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Juiz de Fora, Minas Gerais, Brazil
Apesar de ser mestre em Linguística e ter toda a minha vida acadêmica voltada para o ensino de línguas, sempre fui amante da literatura, devoradora de livros, filmes e séries. Sempre tive um sonho: escrever. Durante muito tempo, o medo de fracassar me impediu de realizar esse sonho, mas uma grande amiga me incentivou e me deu a coragem de enfrentar meus fantasmas e graças a ela eu hoje posso dizer que me sinto uma pessoa melhor, mais confiante e absolutamente ciente do meu potencial.

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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Capítulo XXIV – Seguindo o exemplo



                                    
Narrado por Melinda

35 dias, 15 horas e 02 minutos. Meu cérebro registrava cada segundo que se passara desde aquele dia medonho. Eu passava os meus dias em casa, trancada, com medo de sair e dar de cara com ele. Os momentos de horror ainda eram vívidos em minha memória e os pesadelos não me davam trégua. Meu corpo estava cansado, minha mente estava cansada, minha alma estava cansada. Por mais que eu tentasse esconder o meu sofrimento, eu sabia que a minha família sofria por minha causa ... por minha culpa. Isso me matava por dentro.
O sorriso de menino sapeca, sempre presente no rosto do meu pai, havia desaparecido. Minha mãe chorava escondida pelos cantos da casa. Nikki, sempre falante e alegre, agora vivia calada. Apenas Anna e Valentina seguiam o ritmo normal de suas vidas, talvez por não saberem o que realmente havia acontecido.
Brian. Ultimamente ele vinha se tornando motivo de preocupação. Por mais que ele tentasse se fazer de forte, eu sabia que ele estava chegando ao seu limite. Por mais que me doesse admitir, ficar comigo e estar ao meu lado estava fazendo mal a ele. Ele havia perdido peso e seu rosto mostrava abatimento embora ele sorrisse para mim o tempo todo. Eu percebia que ele não dormia mais à noite, velando o meu sono, tentando prever o momento em que o meu pesadelo começaria para me acordar. Eu precisava fazer alguma coisa para mudar aquela situação, mas ainda não conseguia encontrar uma saída.
O sol iluminava o jardim da minha casa, aquecendo levemente a minha pele. A sensação era boa. Eu finalmente tinha tomado coragem de pisar do lado de fora de casa depois de todo aquele tempo. Mesmo que aquilo parecesse um ato banal, para mim, tinha sido um passo importante porque, embora o medo e a insegurança ainda me fizessem olhar para trás a todo o momento, depois de muitas tentativas frustradas eu havia conseguido sair sozinha. O psicólogo tinha dito que qualquer pequeno progresso deveria ser visto como uma grande vitória. Não sei se eu concordava com ele. Eu não me sentia vitoriosa naquele momento, mas quem sou eu para duvidar de alguém que tinha uma parede coberta de diplomas e certificados?
Meus pensamentos foram interrompidos pelo som de passos atrás de mim. Por um breve momento, pensei que o pânico fosse me dominar, mas ao me virar, meu coração se aquietou em meu peito. Era ele. Meu porto seguro que caminhava em minha direção com aquele sorriso arrebatador que me fazia prender a respiração. Era impressionante como, mesmo estando abatido, ele ainda conseguia emanar força e segurança. A cada dia, o meu amor por ele crescia ainda mais, se expandindo e tomando cada célula do meu corpo. Sua presença constante em minha vida era o que me dava coragem de lutar. Eu queria ser uma pessoa melhor, mais forte, mais independente. Queria ser merecedora de ter ao meu lado um homem como aquele que naquele exato momento se sentava atrás de mim e me envolvia em seus braços com tanto amor e carinho.
_ Como você está se sentindo? – sua voz soou rouca em meus ouvidos enquanto seus lábios acariciavam a pele do meu pescoço.
_ Hum ...melhor agora do que há dois minutos atrás! – respondi de olhos fechados, apreciando o carinho.
Brian tocou suavemente a pele do meu rosto, virando-o para si e seus lábios, de repente, cobriram os meus com extrema delicadeza em um beijo leve, sereno, carinhoso e deliciosamente longo. Sua língua invadiu docemente minha boca e, quando tocou a minha língua, eu senti como se todas as células do meu corpo tivessem se renovado instantaneamente.  Seu coração, colado em minhas costas, batia com tanta força que eu podia senti-lo em minha pele, mesmo através das camadas de roupas que nos separavam. Quando o ar nos faltou, ele finalizou o beijo depositando vários selinhos demorados em meus lábios. Suspirei recostando a cabeça em seu ombro enquanto seus dedos acariciavam meus cabelos da raiz até as pontas. Virei meu rosto em direção ao seu pescoço e seu cheiro delicioso invadiu as minhas narinas, trazendo-me uma enorme sensação de paz e segurança. Estávamos em silêncio havia alguns minutos, apenas apreciando a companhia um do outro, quando o som de passos atrás de nós chamou a nossa atenção.
Um enorme sorriso tomou conta do meu rosto. Sofia se aproximava de nós, segurando o braço de Seth que caminhava ao seu lado. Ela estava radiante. A gravidez, embora ainda não fosse evidente, a deixava mais bonita, com um brilho especial. Enquanto eles caminhavam em nossa direção, eu observava a felicidade que os envolvia. Seth ajudou Sofia a se sentar ao meu lado e ela imediatamente buscou a minha mão com a sua com um sorriso permanente em seus lábios.
_ Já que você me abandonou, eu vim visitá-la! – ela brincou.
_ Me desculpe, Sofia! Eu não tive a intenção de abandoná-la. Eu... – tentei dizer, mas ela me interrompeu.
_ Eu sei que não, Mel! Eu sei que não está sendo fácil para você deixar para trás o que aconteceu! Acredite em mim, eu entendo você. Mas eu estava sentindo muito a sua falta e também estava preocupada com você. – ela disse sorrindo me deixando um pouco constrangida.
_ Eu também estava com saudades de você, Sofia! Mas agora que você está aqui, eu quero que você me conte como você está! – pedi tentando espantar o constrangimento.
Sofia abriu ainda mais o sorriso e começou a me contar sobre a gravidez e sobre a sua visão que já começava a dar os primeiros sinais de recuperação. Depois do episódio dos clarões, aos poucos, sua visão estava começando a dar os primeiros sinais de um retorno mais permanente. Embora ainda não enxergasse, ela conseguia distinguir o que ela mesma chamou de “vulto na sombra”. A lesão no cérebro havia diminuído consideravelmente e a escuridão total já não existia mais. Eu observava o seu relato e me sentia orgulhosa da força que ela emanava. Por outro lado, a forma como ela reagia a toda aquela situação me deixava envergonhada do meu comportamento. Enquanto Sofia encarava suas dificuldades com otimismo e perseverança, eu havia me entregado ao medo e à autopiedade.
Eu sabia que a recuperação de um tombo não era uma tarefa das mais fáceis, sem trocadilhos. Não era todo mundo que conseguia “levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima” com tanta destreza. Muitas vezes, quando caímos, por qualquer motivo que seja, tendemos a ficar estatelados no chão sem saber direito como levantar e seguir adiante. Esse tinha sido o meu caso. Mas existem algumas pessoas, como Sofia, que conseguem tirar de letra as dificuldades e passar pelos problemas numa boa. Mesmo quando tudo parece conspirar negativamente, elas estampam um sorriso no rosto e seguem em frente. Mesmo que coisas horríveis aconteçam a elas, elas estão sempre bem, obrigado! Pessoas como minha prima parecem ser naturalmente mais preparadas para lidar com as adversidades. E parecem fazer isso com os pés nas costas.
Eu estava intrigada em descobrir o que levava pessoas como ela a enfrentar tão bem esses contratempos que a vida tratava de lhes impor e, sejamos francos, a vida realmente impõe contratempos a todo mundo, não tem jeito. A princípio, parecia que ela era dotada de uma invulnerabilidade inata, algo como um verdadeiro dom com o qual ela teria nascido e que não deixava que ela se abalasse com os infortúnios da vida. Porém, Sofia não era invulnerável. Sua visão prejudicada era uma prova cabal disso. A diferença entre nós era que ela tinha sido capaz de reagir positivamente aos problemas, de ser mais resistente a eles, o que não significava que ela sairia da crise ilesa, como seria de se esperar de alguém invulnerável.
Passei, então, a buscar outro conceito mais exato que pudesse definir esse comportamento e tomei emprestado da física um termo que tinha tudo a ver com ela: resiliência. Por mais estranha que a palavra pudesse parecer, ela era usada na física para indicar a capacidade que um material tende a retornar ao seu estado original após sofrer uma grande pressão. Bingo! Tal qual um tapete felpudo que, após ser pisoteado, volta a apresentar suas fibras intactas, como se nenhum passo tivesse sido dado sobre ele, o resiliente consegue emergir mais forte de experiências desastrosas. Encara as adversidades como oportunidade de mostrar e aprimorar sua competência, seu entusiasmo, e encontra soluções criativas e determinadas para se levantar do chão.
Mesmo que algumas pessoas nasçam mais aptas que outras a aceitar as adversidades, todo ser humano tem um grau de resiliência, por menor que seja. Mas isso não nos impede de nos tornarmos pessoas mais capazes de superar os problemas com maior facilidade. Seguindo o exemplo de Sofia, eu lutaria para aprimorar a minha resiliência. Eu podia fazer isso. Eu tinha essa capacidade. Eu iria me esforçar mais. Eu merecia essa chance. Minha família merecia esse esforço. Brian merecia ter ao seu lado uma mulher inteira, alguém que andasse ao seu lado e não alguém que ele tivesse que carregar nas costas.
Eu estava ciente de que os problemas nem sempre poderiam ser resolvidos com um raciocínio lógico ou com um sorriso no rosto. Eu teria que inovar, buscar caminhos que exigissem criatividade e até mesmo tratar o assunto com mais seriedade. Ser lógica e bem humorada não seria a solução definitiva para o meu problema. Eu teria que buscar uma postura diferente, teria que ter em mente que, vez ou outra, eu teria que desencanar e agir com impulsividade em certos contextos. Em outros, eu deveria ser mais racional e ponderada. “A verdade é que temos a impressão de que nossas capacidades - todas elas - desaparecem quando surge uma situação não prevista, turbulenta, ameaçadora. E é assim com todo mundo, acredite. Mas, após o furacão passar, é preciso reagir e colocar a casa em ordem.” Sofia havia me respondido quando lhe perguntei como ela conseguia encarar as dificuldades de forma tão natural, otimista e perseverante. “Claro que você tem o direito de sofrer, chorar, ficar reclusa. Ninguém tem sangue de barata e essas são formas válidas de extravasar as emoções negativas. O que não pode acontecer é você ficar escrava delas!”, ela completara sabiamente.
Sofia estava certa. Todas as pessoas se aborrecem e perdem o equilíbrio em uma situação de adversidade. Mas a minha atitude havia se tornado uma forma especial de tornar os problemas mais graves ao longo do tempo. Eu precisava mudar e não iria desistir. Eu iria me fortalecer e continuar no jogo e, no final, eu sairia vitoriosa. Agora, com a poeira mais baixa, eu conseguiria me centrar e decidir o que fazer. A primeira coisa a fazer era parar de me lamuriar pelos meus problemas e evitar, a todo custo, me enxergar como vítima das circunstâncias, porque, quando nos portamos como vítimas, nos excluímos do problema e não temos poder para superá-lo ou transformá-lo. E eu não fecharia as portas para a superação. Procuraria me conhecer mais, porque só assim eu saberia quais seriam as armas que eu teria para enfrentar uma determinada situação e até onde poderia e conseguiria ir, sem ceder. Eu confiaria mais em mim mesma. Não permitiria que ninguém me dissesse que eu não era capaz de fazer alguma coisa. Melhor ainda, eu não me permitiria pensar que eu não seria capaz de fazer o que eu quisesse. Percebi, de repente, que todos me viam como uma pessoa frágil e insegura porque, durante toda a minha vida, eu permiti que elas me vissem dessa forma, afinal as pessoas só vêem o que nós queremos que elas vejam. E eu mudaria a minha imagem diante dos outros e, principalmente, diante de mim. O meu reflexo no espelho nunca mais seria o de uma menina assustada e desprotegida. Daquele momento em diante, ele me mostraria o retrato de uma mulher forte e decidida.
Sofia e eu conversamos por horas, sentadas no jardim da minha casa. Seth e Brian tinham saído para nos dar privacidade voltando apenas na hora do almoço para nos buscar. Almoçamos todos juntos em minha casa. Minha conversa com Sofia ainda ecoava em meus ouvidos enquanto eu refletia sobre a minha mudança de atitude. Talvez por isso eu tenha permanecido calada durante boa parte do almoço sem perceber os olhares curiosos e preocupados de todos sobre mim.
_ Tudo bem, docinho? – a voz sussurrada de Brian me trouxe de volta à realidade.
Olhei para ele e percebi seu olhar ansioso sobre mim. Seus dedos acariciavam delicadamente as costas da minha mão.
_ Não! Não está nada bem, bebê! – respondi causando um silêncio mortal em torno da mesa de jantar.
Encarei, um a um, todas as pessoas à minha volta antes de voltar a falar.
_ Eu preciso pedir desculpas a todos vocês pelo meu comportamento durante o mês que se passou. – eu disse constrangida - Eu sei que tenho sido motivo de preocupação e angústia para todos. Acreditem em mim! Eu não queria que vocês sofressem por minha culpa, mas eu confesso que ... andei perdida ... sem saber o que fazer. Mas hoje, depois de conversar com a Sofia, eu percebi que a minha postura não estava fazendo nada a meu favor e, então, eu decidi que ... que eu preciso mudar.
_ Você não precisa nos pedir desculpas, filha! – meu pai respondeu – Nós todos amamos você e se você estiver sofrendo nós sofreremos junto, mas isso não é culpa sua! Não se sinta culpada por nada!
Os olhares de todos à mesa confirmavam as palavras de meu pai. Meu coração se sentia um pouco mais aliviado, sabendo que eles não me responsabilizavam pela angústia que eu havia causado a todos. Senti a mão de Brian apertando levemente a minha, me passando força e segurança. Meu olhar pousou sobre o seu rosto sereno e não pude deixar de sorrir ao ver a forma como ele me olhava.
_ Eu amo você! – eu disse baixinho enquanto todos retomavam a conversa antes interrompida.
_ Eu amo você! – ele repetiu as minhas palavras aproximando o rosto do meu para beijar suavemente os meus lábios.
 Depois do almoço, Seth levou Sofia de volta para casa para que ela pudesse descansar. Embora ela estivesse bem, minha mãe tinha aconselhado que ela descansasse pelo menos por duas horas durante a tarde, para que as dores de cabeça não voltassem. Meus pais já tinham voltado para o trabalho, Anna e Valentina tinham ido para o ballet e Nikki, sabendo que Brian me fazia companhia, tinha saído com Ashley.
Minha cabeça repousava no peito de Brian que acariciava delicadamente o meu rosto com a ponta dos dedos. Meu ouvido, colado ao seu coração, ouvia suas batidas regulares e compassadas. Estávamos deitados no sofá da sala assistindo a um filme quando uma ideia me veio à mente. Seria uma boa forma de começar a enfrentar os meus medos e inseguranças, mas eu estava ciente de que não conseguiria fazê-lo sozinha, mesmo porque eu sabia que Brian não permitiria que eu assim o fizesse. Ergui a minha cabeça, apoiando o queixo sobre o seu peito para olhá-lo diretamente. Seus olhos imediatamente me encararam e ele sorriu.
_ O que foi, amor? Está precisando de alguma coisa? – ele perguntou colocando uma mecha de cabelo atrás da minha orelha.
_ Estou. Você me ajuda? – perguntei acariciando seu rosto.
_ Você sabe que sim. Eu faço qualquer coisa que você me pedir! – ele disse fechando os olhos, apreciando o carinho.
_ Eu preciso que você me leve ao shopping. Eu ainda não comprei o meu vestido para o casamento de Sofia e não quero mais perder o meu tempo dentro ficando presa dentro de casa. – eu disse com uma coragem que nem eu mesma sabia que tinha.
Tive a satisfação de ver os olhos de Brian se abrir arregalados de espanto. Sua expressão rapidamente mudou de surpresa para orgulho e felicidade na medida em que ele se dava conta do que aquilo significava. Ele sabia que, para mim, seria muito difícil voltar ao lugar onde todo o meu tormento tinha começado e aquele enorme sorriso que atravessava o seu rosto me dizia que ele estava contente por ver que eu estava dando o primeiro passo para uma vida normal e feliz.




“A nossa maior glória não reside no fato de nunca cairmos, mas sim em levantarmo-nos sempre depois de cada queda.” (Confúcio)







quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Capítulo XXIII - Emoções



                                    
Narrado por Seth

        Meus olhos jamais se cansariam de admirar o anjo que estava diante de mim. Os cabelos longos e sedosos espalhados aleatoriamente sobre o travesseiro emolduravam o seu rosto sereno e perfeito. Os lábios que eu tanto amava beijar traziam um leve sorriso me dando a certeza de que ela estava tendo um sonho bom.   O corpo perfeito, ainda sem sinais evidentes da gravidez, descansava sobre o colchão macio, sua respiração tranqüila me trazendo uma enorme sensação de paz. Apesar de tudo, Sofia estava bem.
        Por vezes, eu a sentia ansiosa, por outras, angustiada com o fato de sua visão ainda não ter melhorado. No entanto, bastava falar sobre o nosso filho que seus olhos se iluminavam imediatamente e um sorriso que me tirava o fôlego atravessava o seu rosto. Eu a observava dormir, encostado ao batente da porta do seu quarto. Morria de pena de ter que acordá-la, mas estava ansioso como nunca para a nossa primeira consulta pré-natal. Não via a hora de ouvir o coraçãozinho do nosso bebê batendo acelerado e forte, de vê-lo através da ultrassonografia, mesmo que fosse através daquela tela toda chuviscada. Estava louco para ouvir Rose dizer que ele estava bem, se desenvolvendo normalmente e que nasceria saudável apesar da agressão e da queda que Sofia sofrera há quase um mês.
        Caminhei silenciosamente até a sua cama sem desviar os olhos do seu rosto. Abaixei-me cuidadosamente, deitando ao seu lado, colando o seu corpo no meu e beijei demoradamente os seus lábios. Ainda de olhos fechados, ela sorriu com os lábios unidos aos meus.
        _ Oi, princesa! – sussurrei acariciando seu rosto – Descansou bastante?
        _ Uhum! – ela respondeu com a voz preguiçosa se aninhando ainda mais em meus braços – Que horas são?
        _ Hora de você começar a se arrumar para a consulta no médico, amor! – respondi baixinho em seu ouvido, meus dedos delineando os traços delicados do seu rosto.
        Ela soltou um longo suspiro e me abraçou mais forte, ajeitando sua cabeça em meu peito, sem dar a impressão de que iria se levantar.
        _ O que foi, princesa? Ainda está cansada? – perguntei começando a me preocupar.
        _ Não! – ela respondeu manhosa – Mas está tão bom aqui que eu não quero me levantar!
        _ Nem mesmo para ouvir o coração do nosso filhote?  - provoquei sabendo que ela não resistiria.
        O mesmo sorriso enorme que atravessava o seu rosto todas as vezes que eu falava do nosso filho estava ali novamente. Seus olhos azuis se abriram ainda mais brilhantes e ela se apertou ainda mais contra mim, suspirando tranquila.
        _ Por vocês dois, eu faço qualquer coisa! – ela respondeu acariciando o meu rosto com os dedos delicados.
Beijei sua testa e a apertei ainda mais contra o meu corpo. Ficamos mais alguns minutos ali, curtindo um ao outro, até que ela decidiu se levantar. A cada dia, eu me orgulhava ainda mais da forma como ela estava enfrentando toda aquela situação. Dia após dia, Sofia dependia menos da ajuda de outras pessoas. Mesmo ciente de que sempre estaríamos todos ali, a postos, para ajudá-la no que fosse necessário, ela procurava fazer quase tudo sozinha. Apenas nas coisas mais arriscadas, como descer escadas e sair à rua, ela se sentia insegura. De qualquer forma, por mais que ela estivesse se tornando independente, sempre havia alguém próximo para o caso de algo sair errado. Procurávamos dar o máximo de espaço possível a ela, para que ela não se sentisse “um peso em nossas vidas.” Absurda! Tive vontade de dar-lhe umas palmadas quando ela disse aquilo. Como ela poderia pensar em uma coisa insana daquelas?
 As pessoas não podem simplesmente deixar de viver a vida delas para cuidar de mim o tempo todo, amor!” – foi a resposta que ela me deu. Por mais que ela jamais fosse ficar sozinha, ela estava certa até certo ponto. Mas deixar que ela pensasse que seria um peso nas nossas vidas era algo inconcebível na minha cabeça. Nunca! Eu abandonaria tudo para ficar com ela se ela precisasse de mim.
Durante todo o trajeto para o hospital, Sofia manteve um lindo sorriso nos lábios. Conversávamos sobre o nosso filho, falávamos da ansiedade de tê-lo logo nos braços, de poder tocá-lo, de vê-lo crescer saudável e feliz, de dar a ele o amor que já transbordava em nós.
Parei o carro próximo à entrada principal do hospital, desci e abri a porta para Sofia que, imediatamente, pegou a minha mão para sair. Ela estava tão linda que eu não resisti. Assim que ela ficou de pé, eu a imprensei contra a lateral do carro, minhas mãos se apossando da sua cintura, e a beijei. Ela correspondeu com o mesmo entusiasmo, me enlouquecendo quando seus dedos se embrenharam em meus cabelos, me puxando para mais perto dela. Ela sabia que eu adorava quando ela fazia aquilo. Eu parecia um adolescente com os hormônios descontrolados quando meu corpo ficava colado ao dela daquela forma. Com muito esforço, separei os nossos lábios, colando as nossas testas. Ela mantinha seus olhos fechados e sorria lindamente, enquanto tentava regularizar a respiração ofegante.
_ Pronta? – perguntei quebrando o silêncio gostoso entre nós.
Ela sorriu, mordendo o lábio inferior e assentiu. Dei-lhe um último selinho e entramos no hospital. Pelos corredores, os médicos e enfermeiros nos cumprimentavam e nos felicitavam pelo bebê.  Na sala de espera do consultório médico, algumas gestantes folheavam revistas especializadas em bebês. Sofia estava quietinha, sentada ao meu lado com os dedos entrelaçados aos meus. Meus olhos vasculharam toda a sala captando tudo ao nosso redor: as cores suaves das paredes decoradas com pequenos desenhos infantis, as fotos de várias crianças coladas em um mural, provavelmente as crianças que vieram ao mundo pelas mãos de Rose, as várias gestantes com suas barrigas de diversos tamanhos... Peguei-me imaginando Sofia com a barriga redondinha crescendo ainda mais dia após dia. Ficaria ainda mais linda do que já era. Imaginei como seria a emoção de sentir o nosso filho se mover dentro dela e chutá-la todas as vezes em que eu falasse com ele ou tocasse o seu ventre.
_ Amor? – a voz suave e baixinha de Sofia me tirou dos meus pensamentos.
_ Oi, princesa? – respondi olhando em seu rosto de anjo.
_ Está tudo bem? – ela perguntou.
_ Está sim, princesa! Por que a pergunta? – perguntei confuso.
Ela não me respondeu. Apenas sorriu e pousou a sua mão sobre a minha que estava sobre o seu ventre. Só então me dei conta de que, na minha ansiedade, eu a havia colocado ali e talvez estivesse apertando o seu ventre com força.
_ Desculpe, princesa! Eu a machuquei? – perguntei preocupado.
_ Não, amor! Está tudo bem! Eu só te senti um pouco ansioso, foi só isso! – ela respondeu serena.
A porta do consultório se abriu e depois que a paciente saiu, Rose chegou até nós e pegou carinhosamente as mãos de Sofia.
_ Vamos ver como está este bebezinho lindo aqui? – ela sussurrou para nós.
Entramos no consultório e Rose ajudou Sofia a se sentar em uma cadeira diante da sua mesa.
_ Como você tem se sentido, Sofia? – ela perguntou já sentada em sua mesa.
_ Estou bem, tia. – ela respondeu simplesmente, sua mão procurando a minha.
_ Não tem sentido enjôos, tonturas, nada? – Rose insistiu.
_ Não. Eu nunca senti nada disso. – Sofia respondeu.
_ Alguma cólica? – Rose continuou o interrogatório.
_ Não. Nada. Eu só tenho me sentido um pouco cansada demais! Tenho dormido além da conta também. – Sofia admitiu mordendo ansiosamente o lábio inferior.
_ Esse cansaço que você sente, é um cansaço físico ou é só sonolência mesmo? – Rose perguntou com o cenho franzido. Aquilo me deixou preocupado.
 _ Eu não sinto como se o meu corpo estivesse cansado. É só muito sono. Quanto mais eu durmo, mais sono eu tenho. – ela respondeu constrangida.
Alívio. O semblante de Rose se suavizou imediatamente.
_ Sono em excesso é normal durante a gravidez, Sofia! Principalmente nos primeiros meses. Não se preocupe com isso. O excesso de hormônios circulando em seu corpo e o metabolismo que se torna mais lento com a gravidez causam essa sonolência em você. Além disso, você ainda está se recuperando da pancada na cabeça e sentir um pouco de cansaço é normal. – Rose nos tranquilizou.
Rose aferiu a pressão arterial de Sofia, escutou o seu coração e pulmões e fez uma série de verificações para se certificar de que ela estava bem. Ajudei Sofia a se despir e colocar uma espécie de avental. Deitada em uma maca, Sofia apertava ansiosamente a minha mão. Ela estava nervosa, talvez com medo de que sua queda pudesse ter deixado alguma seqüela em nosso filho também. Confesso que essa ideia já tinha passado por minha cabeça, mas eu a expulsara com a mesma rapidez com que ela tinha chegado.
Rose ligou o monitor e espalhou um gel sobre o ventre de Sofia que pulou de susto ao sentir-lhe a temperatura fria. Uma imagem borrada aparecia no aparelho enquanto Rose explorava o ventre de Sofia com o sensor do ultrassom.  Meus olhos não se desgrudavam da tela. Eu não queria perder um segundo sequer do universo do meu filho e acho que nem mesmo piscava os olhos com medo de deixar escapar qualquer detalhe.
Sofia estava entrando na nona semana de gravidez e meu filho já era uma pessoinha de 20mm com um coração forte e acelerado. Assustei-me ao perceber a velocidade com que o seu pequeno coração batia. No início, achei que algo estivesse errado. Afinal, como um coração tão pequenino podia bater tão rápido assim? Passado o susto inicial, eu não pude deixar de me emocionar com aquele som. Chorei como um bebezão e não senti a menor vergonha disso. Nosso bebê estava ali, forte, saudável e amado. A gravidez de Sofia corria normalmente e não tínhamos motivos de preocupação em conseqüência do que havia acontecido um mês antes. Sofia ouvia o som dos batimentos cardíacos do nosso bebê com os olhos fechados. Lágrimas de felicidade rolavam pelos cantos dos seus olhos e o meu sorriso favorito estava presente em seu rosto delicado. Ela estava feliz ... eu estava mais feliz ainda. Saber que o nosso bebê estava bem e ver a felicidade no rosto da minha princesa era motivo suficiente para que eu explodisse de satisfação.
Depois de ajudar Sofia a se trocar, voltei a me sentar com ela no consultório de Rose que prescrevia as vitaminas que ela deveria tomar. Sofia aguardava sorridente, sentada ao meu lado, os dedos da sua mão entrelaçados aos meus. Tudo corria tranquilamente, mas ao nos levantarmos para sair do consultório, o corpo de Sofia se retesou de repente e ela arfou assustada com alguma coisa.
_ O que foi, amor? Você está sentindo alguma coisa? – perguntei preocupado ao vê-la com a respiração acelerada.
Sofia não conseguia me responder. Ela piscava os olhos freneticamente, fechando-os com força às vezes como se algo a incomodasse. Suas mãos trêmulas seguravam os meus braços enquanto ela tentava recuperar a fala.
_ Amor, fala comigo, por favor? – eu pedi desesperado – Me diz o que você tem?
_ Um ... um clarão! – ela disse com a voz embargada – Eu vi um clarão!
Rose imediatamente pegou o telefone, pedindo para que Jasper fosse até o seu consultório e me fez deitar Sofia de volta na maca. Em poucos minutos, a sala de Rose estava cheia de gente: Jasper, Edward, Bella e tio Jacob tinham corrido para lá. Em um canto da sala, eu observava calado enquanto Jasper examinava Sofia.
_ Seth? – ela me chamou ansiosa.
Corri em sua direção, envolvendo a sua mão estendida com a minha.
_ Aqui, princesa! – respondi beijando as costas da sua mão.
Sofia esquadrinhou o meu rosto com os dedos, tentando saber, através da minha expressão, como eu estava. Peguei sua mão beijando-lhe a palma e a coloquei em meu peito, na altura do meu coração que batia assustadoramente forte e acelerado. A expectativa era enorme. Aquele clarão poderia significar que a sua visão estava voltando ao normal, mas eu não podia dar a ela falsas esperanças. Preferia esperar até que Jasper dissesse alguma coisa.
Um enfermeiro entrou na sala trazendo uma cadeira de rodas. Jasper levaria Sofia para a sala de tomografia para verificar se a lesão havia diminuído. Eu seguia pelos corredores ao seu lado, minha mão segurando a sua. Nada nem ninguém me impediriam de estar ao lado da minha mulher e do meu filho naquele momento. Sofia precisava de mim. Meu filho precisava de mim. E eu precisava dos dois como meus pulmões precisavam de oxigênio. Eu precisava dos dois para viver e era ao lado deles que eu estaria. Para sempre.

Narrado por Sofia
       
        Tinha sido apenas um clarão. No início, eu não havia entendido o que tinha acontecido. Foi como um relâmpago forte iluminando uma noite escura, sem lua. Durou apenas um segundo e, logo depois, a escuridão me envolveu novamente. No entanto, o breve momento em que meus olhos se iluminaram foi o suficiente para me deixar trêmula. Ansiedade. O que estava acontecendo comigo? Esperança. Aquele clarão poderia significar que a minha visão estava voltando. Medo. E se não fosse nada disso? Eu não podia ter falsas esperanças, não podia deixar Seth acreditar nisso antes de ter certeza. Chamei o seu nome. Eu precisava saber o que ele estava sentindo. Tentei sentir através do seu rosto, mas foi o seu coração batendo forte e acelerado sob a minha mão que me deu a certeza de que ele estava se sentindo como eu me sentia naquele momento.
        No caminho para a sala de tomografia, o clarão voltou mais duas vezes. Por um breve segundo, eu pude distinguir figuras humanas ao meu redor. Embora não pudesse saber de quem se tratavam, era bom saber que elas estavam ali. A mão de Seth, envolvendo a minha, me dava segurança. Eu sabia que ele estaria ao meu lado, não importava o que viesse a acontecer.
A cadeira de rodas parou de repente. Senti mãos macias e carinhosas envolvendo o meu corpo, me erguendo dali.
_ Eu vou colocá-la sobre a maca do aparelho de tomografia, amor. – a voz sussurrada de Seth acariciou os meus ouvidos.
Levei minhas mãos ao seu rosto quando ele me depositou gentilmente sobre uma superfície macia. Senti meu rosto sendo acariciado. A sensação era maravilhosa. Os dedos de Seth tocaram uma mecha dos meus cabelos colocando-a atrás da minha orelha antes que meus lábios fossem suavemente beijados. Fechei os olhos apreciando o carinho, mas meu coração saltou no peito quando voltei a abri-los e eu arfei. Um novo clarão havia me proporcionado, mesmo que brevemente, a visão mais linda do mundo. Por um mero segundo, eu pude ver os olhos brilhantes de Seth cravados em mim. Nem mesmo a escuridão que veio a seguir poderia apagar aquela imagem da minha cabeça.
_ O que foi, amor? – a voz ansiosa de Seth chegou aos meus ouvidos.
Eu sorria e chorava ao mesmo tempo. Por mais que ele estivesse sempre ao meu lado, eu morria de saudades de ver o seu rosto e, de repente, a vida havia me presenteado com aquele momento tão lindo. Ainda que a minha visão nunca mais voltasse, aquele breve vislumbre do rosto glorioso do homem da minha vida já teria valido a pena.
_ Eu vi você! Eu vi o seu rosto, Seth! – consegui dizer entre lágrimas.
_ Ah, meu Deus! Obrigado! – ele sussurrou emocionado, me abraçando com força.
Ficamos ali, chorando juntos por incontáveis minutos até que tio Jasper me pediu que eu me deitasse para que ele pudesse fazer o exame.
_ Eu vou estar logo ali atrás do vidro, princesa! – Seth me prometeu apertando levemente a minha mão antes de sair.
_ Sofia, eu preciso que você fique totalmente imóvel enquanto o aparelho estiver escaneando o seu cérebro, está bem? – a voz do tio Jasper saiu alta e clara em uma caixa de som.
_ Ok. – respondi ansiosa, tentando ficar quieta.
        De olhos fechados, eu ouvia o som do aparelho vasculhando o meu cérebro e pedia a Deus para que aqueles clarões fossem um sinal de cura. Mesmo não querendo alimentar falsas esperanças, ei não consegui fazer o meu coração não bater mais devagar. Embora meus olhos ainda estivessem na escuridão, eu estava feliz. Meu bebê estava bem e seguro em meu ventre, o amor da minha vida estava ao meu lado e o futuro voltava a sorrir para mim.  
         


terça-feira, 4 de outubro de 2011

Capítulo XXII – Pânico


                                    
Narrador por Mel

  Minha cabeça estava confusa. A última coisa de que eu me lembrava era do rosto sombrio de Mark que se debruçava sobre mim, em meu quarto, levando um pano umedecido em um líquido com cheiro forte ao meu rosto. Depois disso, tudo escureceu. Eu não sabia como ele tinha conseguido entrar em minha casa sem ser visto, mas de alguma forma ele conseguiu me tirar de lá. Meu coração disparou descontrolado em meu peito quando acordei e vi que estava presa em um quarto escuro. Uma pequena vela acesa em um canto distante do cômodo úmido não produzia luz o suficiente para que eu pudesse identificar o lugar onde estava. O cheiro forte de mofo irritava as minhas narinas e o colchão gelado sob mim causava arrepios por todo o meu corpo. Eu tentava forçar os meus olhos a definir alguma forma dentro daquele lugar, mas a escuridão era assustadora. Minhas mãos tateavam as paredes grosseiras em busca de uma saída, mas tudo o que eu consegui encontrar foi uma porta trancada, não havia janelas naquele lugar pavoroso. Eu estava morta de medo. Mark devia estar com ódio de mim por ter colocado a polícia em seu encalço. Eu tinha certeza de que ele queria vingança e não se contentaria em me matar simplesmente. Ele iria se certificar de que eu sofresse bastante antes de acabar comigo de vez.
Eu não sabia há quanto tempo estava presa ali. Eu não sabia se era dia ou se era noite. Não havia um único feixe de luz entrando por baixo da porta. A sensação de desorientação era atordoante. Tudo o que eu conseguia perceber era o som de diversas goteiras pingando insistentemente por todos os lados. Onde eu estava, afinal?
Depois do que pareceu uma eternidade, comecei a ouvir passos pesados se aproximando cada vez mais do lado de fora da porta. Meu corpo inteiro tremia de frio e de medo na medida em que o barulho dos passos ficava mais alto. De repente, o silêncio. Um brilho fraco de luz surgiu por baixo da porta pelo lado de fora e o barulho de chaves destrancando a porta fez o meu coração gelar. Ela rangeu de forma agourenta antes de revelar a imagem de Mark diante de mim. Encolhi-me apavorada em um canto do cômodo ao ver o sorriso doentio estampado no rosto de Mark. Ele passou pela porta com uma bandeja e um pequeno lampião nas mãos. Caminhou lentamente até a pequena mesa onde queimava a vela, depositando o que parecia ser a minha refeição sobre ela e virando-se em minha direção logo em seguida. Senti suas mãos agarrando meu braço com brutalidade, me levantando e me jogando sobre uma cadeira próxima à mesa.
_ Coma! – ele ordenou com a voz transtornada.
Sobre a mesa havia um prato com algum alimento que não consegui distinguir. Parecia uma espécie de mingau. A aparência era nojenta e meu estômago se revirou quando olhei aquilo.
_ JÁ MANDEI COMER! – ele gritou empurrando-me pelas costas contra a mesa.
Trêmula, peguei a colher ao lado do prato e a mergulhei na papa asquerosa, o gosto amargo me embrulhando o estômago. Cuspi aquilo depressa sentindo minhas entranhas se contorcerem, e meu rosto ardeu pelo forte tapa que recebi. O gosto de sangue imediatamente inundou a minha boca.
_ Escute aqui, sua ordinária! Você vai comer tudo quietinha, sem reclamar. Se você cuspir ou vomitar a comida, pode ter a certeza de que eu vou fazer coisa muito pior do que te obrigar a comer isso. Estamos entendidos? – ele ameaçou puxando os meus cabelos de forma dolorosa. – ESTAMOS ENTENDIDOS? – ele tornou a gritar diante do meu silêncio.
Assenti sem conseguir evitar um gemido de dor. Mark soltou os meus cabelos, empurrando a minha cabeça com força. Prendi a respiração e coloquei mais uma colherada daquela gosma nojenta em minha boca, engolindo depressa antes que o gosto horrível batesse sobre a minha língua. Quanto mais cedo eu acabasse com aquilo, mais rápido ele poderia ir embora, assim eu esperava. Mas antes de chegar ao final, comecei a sentir um leve torpor. Meus olhos começaram a perder o foco, meu corpo sentia dificuldade em responder aos meus comandos. De repente, me dei conta de que o gosto amargo da comida poderia ser de algum entorpecente. Mark havia me drogado. Eu lutava para permanecer consciente, eu precisava tentar escapar ou ele faria o que quisesse com o meu corpo depois que eu desmaiasse.
Meus braços foram envolvidos em um aperto forte e meu corpo foi erguido da cadeira e colocado novamente sobre o colchão gelado. Senti mãos rudes subindo pela minha perna em direção à minha virilha. Fechei as pernas com força tentando bloquear o acesso indesejado. Pensei em Brian. Por ele, eu tinha que lutar. Meus olhos percorreram o quarto, agora iluminado pelo lampião, até encontrarem uma garrafa vazia jogada em um canto próximo à minha cabeça. Ela seria a minha única chance. Mark não me olhava nos olhos. Seus olhos devoravam famintos cada parte do meu corpo que suas mãos, aos poucos, descobriam. Ergui o braço lentamente tateando o chão em busca da garrafa, meus olhos cravados no rosto de Mark. Fechei os olhos e golpeei sua cabeça com toda a minha força. O corpo de Mark caiu de lado, o sangue jorrando de seu supercílio direito onde a garrafa tinha se partido. Ele não havia desmaiado com a pancada, mas estava visivelmente atordoado. Levantei-me depressa, agarrando o lampião e ganhei a porta do quarto, correndo como louca.
Eu corria desorientada por túneis escuros. Meus pés descalços doíam, perfurados pelas pedras e objetos pontiagudos e cortantes espalhados pelo chão. As paredes irregulares construídas com pedras brutas e ásperas arranhavam os meus braços na medida em que eu tentava escapar. Eu não sabia onde estava. Eu só sabia que tinha que correr, que tinha que ir para longe daquele lugar. Minha vida dependia do quanto eu aguentaria correr. Eu precisava manter a calma, tentar controlar o meu pânico, mas os gritos atrás de mim faziam a adrenalina correr descontrolada pelo meu corpo. A voz enfurecida de Mark ecoava pelos túneis fazendo ameaças. Eu sabia que ele estava me perseguindo, eu sentia a sua aproximação. No final de mais um túnel daquele labirinto interminável, eu pude perceber uma saída iluminada pela luz do dia. Corri naquela direção e meus olhos arderam ao serem atingidos pela claridade. Diante de mim, se estendia uma mata densa. Desorientada, comecei a correr em qualquer direção. Eu não tinha nada que me orientasse, não sabia se estava me embrenhando ainda mais fundo naquela mata ou se corria em direção a alguma estrada. Tudo o que eu via eram árvores e mais árvores passando por mim na medida em que eu corria. Os galhos mais baixos açoitavam os meus braços e as minhas pernas e filetes de sangue surgiam nos pequenos cortes. Depois de correr pelo que me pareceram horas, minhas pernas já não me obedeciam mais. Meus pés cortados deixavam atrás de mim um rastro de sangue e a droga que Mark havia me dado começava a surtir efeito. Eu precisava eliminar aquilo do meu organismo. Agachei-me atrás de um arbusto e enfiei o dedo na garganta, colocando para fora o que eu tinha comido. Eu rezava para que o efeito da droga diminuísse e que eu pudesse recuperar o controle do meu corpo. Entorpecida, arrastei-me até um tronco oco de uma árvore e me escondi lá dentro até que pudesse voltar a correr. Eu lutava para manter os meus olhos abertos, mas eles ficavam cada vez mais pesados até que finalmente se fecharam, me levando para o inconsciente.
Acordei assustada, sentindo o corpo dolorido. Arrastei-me para fora do tronco sentindo todas as minhas articulações protestarem. O dia claro já não existia mais. Eu estava novamente no escuro e a única fonte de luz que me permitia enxergar alguma coisa vinha da lua cheia, cujos raios atravessavam com dificuldade as copas das árvores gigantescas. Eu não sabia que direção tomar. Eu temia começar a andar no escuro e acabar me aproximando do meu cativeiro novamente. A mata estava praticamente silenciosa o que lhe conferia um aspecto extremamente sombrio. Andei por muito tempo sem rumo, quando, ao longe, comecei a ouvir um barulho diferente. Algo que não combinava com os ruídos da natureza. Fiquei imóvel tentando identificar o que eram aqueles ruídos e de que direção eles viriam. Carros. Deus do céu! Eram carros! Eu estava perto de alguma estrada. Comecei a correr desesperadamente em direção aos ruídos que ficavam cada vez mais altos. Depois de algum tempo, eu já conseguia ver à distância as luzes dos faróis iluminando a estrada. Disparei naquela direção, a dor e o cansaço completamente esquecidos. Há dois metros da estrada, um vulto negro se colocou entre mim e a minha esperança de liberdade. Percebi desesperada que todos os meus esforços tinham sido em vão.   Mark estava ali, sorrindo doentiamente, de braços abertos como se me desse as boas vindas. Em seus olhos, eu podia ver a intensidade do ódio que ele sentia. Meu coração perdeu uma batida ao vê-lo saltar sobre mim como um predador experiente, seus braços envolvendo fortemente a minha cintura. Eu gritava e me debatia tentando chamar a atenção dos motoristas, mas o barulho intenso do tráfego abafava o meu desespero. Braços fortes me apertavam em um abraço de aço, me detendo ... me restringindo ... me imobilizando. Eu via, derrotada, a estrada se distanciar novamente de mim, o som dos motores dos automóveis ficando cada vez mais distantes, enquanto Mark me arrastava mais uma vez para a escuridão.

Narrado por Brian

Desespero. Eu sentia o mais absoluto desespero tomando cada célula do meu corpo. Já não sabia mais o que fazer. Nada do que eu fizesse parecia adiantar e saber que ela estava mais uma vez passando por aquele pesadelo fazia eu me sentir um inútil. Eu não conseguia ajudá-la, eu não conseguia tirá-la de lá. Na medida em que os dias passavam, o meu desespero aumentava ainda mais.
Duas semanas. Duas semanas já tinham se passado desde que Mark a sequestrara e, quando a noite chegava, o pânico era sempre o mesmo. Eu tinha medo de perdê-la, tinha medo que ela se perdesse e eu não pudesse fazer nada para resgatá-la. Mel se debatia e gritava em meus braços enquanto eu a abraçava com toda a minha força tentando trazê-la de volta à realidade. Ela estava mais uma vez presa naquele pesadelo que a perseguia desde que voltara para casa. Ainda me lembro da primeira noite, quando Nikki entrou em meu quarto aos prantos, me pedindo para que fosse até a sua casa porque Mel gritava o meu nome desesperada. Meu coração sempre se apertava ao me lembrar da expressão do seu rosto devastado pelo terror no momento em que entrei em seu quarto. Eu nunca a tinha visto tão trêmula e tão indefesa em toda a minha vida. Ela se agarrava ao corpo do pai chorando descontroladamente enquanto dizia o meu nome sem parar. Corri em sua direção e praticamente a arranquei de seus braços para que ela me sentisse ao seu lado. Ainda levou incontáveis minutos até que ela realmente se acalmasse e voltasse a dormir. Porém, a cada noite, o mesmo pesadelo voltava a assombrá-la e ela gritava e se debatia em meus braços, exatamente como fazia agora.
_ Shhh...amor! Eu estou aqui! – eu tentava acordá-la, mas fracassava mais uma vez.
Meus braços a apertavam em um abraço sufocante tentando impedi-la de se debater e se machucar. Mel finalmente abriu os olhos e me encarou para, em seguida, me agarrar com força e chorar convulsivamente em meus braços. 
_ Eu não aguento mais isso! Não aguento mais ... – ela repetia entre soluços.
_ Está tudo bem agora, amor! Foi só um sonho ruim! Você está segura aqui! – eu a embalava tentando acalmá-la.
A luz do quarto, de repente, se acendeu e tio Emmett e tia Rose entraram assustados com os gritos da filha. Tia Rose chorava silenciosamente nos braços do meu tio que tentava controlar a angústia que sentia pelo estado de Mel.
_ Ele vai voltar ... eu sei que ele vai voltar ... – ela ainda chorava.
_ Ele não tem como chegar perto de você de novo, Mel! Nós não vamos deixar! Por favor, amor, tente se acalmar! – eu pedia aflito.
Ódio. Todo esse pânico tinha se intensificado por causa daquele cretino. No dia em que Mel voltara para casa, Mark tinha mandado um buquê de rosas vermelhas para ela com um cartão que dizia: “Não se pode fugir do destino. E eu sou o seu destino.” Mel teve uma crise nervosa ao ler o cartão e só então todos perceberam que as rosas não tinham sido enviadas por mim. Fui tomado pelo mais profundo ódio ao chegar à sua casa e vê-la naquele estado. Naquela noite, ela teve o primeiro do que viria a ser uma sequência interminável de pesadelos. Enquanto aquele animal estivesse livre, ela não conseguiria relaxar. Enquanto ele estivesse vivo, esses pesadelos a assombrariam tirando-lhe, aos poucos, a sanidade e a vontade de viver.
A polícia já tinha feito buscas por todas as áreas de Edmonds sem conseguir encontrá-lo. Mel ficava tão insegura por saber que ele ainda andava à solta por aí que eu praticamente me mudei para a sua casa a pedido do tio Emmett. Nunca irei me esquecer do seu rosto contorcido pela dor ao me pedir para dormir no quarto de Mel. Quando acordava dos pesadelos, ela só conseguia se acalmar quando me sentia junto dela.
Nikki entrou no quarto trazendo água para a irmã. Mel mal conseguia segurar o copo, suas mãos tremiam intensamente. Ajudei-a a levar o copo aos lábios e ela tomou o líquido em goles grandes como se a garganta estivesse extremamente ressecada. Devolveu o copo à irmã e voltou a me abraçar ainda trêmula, repousando a sua cabeça em meu peito. Meus braços a envolveram delicadamente, minhas mãos seguindo para os seus cabelos. Aos poucos, ela foi se acalmando e a família foi se retirando do quarto, nos deixando sozinhos.
_ Pode voltar a dormir, amor! Eu vou ficar aqui com você, eu prometo! – voltei a me deitar na cama trazendo o seu corpo comigo.
_ Eu não quero dormir! – ela disse com a voz triste – Sempre que eu fecho os olhos, eu vejo o rosto dele na minha frente, vejo o ódio nos olhos dele e vejo aquele sorriso doentio estampado na cara dele. Se eu pudesse, eu nunca mais voltaria a dormir!
Abracei mais forte o seu corpo, me sentindo impotente. Em seus sonhos eu não podia defendê-la. Ali era o único lugar em que ela estava completamente sozinha e desprotegida, ali eu não podia entrar e isso me matava por dentro. Eu queria que ela se sentisse segura, mas como eu poderia evitar que aqueles pesadelos a assombrassem? Mesmo agora, tendo o seu corpo envolvido em meus braços, eu sabia que ela não se sentia em segurança. Por mais que ela soubesse que eu seria capaz de dar a minha vida para salvar a sua, eu sentia o seu medo. Era quase palpável. Eu precisava fazer alguma coisa para trazer a paz e a tranquilidade de volta à vida de Mel e a única coisa que me vinha à mente era caçar aquele animal. Mas eu não podia deixá-la. Ela precisava de mim e eu não sairia do seu lado por nenhum motivo desse mundo. Eu tinha que confiar na polícia e ficar ao lado de Mel tentando passar-lhe força e segurança.
Mel fechou os olhos, vencida pelo cansaço, e pousou sua mão sobre o meu peito, na altura do meu coração. Ele batia forte, batia movido pelo amor e pela vontade que eu tinha de fazê-la feliz. Com um suspiro tranquilo, ela se entregou à inconsciência, seu corpo totalmente relaxado colado ao meu. Afaguei-lhe os cabelos e beijei-lhe suavemente os lábios. Eu não dormiria mais naquela noite, ficaria acordado, velando o seu sono, lutando contra os fantasmas que insistiam em persegui-la. E no que dependesse de mim, eles jamais se aproximariam dela novamente.