Narrado por Melinda
Eu sentia o meu corpo pesado em uma estranha sensação de paralisia. Meus músculos travados não me permitiam mover sobre a cama. A boca seca e a garganta arranhada davam a impressão de que eu estava ali havia dias, sem me alimentar, sem beber nada, sem me mover.
As primeiras luzes do dia atravessavam timidamente a janela do quarto, anunciando a chegada de mais uma manhã. Aos poucos, o torpor começou a ceder espaço para a consciência. E foi, então, que veio a dor. Aquela velha sensação de ter o peito esmagado, o medo de sair daquele quarto e ouvir a notícia que talvez fosse acabar com a minha vida. Eu não me lembrava de muita coisa depois que o tio Edward tinha saído em busca de Brian. Lembrava-me apenas de chorar abraçada a tia Bella e de meus pais me dando algo para beber. Depois, tudo não passava de imagens nubladas e confusas, como naqueles sonhos dos quais não nos lembramos ao acordar.
Sonhos. Pela primeira vez em muito tempo, eu havia tido uma noite sem sonhos. O pesadelo que me perseguia havia tantas semanas tinha se transformado em pó diante do tormento que eu tinha vivido no dia anterior, mas apesar disso, eu me sentia terrivelmente cansada. Levantei-me da cama com dificuldade. Meu corpo insistia em não me obedecer. Tonta, caminhei até o banheiro me apoiando nos móveis e nas paredes. Entrei sob a ducha quente, depois de escovar os dentes, esperando que a água relaxasse o meu corpo. Lenta e gradualmente, meus músculos foram se soltando embora a tontura não tivesse me abandonado. Eu precisava me alimentar.
Desci as escadas em direção à sala de jantar depois de me vestir. Eu precisava falar com meus pais, precisava ter notícias de Brian, saber como ele estava, ainda que o medo da resposta me paralisasse. Eu já podia ouvir as vozes sussurradas dos meus pais vindo da mesa de jantar embora não pudesse compreender o que diziam. Aparentemente, o que eles diziam não deveria ser ouvido por mais ninguém. Parei na sala de estar, pensando se deveria entrar ou não e interromper a conversa que me parecia séria demais, mas o que ouvi a seguir mudou os rumos dos meus pensamentos.
_ Qual é o real estado de saúde dele? – meu pai perguntava aos sussurros.
_ Gravíssimo. – minha mãe respondeu depois de um longo período em silêncio.
_ Quem te deu essa informação? – a voz de meu pai soou estranha.
_ Edward passou a noite no hospital com Brian e quando eu liguei para saber notícias ele me contou. – minha mãe respondeu.
_ Ele tem alguma chance de sobrevivência? – meu pai voltou a perguntar.
_ Ele é jovem e forte, mas os ferimentos foram graves demais. Se ele sobreviver, o que eu duvido muito, as seqüelas poderão ser graves.
Nenhum dos dois disse mais nada. Naquele momento, eu senti todo o meu sangue fugir do meu rosto enquanto o meu coração disparava descontrolado em meu peito. Meu corpo tremia intensamente enquanto a minha mente era sugada para o vácuo. Lutei contra a paralisia do meu corpo durante o que me pareceu uma eternidade. Senti minha visão escurecer e minhas pernas já ameaçavam falhar. Apoiei-me no sofá da sala sentindo um peso tão grande no peito que quase me impedia de respirar. Só conseguia pensar em Brian. Se eu o perdesse, morreria com ele. Uma vida sem ele não seria exatamente uma vida, portanto não valeria a pena. Respirei fundo tentando recobrar o controle do meu corpo. Aos poucos, comecei a sentir as minhas pernas mais firmes. Levantei-me do sofá e caminhei em direção à sala de jantar, mas parei de repente ao ouvir a voz do meu pai:
_ Você acha que nós devemos contar a Mel sobre a gravidade do estado dele?
_ Eu preferiria deixá-la longe de tudo isso. Ela já tem agüentado muita coisa nas últimas semanas. – a voz preocupada de minha mãe soou baixinho – Não vai ser fácil esconder isso dela.
Um soluço magoado escapou de minha garganta antes que eu pudesse evitar. Por mais que eu compreendesse a necessidade dos meus pais de me proteger eu não podia acreditar que eles me esconderiam uma coisa dessas. Corri de volta ao meu quarto, meu estômago se contorcendo de forma dolorosa. A bile já queimava a minha garganta quando me ajoelhei diante do vaso sanitário. Embora não houvesse nada em meu estômago para ser colocado para fora, ele insistia em se contrair com força, me tirando todo o ar. Um suor gelado escorria em meu rosto e eu já podia ver pequenos pontos de luz piscando diante dos meus olhos e sabia que estava a um passo de desmaiar. Com muito custo, consegui me levantar e lavar a boca e o rosto. Olhei-me no espelho e a imagem que vi refletida me assustou. A mulher que me encarava de volta tinha uma aparência horrível. Pele pálida. Lábios sem cor. Profundas manchas escuras sob os olhos inchados de chorar. Feições distorcidas em uma expressão de dor. Ela sofria com medo de perder o homem que amava.
A imagem daquela mulher me fez sair do torpor em que eu havia mergulhado. Eu precisava sair de casa. Precisava vê-lo a qualquer custo e não deixaria que ninguém me impedisse de ir até o hospital. De volta ao meu quarto, peguei minha bolsa e saí para o corredor. Nikki, que saía do seu quarto naquele momento, parou assustada por me ver daquele jeito.
_ Mel, o que foi? Por que você está assim? – ela perguntou se aproximando de mim.
_ Você também vai esconder a verdade de mim? – perguntei com a voz embargada.
_ Que verdade? Do que você está falando? - ela me olhava confusa.
Não adiantava insistir. Ela também não iria me dizer a verdade. Meus olhos mais uma vez se encheram de lágrimas.
_ Mel, fique calma. Eu vou chamar o papai e a mamãe. Vamos conversar, está bem? – ela disse se dirigindo na direção do quarto dos nossos pais.
Eu não podia mais ficar ali. Ela iria contar a eles o que eu pretendia fazer e eles não me deixariam sair. Desci as escadas depressa, quase caindo ao tropeçar nos degraus. Abri a porta da frente correndo em direção à garagem. Minhas mãos tremiam tanto que ficava difícil encaixar a chave da ignição. Travei as portas ao ver meu pai correndo em direção ao carro. Ele batia nos vidros e tentava abrir a porta à força. Eu podia ouvir a sua voz, mas já não era capaz de entender o que ele dizia. Arranquei em alta velocidade rumo ao hospital. Meus olhos ardiam, maltratados pelas lágrimas que não paravam de rolar pelo meu rosto. Meu peito parecia ter sido esmagado e meu coração batia com tanta força que chegava a doer.
Não sei como consegui chegar ao estacionamento do hospital sem causar um acidente. Minhas lágrimas não me deixavam enxergar quase nada à minha frente. Desci do carro com dificuldade. A tontura forte aliada aos músculos praticamente travados do meu corpo quase me jogaram ao chão. Encostei-me na lateral do carro respirando profundamente. Eu estava quase lá, não podia fracassar, não naquele momento. Depois de alguns minutos, minhas pernas pareciam ter tomado vida própria me fazendo andar apressada pelos corredores do hospital. Na emergência, a velha senhora da recepção me olhou preocupada quando parei diante dela.
_ Melinda, você está se sentindo mal? – ela se aproximou de mim com os braços estendidos como se fosse me amparar.
_ Brian. Onde ele está? Por favor, eu preciso vê-lo! – pedi com a voz trêmula.
_ Ele está no quarto 2011, filha! Mas por que você está assim? – ela perguntou enquanto eu disparava em direção ao quarto de Brian.
Várias pessoas me olhavam espantadas em meu caminho até ele. Parei diante da porta, ofegante ... apavorada. Minhas mãos trêmulas mal tinham força para girar a maçaneta, mas eu não podia ficar ali parada sem saber como ele estava. Não sei de onde tirei coragem para abrir aquela porta e dar de cara com a cama .... vazia. Não havia ninguém ali. Não havia sequer um indício de alguém estivera ali. Nenhuma bolsa ... nenhum pedaço de papel ... nada. O colchão sem lençóis e sem travesseiro pintava a imagem agourenta de que ele não voltaria para aquele quarto. Um desespero enorme tomava conta de mim. Eu não sabia o que havia acontecido com ele ou tinha medo de admitir para mim mesma que o pior... Não. Eu não podia nem pensar em uma coisa daquelas. Ele não podia fazer aquilo comigo, não podia me deixar sozinha aqui, sem ele. Não era justo. A dor em meu peito agora atingia um nível insuportável. Deitei-me na cama fria, sem vida. Se Brian não estivesse comigo, não me restava mais nada a não ser chorar e esperar que a morte me levasse para junto dele.
Narrado por Brian
A única coisa que me dava certeza de ainda estar vivo era aquela dor insuportável nas costas. Parecia impossível que eu tivesse escapado da morte diante da violência daquela batida. No calor do momento, eu não havia atentado para a grande besteira que estava fazendo. Tudo o que eu queria era pegar aquele desgraçado para que ele nunca mais se aproximasse de nós. Agora, com a cabeça no lugar, eu me recriminava por ter feito as coisas da forma como fiz. O olhar cansado e triste do meu pai ao sair do quarto me fez sentir uma culpa enorme. De repente, comecei a pensar em todos na minha família. Minha mãe deveria ter ficado desesperada ao saber o que eu estava fazendo. O rosto assustado e molhado pelas lágrimas de Sofia me atormentava. Eu só esperava não ter causado nenhum mal a ela e ao bebê.
Meus pensamentos, então, se voltaram para ela. Mel. Sua ausência no quarto quando acordei pela manhã me dizia que ela deveria estar furiosa comigo. Eu não tirava a sua razão. Se ela tivesse feito o que eu fizera, certamente eu estaria mais do que furioso. Estaria totalmente histérico, querendo gritar e bater em tudo e em todos à minha frente. Eu só podia esperar que ela quisesse me ouvir quando eu a procurasse. Eu pediria desculpas, com certeza. Rastejaria aos seus pés, se necessário. Eu só não poderia ficar longe dela por mais tempo. Seria insuportável.
A enfermeira já tinha passado em meu quarto e recolhido tudo assim que tive alta. Eu só precisava tomar um banho antes de sair e ir para casa de vez. Meu pai ainda não tinha voltado, talvez estivesse visitando algum paciente enquanto me esperava. A água quente do chuveiro trazia um pouco de alívio para as minhas costas doloridas enquanto eu permanecia imóvel sob o jato abundante.
Abri a porta do banheiro depois de me vestir e a visão da mulher deitada sob o leito do hospital fez meu coração se aquecer. Mel estava quietinha, de costas para mim, me esperando sair do banho. Senti um enorme alívio por saber que ela não estava com raiva pelo que eu tinha feito, mas esse alívio foi imediatamente substituído pela preocupação ao perceber seu corpo ser sacudido por um leve soluço. Mel estava chorando.
Corri até ela, sentindo minhas costas protestarem pelo esforço extra, mas nada mais me importava. Deitei-me na cama abraçando o seu corpo por trás, sentindo o perfume que exalava da sua pele penetrar minhas narinas, infiltrando-se em minha corrente sanguínea e levando vida para cada célula do meu corpo.
_ Hey, amor? Está chorando por quê? – sussurrei com lábios colados em seu ouvido enquanto apertava o seu corpo contra o meu.
Mel suspendeu a respiração de repente e virou o rosto em minha direção, seus lindos olhos azuis arregalados como se ela não esperasse me encontrar ali. Ela não dizia nada, apenas olhava o meu rosto como se tentasse decorar cada pedaço dele. Sua mão tocou levemente a minha pele, provocando uma sensação deliciosa em todo o meu corpo. Fechei os olhos apreciando o carinho enquanto Mel desenhava os traços do meu rosto com as pontas dos dedos delicados. Sua voz baixinha me trouxe de volta à realidade.
_ Você está aqui! – ela disse com um sorriso lindo nos lábios. – Por um momento eu pensei que estivesse enlouquecendo, que você fosse uma ilusão!
_ Por que você pensou isso? – perguntei confuso enquanto acariciava o seu rosto ainda molhado pelas lágrimas.
_ Eu ouvi uma conversa dos meus pais em que eles falavam de alguém que estava em estado grave, que tinha poucas chances de sobrevivência. Eles estavam combinando de me esconder a verdade e eu achei .... – as lágrimas voltaram com força e ela não conseguiu continuar, mas eu já sabia o que ela tinha pensado.
_ Amor, não chore! Está tudo bem, eu estou aqui com você! – eu tentava enxugar o seu rosto, mas novas lágrimas substituíam as outras.
_ Eu tive tanto medo! – ela dizia entre soluços.
_ Shh ... Já passou, docinho! Está tudo bem agora! Se acalme... shh....! – eu dizia baixinho enquanto ela se virava de frente para mim e me abraçava forte, repousando a cabeça em meu peito.
Meus braços a envolveram em um abraço apertado, colando ainda mais os nossos corpos, enquanto minhas mãos acariciavam os seus cabelos. Deixei que ela chorasse, que extravasasse aquela angústia que ela tinha sentido. Ela precisava colocar aquilo tudo para fora e eu não podia fazer nada além de ampará-la. Fechei os olhos e esperei que ela se acalmasse.
Algum tempo depois, senti o seu olhar novamente em meu rosto. Abri os olhos e encarei o seu rostinho cansado. Ela não disse nada. Apenas ergueu o rosto em minha direção e, de repente, meus lábios estavam ocupados demais para que qualquer palavra fosse pronunciada. Sentir o seu gosto novamente foi como recuperar o fôlego depois de uma eternidade debaixo d’água. Meu sangue circulava novamente ligeiro por minhas veias, levando o oxigênio que alimentava cada célula do meu corpo. Sentir o calor do corpo de Mel colado ao meu me fez querer não sair mais daquele quarto. Eu queria permanecer junto dela, na nossa bolha, onde nada nem ninguém poderia nos atingir, onde tudo o que realmente importava éramos nós dois.
Narrado por Melinda
Eu me encontrei novamente ao sentir o sabor do beijo de Brian. O calor do seu corpo me fortalecia. A suavidade do toque dos seus dedos na minha pele me enchia de amor. Seus lábios movendo-se em harmonia com os meus me davam coragem de enfrentar o mundo. De repente, me dei conta de que eu estava completamente curada. O medo de perdê-lo tinha superado milhares de vezes o medo que eu sentira de Mark. E esse medo não existia mais. Mark não era mais uma ameaça para mim e eu sabia que seria até mesmo capaz de enfrentá-lo para garantir que Brian jamais saísse da minha vida. O seu lugar era ao meu lado, com o seu corpo colado ao meu, com os seus lábios acariciando gentilmente os meus e com suas mãos percorrendo a minha pele me causando arrepios de desejo. Quanto a mim, eu não tinha dúvidas de que meu coração, meu corpo e minha alma pertenciam àquele homem e de que o que eu mais queria era ficar para sempre em sua vida ... em seus braços.
