Narrado por Melinda
35 dias, 15 horas e 02 minutos. Meu cérebro registrava cada segundo que se passara desde aquele dia medonho. Eu passava os meus dias em casa, trancada, com medo de sair e dar de cara com ele. Os momentos de horror ainda eram vívidos em minha memória e os pesadelos não me davam trégua. Meu corpo estava cansado, minha mente estava cansada, minha alma estava cansada. Por mais que eu tentasse esconder o meu sofrimento, eu sabia que a minha família sofria por minha causa ... por minha culpa. Isso me matava por dentro.
O sorriso de menino sapeca, sempre presente no rosto do meu pai, havia desaparecido. Minha mãe chorava escondida pelos cantos da casa. Nikki, sempre falante e alegre, agora vivia calada. Apenas Anna e Valentina seguiam o ritmo normal de suas vidas, talvez por não saberem o que realmente havia acontecido.
Brian. Ultimamente ele vinha se tornando motivo de preocupação. Por mais que ele tentasse se fazer de forte, eu sabia que ele estava chegando ao seu limite. Por mais que me doesse admitir, ficar comigo e estar ao meu lado estava fazendo mal a ele. Ele havia perdido peso e seu rosto mostrava abatimento embora ele sorrisse para mim o tempo todo. Eu percebia que ele não dormia mais à noite, velando o meu sono, tentando prever o momento em que o meu pesadelo começaria para me acordar. Eu precisava fazer alguma coisa para mudar aquela situação, mas ainda não conseguia encontrar uma saída.
O sol iluminava o jardim da minha casa, aquecendo levemente a minha pele. A sensação era boa. Eu finalmente tinha tomado coragem de pisar do lado de fora de casa depois de todo aquele tempo. Mesmo que aquilo parecesse um ato banal, para mim, tinha sido um passo importante porque, embora o medo e a insegurança ainda me fizessem olhar para trás a todo o momento, depois de muitas tentativas frustradas eu havia conseguido sair sozinha. O psicólogo tinha dito que qualquer pequeno progresso deveria ser visto como uma grande vitória. Não sei se eu concordava com ele. Eu não me sentia vitoriosa naquele momento, mas quem sou eu para duvidar de alguém que tinha uma parede coberta de diplomas e certificados?
Meus pensamentos foram interrompidos pelo som de passos atrás de mim. Por um breve momento, pensei que o pânico fosse me dominar, mas ao me virar, meu coração se aquietou em meu peito. Era ele. Meu porto seguro que caminhava em minha direção com aquele sorriso arrebatador que me fazia prender a respiração. Era impressionante como, mesmo estando abatido, ele ainda conseguia emanar força e segurança. A cada dia, o meu amor por ele crescia ainda mais, se expandindo e tomando cada célula do meu corpo. Sua presença constante em minha vida era o que me dava coragem de lutar. Eu queria ser uma pessoa melhor, mais forte, mais independente. Queria ser merecedora de ter ao meu lado um homem como aquele que naquele exato momento se sentava atrás de mim e me envolvia em seus braços com tanto amor e carinho.
_ Como você está se sentindo? – sua voz soou rouca em meus ouvidos enquanto seus lábios acariciavam a pele do meu pescoço.
_ Hum ...melhor agora do que há dois minutos atrás! – respondi de olhos fechados, apreciando o carinho.
Brian tocou suavemente a pele do meu rosto, virando-o para si e seus lábios, de repente, cobriram os meus com extrema delicadeza em um beijo leve, sereno, carinhoso e deliciosamente longo. Sua língua invadiu docemente minha boca e, quando tocou a minha língua, eu senti como se todas as células do meu corpo tivessem se renovado instantaneamente. Seu coração, colado em minhas costas, batia com tanta força que eu podia senti-lo em minha pele, mesmo através das camadas de roupas que nos separavam. Quando o ar nos faltou, ele finalizou o beijo depositando vários selinhos demorados em meus lábios. Suspirei recostando a cabeça em seu ombro enquanto seus dedos acariciavam meus cabelos da raiz até as pontas. Virei meu rosto em direção ao seu pescoço e seu cheiro delicioso invadiu as minhas narinas, trazendo-me uma enorme sensação de paz e segurança. Estávamos em silêncio havia alguns minutos, apenas apreciando a companhia um do outro, quando o som de passos atrás de nós chamou a nossa atenção.
Um enorme sorriso tomou conta do meu rosto. Sofia se aproximava de nós, segurando o braço de Seth que caminhava ao seu lado. Ela estava radiante. A gravidez, embora ainda não fosse evidente, a deixava mais bonita, com um brilho especial. Enquanto eles caminhavam em nossa direção, eu observava a felicidade que os envolvia. Seth ajudou Sofia a se sentar ao meu lado e ela imediatamente buscou a minha mão com a sua com um sorriso permanente em seus lábios.
_ Já que você me abandonou, eu vim visitá-la! – ela brincou.
_ Me desculpe, Sofia! Eu não tive a intenção de abandoná-la. Eu... – tentei dizer, mas ela me interrompeu.
_ Eu sei que não, Mel! Eu sei que não está sendo fácil para você deixar para trás o que aconteceu! Acredite em mim, eu entendo você. Mas eu estava sentindo muito a sua falta e também estava preocupada com você. – ela disse sorrindo me deixando um pouco constrangida.
_ Eu também estava com saudades de você, Sofia! Mas agora que você está aqui, eu quero que você me conte como você está! – pedi tentando espantar o constrangimento.
Sofia abriu ainda mais o sorriso e começou a me contar sobre a gravidez e sobre a sua visão que já começava a dar os primeiros sinais de recuperação. Depois do episódio dos clarões, aos poucos, sua visão estava começando a dar os primeiros sinais de um retorno mais permanente. Embora ainda não enxergasse, ela conseguia distinguir o que ela mesma chamou de “vulto na sombra”. A lesão no cérebro havia diminuído consideravelmente e a escuridão total já não existia mais. Eu observava o seu relato e me sentia orgulhosa da força que ela emanava. Por outro lado, a forma como ela reagia a toda aquela situação me deixava envergonhada do meu comportamento. Enquanto Sofia encarava suas dificuldades com otimismo e perseverança, eu havia me entregado ao medo e à autopiedade.
Eu sabia que a recuperação de um tombo não era uma tarefa das mais fáceis, sem trocadilhos. Não era todo mundo que conseguia “levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima” com tanta destreza. Muitas vezes, quando caímos, por qualquer motivo que seja, tendemos a ficar estatelados no chão sem saber direito como levantar e seguir adiante. Esse tinha sido o meu caso. Mas existem algumas pessoas, como Sofia, que conseguem tirar de letra as dificuldades e passar pelos problemas numa boa. Mesmo quando tudo parece conspirar negativamente, elas estampam um sorriso no rosto e seguem em frente. Mesmo que coisas horríveis aconteçam a elas, elas estão sempre bem, obrigado! Pessoas como minha prima parecem ser naturalmente mais preparadas para lidar com as adversidades. E parecem fazer isso com os pés nas costas.
Eu estava intrigada em descobrir o que levava pessoas como ela a enfrentar tão bem esses contratempos que a vida tratava de lhes impor e, sejamos francos, a vida realmente impõe contratempos a todo mundo, não tem jeito. A princípio, parecia que ela era dotada de uma invulnerabilidade inata, algo como um verdadeiro dom com o qual ela teria nascido e que não deixava que ela se abalasse com os infortúnios da vida. Porém, Sofia não era invulnerável. Sua visão prejudicada era uma prova cabal disso. A diferença entre nós era que ela tinha sido capaz de reagir positivamente aos problemas, de ser mais resistente a eles, o que não significava que ela sairia da crise ilesa, como seria de se esperar de alguém invulnerável.
Passei, então, a buscar outro conceito mais exato que pudesse definir esse comportamento e tomei emprestado da física um termo que tinha tudo a ver com ela: resiliência. Por mais estranha que a palavra pudesse parecer, ela era usada na física para indicar a capacidade que um material tende a retornar ao seu estado original após sofrer uma grande pressão. Bingo! Tal qual um tapete felpudo que, após ser pisoteado, volta a apresentar suas fibras intactas, como se nenhum passo tivesse sido dado sobre ele, o resiliente consegue emergir mais forte de experiências desastrosas. Encara as adversidades como oportunidade de mostrar e aprimorar sua competência, seu entusiasmo, e encontra soluções criativas e determinadas para se levantar do chão.
Mesmo que algumas pessoas nasçam mais aptas que outras a aceitar as adversidades, todo ser humano tem um grau de resiliência, por menor que seja. Mas isso não nos impede de nos tornarmos pessoas mais capazes de superar os problemas com maior facilidade. Seguindo o exemplo de Sofia, eu lutaria para aprimorar a minha resiliência. Eu podia fazer isso. Eu tinha essa capacidade. Eu iria me esforçar mais. Eu merecia essa chance. Minha família merecia esse esforço. Brian merecia ter ao seu lado uma mulher inteira, alguém que andasse ao seu lado e não alguém que ele tivesse que carregar nas costas.
Eu estava ciente de que os problemas nem sempre poderiam ser resolvidos com um raciocínio lógico ou com um sorriso no rosto. Eu teria que inovar, buscar caminhos que exigissem criatividade e até mesmo tratar o assunto com mais seriedade. Ser lógica e bem humorada não seria a solução definitiva para o meu problema. Eu teria que buscar uma postura diferente, teria que ter em mente que, vez ou outra, eu teria que desencanar e agir com impulsividade em certos contextos. Em outros, eu deveria ser mais racional e ponderada. “A verdade é que temos a impressão de que nossas capacidades - todas elas - desaparecem quando surge uma situação não prevista, turbulenta, ameaçadora. E é assim com todo mundo, acredite. Mas, após o furacão passar, é preciso reagir e colocar a casa em ordem.” Sofia havia me respondido quando lhe perguntei como ela conseguia encarar as dificuldades de forma tão natural, otimista e perseverante. “Claro que você tem o direito de sofrer, chorar, ficar reclusa. Ninguém tem sangue de barata e essas são formas válidas de extravasar as emoções negativas. O que não pode acontecer é você ficar escrava delas!”, ela completara sabiamente.
Sofia estava certa. Todas as pessoas se aborrecem e perdem o equilíbrio em uma situação de adversidade. Mas a minha atitude havia se tornado uma forma especial de tornar os problemas mais graves ao longo do tempo. Eu precisava mudar e não iria desistir. Eu iria me fortalecer e continuar no jogo e, no final, eu sairia vitoriosa. Agora, com a poeira mais baixa, eu conseguiria me centrar e decidir o que fazer. A primeira coisa a fazer era parar de me lamuriar pelos meus problemas e evitar, a todo custo, me enxergar como vítima das circunstâncias, porque, quando nos portamos como vítimas, nos excluímos do problema e não temos poder para superá-lo ou transformá-lo. E eu não fecharia as portas para a superação. Procuraria me conhecer mais, porque só assim eu saberia quais seriam as armas que eu teria para enfrentar uma determinada situação e até onde poderia e conseguiria ir, sem ceder. Eu confiaria mais em mim mesma. Não permitiria que ninguém me dissesse que eu não era capaz de fazer alguma coisa. Melhor ainda, eu não me permitiria pensar que eu não seria capaz de fazer o que eu quisesse. Percebi, de repente, que todos me viam como uma pessoa frágil e insegura porque, durante toda a minha vida, eu permiti que elas me vissem dessa forma, afinal as pessoas só vêem o que nós queremos que elas vejam. E eu mudaria a minha imagem diante dos outros e, principalmente, diante de mim. O meu reflexo no espelho nunca mais seria o de uma menina assustada e desprotegida. Daquele momento em diante, ele me mostraria o retrato de uma mulher forte e decidida.
Sofia e eu conversamos por horas, sentadas no jardim da minha casa. Seth e Brian tinham saído para nos dar privacidade voltando apenas na hora do almoço para nos buscar. Almoçamos todos juntos em minha casa. Minha conversa com Sofia ainda ecoava em meus ouvidos enquanto eu refletia sobre a minha mudança de atitude. Talvez por isso eu tenha permanecido calada durante boa parte do almoço sem perceber os olhares curiosos e preocupados de todos sobre mim.
_ Tudo bem, docinho? – a voz sussurrada de Brian me trouxe de volta à realidade.
Olhei para ele e percebi seu olhar ansioso sobre mim. Seus dedos acariciavam delicadamente as costas da minha mão.
_ Não! Não está nada bem, bebê! – respondi causando um silêncio mortal em torno da mesa de jantar.
Encarei, um a um, todas as pessoas à minha volta antes de voltar a falar.
_ Eu preciso pedir desculpas a todos vocês pelo meu comportamento durante o mês que se passou. – eu disse constrangida - Eu sei que tenho sido motivo de preocupação e angústia para todos. Acreditem em mim! Eu não queria que vocês sofressem por minha culpa, mas eu confesso que ... andei perdida ... sem saber o que fazer. Mas hoje, depois de conversar com a Sofia, eu percebi que a minha postura não estava fazendo nada a meu favor e, então, eu decidi que ... que eu preciso mudar.
_ Você não precisa nos pedir desculpas, filha! – meu pai respondeu – Nós todos amamos você e se você estiver sofrendo nós sofreremos junto, mas isso não é culpa sua! Não se sinta culpada por nada!
Os olhares de todos à mesa confirmavam as palavras de meu pai. Meu coração se sentia um pouco mais aliviado, sabendo que eles não me responsabilizavam pela angústia que eu havia causado a todos. Senti a mão de Brian apertando levemente a minha, me passando força e segurança. Meu olhar pousou sobre o seu rosto sereno e não pude deixar de sorrir ao ver a forma como ele me olhava.
_ Eu amo você! – eu disse baixinho enquanto todos retomavam a conversa antes interrompida.
_ Eu amo você! – ele repetiu as minhas palavras aproximando o rosto do meu para beijar suavemente os meus lábios.
Depois do almoço, Seth levou Sofia de volta para casa para que ela pudesse descansar. Embora ela estivesse bem, minha mãe tinha aconselhado que ela descansasse pelo menos por duas horas durante a tarde, para que as dores de cabeça não voltassem. Meus pais já tinham voltado para o trabalho, Anna e Valentina tinham ido para o ballet e Nikki, sabendo que Brian me fazia companhia, tinha saído com Ashley.
Minha cabeça repousava no peito de Brian que acariciava delicadamente o meu rosto com a ponta dos dedos. Meu ouvido, colado ao seu coração, ouvia suas batidas regulares e compassadas. Estávamos deitados no sofá da sala assistindo a um filme quando uma ideia me veio à mente. Seria uma boa forma de começar a enfrentar os meus medos e inseguranças, mas eu estava ciente de que não conseguiria fazê-lo sozinha, mesmo porque eu sabia que Brian não permitiria que eu assim o fizesse. Ergui a minha cabeça, apoiando o queixo sobre o seu peito para olhá-lo diretamente. Seus olhos imediatamente me encararam e ele sorriu.
_ O que foi, amor? Está precisando de alguma coisa? – ele perguntou colocando uma mecha de cabelo atrás da minha orelha.
_ Estou. Você me ajuda? – perguntei acariciando seu rosto.
_ Você sabe que sim. Eu faço qualquer coisa que você me pedir! – ele disse fechando os olhos, apreciando o carinho.
_ Eu preciso que você me leve ao shopping. Eu ainda não comprei o meu vestido para o casamento de Sofia e não quero mais perder o meu tempo dentro ficando presa dentro de casa. – eu disse com uma coragem que nem eu mesma sabia que tinha.
Tive a satisfação de ver os olhos de Brian se abrir arregalados de espanto. Sua expressão rapidamente mudou de surpresa para orgulho e felicidade na medida em que ele se dava conta do que aquilo significava. Ele sabia que, para mim, seria muito difícil voltar ao lugar onde todo o meu tormento tinha começado e aquele enorme sorriso que atravessava o seu rosto me dizia que ele estava contente por ver que eu estava dando o primeiro passo para uma vida normal e feliz.
“A nossa maior glória não reside no fato de nunca cairmos, mas sim em levantarmo-nos sempre depois de cada queda.” (Confúcio)
