frente havia me deixado ainda mais insegura quanto ao desfecho daquela conversa, mas eu precisava ir até o fim, mesmo que esse fim não fosse o que eu esperava.
Parei ofegante e trêmula em frente à porta do quarto de Brian. Do outro lado daquela porta, estaria ou a minha felicidade ou a minha ruína total. Minhas mãos suavam ao girar a maçaneta que me daria acesso ao interior do quarto. Brian estava deitado de costas para a porta vestindo apenas uma calça de moletom. O peito forte estava nu e movia-se lentamente com sua respiração. Ele parecia dormir. Entrei silenciosamente, dando a volta em sua cama com medo de acordá-lo. Sentei-me na poltrona ao lado da enorme cama e, relutante, o encarei.
Seu rosto estava abatido como se tivesse chorado a noite toda. Seus olhos estavam fundos e exibiam duas olheiras escuras. Embora ainda dormisse, sua expressão sofrida deixava claro que o sono não era tranquilo. Fiquei ali, velando seu sono e admirando os traços finos e perfeitos de seu rosto que, mesmo com o cansaço aparente, estava ainda mais lindo. O simples fato de estar no mesmo ambiente que ele aquecia meu coração, mas o medo de ver o desprezo em seus olhos me deixava paralisada. Eu só conseguia olhá-lo, sem coragem de me aproximar, embora sentisse um desejo imenso de tocá-lo, de acariciá-lo.
Brian dormia como um anjo, as mãos unidas sob o travesseiro como se estivesse fazendo uma oração. Minha vontade de tocá-lo, de sentir o calor da sua pele finalmente conseguiu superar o meu medo e eu me aproximei cuidadosamente para acariciar o seu rosto. Ajoelhei-me ao lado da sua cama, meu rosto bem próximo ao seu. Uma de minhas mãos se aproximava ainda trêmula de seu rosto quando o brilho do sol refletiu em um objeto sobre o criado-mudo chamando a minha atenção.
Meu coração bateu dolorido no peito ao reconhecer a aliança de Brian abandonada sobre o móvel. Recuei minha mão como se o contato com a sua pele fosse me queimar. Minha respiração estava suspensa e meus pulmões já imploravam por oxigênio, mas eu já não me lembrava como se respirava.
Meus olhos estavam presos naquele pequeno objeto que agora brilhava intensamente diante de mim. Sua imagem, de repente, começou a ficar embaçada por causa das lágrimas que já se acumulavam em meus olhos. Inspirei o ar com força e fechei meus olhos tentando controlar aquela sensação horrível que oprimia meu peito. Meu corpo todo agora tremia enquanto eu tentava me levantar do chão, mas minhas pernas teimavam em fraquejar.
Minha cabeça girava com mil pensamentos ruins. Brian não me queria mais. Ele havia acreditado nas mentiras de Mark, sua aliança largada sobre o criado-mudo esfregava em minha cara que o rótulo de vadia havia ficado preso em mim. Doía pensar que ele tivesse acreditado em Mark sem que ao menos eu tivesse a chance de me defender, de me explicar. Doía pensar que eu não o teria mais ao meu lado, que eu não sentiria mais o calor do seu abraço, que eu não teria mais o privilégio de sentir a maciez e o sabor maravilhoso dos seus beijos. Eu me odiava agora. Me odiava por não ter seguido os conselhos de Sofia e contado logo a verdade sobre Mark. Me odiava por ter sido covarde e ter saído correndo do carro e por não ter tentado me explicar ainda na noite anterior. Eu merecia o que estava acontecendo comigo. Eu merecia ficar sozinha. Eu não merecia Brian. Ele merecia alguém melhor. Merecia ter uma mulher que fosse forte e madura o suficiente para enfrentar a tudo e a todos para tê-lo ao seu lado.
Olhei mais uma vez para a aliança sobre o móvel. Baixei meus olhos e olhei para a aliança na minha mão direita. Eu não conseguiria tirá-la dali. Nunca. Mesmo que aquele fosse o fim, aquela aliança estaria para sempre em minha mão. Ela era parte de mim e eu a levaria embora como a doce recordação de um sonho que quase se realizou.
Meus olhos pousaram uma última vez sobre o rosto perfeito de Brian registrando cada um daqueles traços que ficariam gravados para sempre em minha memória. Eu falaria com meu pai e partiria ainda naquela manhã para Hanover e ficaria em um alojamento de Dartmouth até que o apartamento que ele havia providenciado ficasse pronto. Iria mais cedo para a faculdade e deixaria Brian viver sua vida em paz. Daria a ele a chance de encontrar alguém que realmente o merecesse e de ser feliz. Eu sabia que, mesmo que eu me afastasse e ficasse sem vê-lo, minha angústia nunca diminuiria. Eu só esperava que, um dia, ele ao menos conseguisse me perdoar.
