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Juiz de Fora, Minas Gerais, Brazil
Apesar de ser mestre em Linguística e ter toda a minha vida acadêmica voltada para o ensino de línguas, sempre fui amante da literatura, devoradora de livros, filmes e séries. Sempre tive um sonho: escrever. Durante muito tempo, o medo de fracassar me impediu de realizar esse sonho, mas uma grande amiga me incentivou e me deu a coragem de enfrentar meus fantasmas e graças a ela eu hoje posso dizer que me sinto uma pessoa melhor, mais confiante e absolutamente ciente do meu potencial.

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domingo, 27 de novembro de 2011

Capítulo XXVI - Preocupações



                                    
Narrado por Bella

Sofia ainda chorava nervosa nos braços de Seth, que me olhava ansioso, enquanto eu tentava aferir a sua pressão. Minhas mãos trêmulas mal conseguiam segurar o aparelho e minha mente se dividia entre a preocupação com a minha filha grávida e o meu filho maluco que perseguia um delinqüente em alta velocidade. Sofia precisava se acalmar. Todo aquele estresse poderia desencadear algo muito mais grave se ela não recuperasse o controle. Lembrei-me da crise de hipertensão que tive quando estava grávida dela e meu coração saltou no peito com medo. A história parecia estar se repetindo e a angústia que invadia o meu peito agora era muito maior do que a daquela época. Era a minha filha ali, trêmula ... assustada ... vulnerável. Doía insuportavelmente em mim vê-la daquele jeito. Eu queria poder transferir tudo aquilo para mim para que ela ficasse bem.
Embora o coração de Sofia estivesse muito acelerado, a pressão estava normal, graças a Deus! Pude respirar um pouco mais calma por saber que não havia nada de errado com ela. A expressão aliviada em meu rosto pareceu dar ao olhar angustiado de Seth a resposta que ele tanto esperava. Era visível a preocupação em seu rosto. Seus braços apertavam Sofia com tanta força junto a ele que eu tinha a impressão de que ela mal conseguia respirar. Uma leve piscada de olho foi o que bastou para que ele relaxasse um pouco. Seth fechou os olhos soltando um suspiro profundo, beijou demoradamente o topo da cabeça de Sofia recostada em seu peito enquanto uma de suas mãos descia carinhosamente para o seu ventre, acariciando-o, como se ele conversasse em silêncio com o filho, dizendo que tudo estava bem, que o papai estava ali e que nada de ruim aconteceria. Eu observava a forma como ele cuidava da minha menina. Seth tinha nos olhos o mesmo olhar de adoração que Edward me dava todos os dias, a mesma paixão desesperada, o mesmo amor incondicional. Ele seria até mesmo capaz de se jogar na frente de uma bala por ela, disso eu tinha certeza. E era essa certeza de que ele faria qualquer coisa para protegê-la e para fazê-la feliz que me deixava tranquila. Se um dia Edward e eu faltássemos, ela não ficaria sozinha, teria alguém para apoiá-la e ajudá-la a seguir em frente.
Aos poucos, Sofia começou a se acalmar. Seu choro, antes convulsivo e preocupante, agora não passava de pequenos soluços seguidos de leves tremores pelo corpo. Depois de mais alguns minutos, todo o nervosismo pareceu se converter em cansaço. Ela começou a ficar sonolenta, seu corpo amolecendo nos braços de Seth que me olhou mais uma vez assustado antes de entender o que se passava. Ele se deitou na cama levando consigo o corpo de Sofia aninhado ao seu. Ela aconchegou a cabeça em seu peito, abraçando sua cintura ... adormecendo logo em seguida.
Meus pensamentos, de repente, se voltaram para Brian. Onde ele estaria naquele momento? Estaria bem? Deus do céu! Meu coração de mãe parecia não ter descanso. Eu precisava ter notícias de Brian ... meu menino ... meu eterno anjinho. Levantei-me cuidadosamente da cama sob o olhar atento de Seth, peguei minha maleta e caminhei em direção à porta.
_ Cuida dela para mim? – sussurrei um pedido a Seth que apenas assentiu silenciosamente, envolvendo ainda mais o corpo adormecido de Sofia em seus braços protetores.
O semblante sereno de minha filha me deu a coragem que eu precisava para sair daquele quarto e ir à busca do meu outro filho. Eu podia ouvir a televisão ligada no andar de baixo transmitindo alguma notícia que parecia urgente. Desci as escadas que davam para a sala depois de deixar minha maleta em meu quarto e meu coração se sobressaltou com o grito que saiu rasgando a garganta de Mel, no exato momento em que eu entrava na sala. Fiquei congelada ali por alguns segundos, olhando para a tela da TV enquanto os meus olhos reconheciam o carro que acabara de se chocar violentamente contra vários outros no meio de uma estrada. Levei as mãos à boca, sufocando o grito desesperado que tentava se libertar. Eu já podia sentir o meu peito sendo rasgado pela dor e pelo medo de que algo horrível tivesse acontecido com o meu menino.
Meus olhos inundados pelas grossas lágrimas que já se acumulavam não me permitiram distinguir o vulto que se aproximava de mim. Eu tinha a leve impressão de que mãos macias tocavam o meu rosto e uma voz suave e rouca dizia alguma coisa em meus ouvidos, algo que eu já não era capaz de compreender. Meus olhos não se despregavam da tela da TV. Eu precisava ver o meu filho abrindo a porta do carro e saindo de lá caminhando ... inteiro ... bem.
A voz rouca em meus ouvidos aos poucos foi se tornando ansiosa e angustiada. Senti meu corpo sendo levemente sacudido por mãos firmes que seguravam os meus ombros. Relutante, desviei o olhar da TV na direção daquela voz. O olhar sofrido de Edward me trouxe de volta à realidade.
_ Bella, amor? Fala comigo, por favor? – ele me pedia com a voz embargada.
Eu queria dizer alguma coisa, qualquer coisa que fizesse aquele olhar deixar o seu rosto, mas não conseguia encontrar a minha voz. Meus olhos esquadrinhavam cada pedacinho perfeito do seu rosto, deixando por último a parte que me prenderia indefinidamente: seus lindos olhos azuis. Olhos que agora estavam revestidos de angústia. Angústia por mim ... angústia por Sofia ... angústia por nosso anjinho. O pensamento em nosso filho imediatamente disparou a minha voz.
_ Brian! – eu disse em um sussurro.
Fechei os olhos não suportando mais a ideia de olhar para aquela TV. Senti os braços de Edward envolverem o meu corpo em um abraço sufocante, sua mão apertando a minha cabeça contra o seu peito enquanto eu ouvia o seu coração batendo forte e disparado contra o meu rosto. Eu me apertava a ele em busca de força enquanto ele sussurrava palavras de conforto em meus ouvidos.
_ Vai ficar tudo bem, amor! Ele vai ficar bem! – ele me prometia tentando me passar confiança mesmo que o leve tremor em sua voz me dissesse que ele não estava tão seguro assim.
Edward envolveu o meu rosto com ambas as mãos me obrigando a olhar novamente em seus olhos.
_ Eu preciso ir agora, Bella! Eu preciso ir buscar o nosso filho! – ele disse.
Eu via a luta que ele travava consigo mesmo. Ele tinha que ir atrás de Brian, mas estava inseguro de me deixar para trás.
_ Eu vou com você! – consegui dizer com algum esforço.
_ Não, amor! – tentei contestá-lo, mas ele me impediu – Bella, eu preciso que você seja forte, por favor! Amor, fique aqui em casa. Sofia pode precisar de ajuda. Eu não vou ficar tranquilo se nós dois sairmos agora, por favor!
Ele estava certo. Eu tinha que ficar, mas a expectativa de me afastar dele naquele momento, mesmo que fosse por um motivo tão forte como socorrer o nosso filho, me assustava. Apertei-me contra o seu corpo mais uma vez antes de soltá-lo.
_ Tome cuidado e traga o nosso anjinho de volta! – consegui finalmente dizer com a voz mais firme depois de respirar profundamente.
Ele me deu um sorriso triste antes de encostar os seus lábios levemente nos meus.
_ Promete que vai ficar bem? – ele me olhava preocupado.
_ Vai tranquilo, Edward! Eu cuido dela enquanto você estiver fora! – a voz de Emmett veio do meio da sala onde ele abraçava Mel.
Em meu desespero, eu sequer tinha percebido a presença dele ali. Voltei o meu olhar para Edward que ainda esperava a minha resposta. Apenas assenti com a cabeça sem ter a certeza de que a minha voz sairia firme o suficiente. Edward espremeu seus lábios contra os meus em um beijo intenso antes de virar as costas e sair sem olhar para trás. No exato momento em que ele passou pela porta e sumiu do meu campo de visão, eu me senti vazia. Algo me atraía na direção daquela porta, me atraía para fora de casa. Minhas pernas se moveram na direção da saída, me levando para a garagem onde Edward já abria a porta do carro.
_ Edward? – eu o chamei sem conseguir disfarçar o medo em minha voz.
Ele se virou depressa, talvez alarmado com o tom estranho em minha voz. Corri até ele e me atirei em seus braços que me apertaram contra o seu corpo.
_ Me promete uma coisa? – ele assentiu em resposta - Volta para mim?
_ Sempre! – ele me prometeu.
Meu coração batia descompassado no peito ao ver Edward entrar no carro e sair de casa apressado. Meu olhar ainda se prendeu ao dele uma última vez pelo espelho retrovisor antes que o carro desaparecesse de vez. Abracei-me ao meu corpo com medo do que viria. Não sei quanto tempo fiquei ali, parada na calçada encarando o ponto exato onde o carro de Edward tinha desaparecido, até que senti meu corpo ser abraçado pelos braços delicados de Mel. Ela me encarava com os olhos vermelhos e inchados pelo choro embora se esforçasse para segurar as lágrimas que teimavam em cair. Aquela expressão sofrida em seu rostinho de anjo finalmente liberou as lágrimas que eu tinha tentado evitar. Abraçamo-nos ali, no meio da rua, tentando passar para a outra uma força que já não tínhamos. Braços fortes e protetores nos envolveram em um abraço carinhoso. Emmett estava ali ... nos protegendo ... nos amparando ... cuidando de nós... cumprindo a promessa que fizera ao irmão.

Narrado por Edward

        Eu dirigia como um louco em direção ao hospital. A expressão de medo e dor no rosto de Bella ainda me assombrava. Parecia que, desde Michael, cada geração da minha família       estava condenada a sofrer com a perseguição de um psicopata. Que inferno! Por que diabos Brian tinha que pegar aquele carro e sair como um maluco atrás daquele marginal? Como ele podia ser tão irresponsável a ponto de arriscar a própria vida daquele jeito? Meu coração batia forte e descompassado em meu peito. Chegava a doer. Eu sentia um medo paralisante, mas tinha que me forçar a reagir. Meu filho precisava de mim.
Jake já me esperava na porta do hospital quando estacionei o carro. A ligação que eu havia feito enquanto dirigia para lá nos fez ganhar tempo. O helicóptero nos esperava no terraço do prédio com os motores ligados. Eu tinha que dar o braço a torcer. Emmett tinha feito um grande negócio ao comprar aquilo no mês passado. Se não fosse pela sua insistência quando fui terminantemente contra a compra daquele trambolho, agora eu levaria horas para chegar até o meu filho. As palavras de Emmett ecoavam em minha memória: “A gente nunca sabe quando vai precisar socorrer alguém em um lugar remoto, Edward!”. Parecia até ironia o fato de que o vôo inaugural do helicóptero de resgate fosse justamente para socorrer o meu filho. Eu tinha que me lembrar de agradecer ao meu irmão por ter sido tão chato naquela época.
_ Como você está, Edward? – a voz de Jake me trouxe de volta dos meus pensamentos enquanto o helicóptero decolava.
_ Sinceramente? Eu ainda não sei! – respondi com sinceridade.
Eu me sentia meio perdido. Não tinha sido fácil deixar minha filha e minha mulher para trás, sabendo que elas precisavam de mim. Mas eu tinha que definir prioridades, usar a razão ao invés da emoção. Sofia tinha Seth ao seu lado e, qualquer coisa que ela sentisse, ela teria Bella ou até mesmo Rose, na casa logo ao lado, para socorrê-la. Emmett tinha me prometido cuidar de Bella e eu sabia que ele não quebraria a promessa. Naquele momento, Brian era quem mais precisava de ajuda. Pelo menos era nisso que eu me agarrava para não me sentir culpado por ter deixado Bella para trás.
O leve solavanco do helicóptero pousando no meio da estrada me tirou dos meus pensamentos. A viagem, que de carro levaria horas, para o meu alívio, tinha levado apenas alguns minutos. Jake já descia carregando o equipamento de primeiros socorros enquanto eu tentava fazer o meu corpo me obedecer. Uma ambulância estava parada próxima a um carro capotado, um pouco mais adiante, mas eu não me interessava pelo que pudesse ter acontecido com aquele imbecil. Meu coração bateu espremido no peito ao chegar perto do carro de Brian. De perto, a cena era muito mais assustadora do que pela TV. O lado direito do carro tinha sido amassado como uma latinha de refrigerante, as ferragens se contorcendo até pararem bem próximas ao banco do motorista.
Os policiais abriram caminho para que nós passássemos com a maca. Um paramédico canadense já havia imobilizado o pescoço de Brian que trazia no rosto uma expressão de dor. A ausência de sangue indicava que ele não estava gravemente ferido, pelos menos não externamente. Eu já tinha entrado do modo médico, conseguia avaliar com certa distância o estado de Brian enquanto Jake e o paramédico o imobilizavam totalmente antes de retirá-lo do carro.
A maca já deslizava pelo asfalto em direção ao helicóptero quando a voz baixa Brian chegou aos meus ouvidos me fazendo um pedido surpreendente.
_ Pai? Traz o Mark com a gente? – ele pediu – Por favor?
Olhei para ele confuso. Ele pareceu ler a minha expressão antes de insistir.
_ Por favor, pai! Depois eu explico!
Troquei um olhar com Jake que assentiu concordando com Brian. Caminhei a contragosto em direção à ambulância que aguardava a maca que levaria Mark. Conversei com o médico responsável e o convenci a deixar que levássemos o paciente conosco no helicóptero.  Seu estado era grave e ele precisava chegar a um hospital o mais rápido possível. Acho que foi isso que fez com que o médico concordasse em entregá-lo a mim.
O helicóptero levantou vôo assim que a maca de Mark foi colocada em seu interior. O pulso fraco parecia avisar que não resistiria por muito tempo. Brian mantinha os olhos fixos em meu rosto enquanto eu segurava a sua mão.
_ Por que, filho? - perguntei dando apenas uma rápida olhada na direção de Mark antes de encará-lo de novo.
Brian respirou profundamente, fazendo uma careta de dor antes de me responder.
_ Se ele sobreviver, eu quero que ele esteja nos Estados Unidos. Se a ambulância o tivesse levado para o Canadá, ele poderia ter a chance de fugir antes que conseguíssemos a sua extradição. Eu o quero aqui, debaixo dos nossos olhos. Eu quero que ele pague pelo que ele nos fez.
Eu podia sentir o ódio fervilhando por baixo da falsa imagem de calma que ele tentava passar. Uma coisa era certa: se Mark sobrevivesse, Brian se certificaria de que ele iria pagar por seus erros, ainda que isso significasse montar guarda 24 horas por dia na porta da UTI.
Todo o corpo médico da emergência nos aguardava no terraço do hospital quando o helicóptero pousou em Edmonds. Depois de várias radiografias, tomografias e de todos os exames possíveis eu pude respirar com tranquilidade. Brian estava bem. Milagrosamente, ele havia escapado daquele acidente apenas com uma distensão muscular nas costas. Ainda assim, passaria a noite no hospital em observação. Mark já não tivera tanta sorte. Além dos ferimentos externos, ele tinha vários ossos fraturados, costelas quebradas que ameaçavam perfurar órgãos vitais e as chances de sobrevivência ficavam menores na medida em que o tempo passava.
Assim que Brian estava instalado em um quarto, liguei para casa. Bella atendeu no primeiro toque, a voz ansiosa e ainda chorosa fazendo meu coração saltar no peito. Com muito custo consegui convencê-la a ficar em casa. Eu passaria a noite no quarto com Brian e ela viria logo pela manhã. Ficamos conversando no telefone por incontáveis minutos, sem coragem de desligar.  Ouvir o som da sua voz me devolvia o equilíbrio, dava sentido à minha vida, me dava forças para me levantar todos os dias e enfrentar quaisquer dificuldades que pudessem surgir. O estresse do dia começou a dominar o meu corpo e um cansaço sem precedentes tomava conta de mim. Voltei para o quarto onde Brian dormia depois de tomar um medicamento para a dor. Sentei-me na poltrona ao seu lado e fiquei olhando o seu rosto sereno. Lembrei-me do dia em que ele sofreu a cirurgia de apêndice. Se naquela época eu pensei que nunca sentiria um medo tão grande de perdê-lo, agora eu pensava diferente. Nada iria superar o medo que eu tinha sentido mais cedo. Medo de nunca mais poder olhar no rosto do meu filho, de nunca mais vê-lo sorrir, de nunca mais ouvir a sua gargalhada. Meu peito estava apertado como se um bloco de concreto o esmagasse. Recostei-me na cadeira e olhando para o rosto do meu filho, fiz a única coisa que estava ao meu alcance para aliviar aquela pressão: chorar.


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Capítulo XXV – Perseguição



                                    
Narrado por Brian

Eu não sabia como ainda não tinha batido com o carro. O velocímetro marcava 160km/h e o meu pé se recusava a diminuir a pressão sobre o acelerador. Eu sabia que estava agindo de forma impulsiva e que aquilo poderia acabar muito mal, mas a lembrança de todos os momentos angustiantes que passei ao lado dela assistindo impotente enquanto ela gritava durante os pesadelos sem que eu pudesse tirá-la de lá não me deixava desistir.  As sirenes dos vários carros da polícia atrás de mim faziam um barulho ensurdecedor. Pelo espelho retrovisor, eu podia ver os faróis piscando freneticamente em uma ordem clara para que eu parasse. Mas o ódio que eu sentia não me permitia obedecer. Eu não podia perder de vista o carro que disparava pelas estradas bem à minha frente. Eu iria atrás dele até o inferno, mas ele nunca mais chegaria perto dela novamente. Eu não conseguia acreditar na audácia daquele cretino. A imagem do rosto aterrorizado de Mel ao vê-lo parado diante da sua casa quando chegamos me servia de combustível para continuar perseguindo aquele animal. Eu tinha certeza de que jamais me esqueceria daquela cena.
Mel e eu tínhamos passado a manhã de domingo com Seth e Sofia no Parque Yost. Tínhamos feito um piquenique e Seth levara um violão. A rara manhã ensolarada tinha sido agradável e descontraída e tanto Sofia quanto Mel pareciam relaxadas. Havíamos conversado sobre a gravidez de Sofia, relembrado nossas travessuras de criança, tínhamos rido das coisas engraçadas que fazíamos, como quando Sofia e Mel tinham pintado a cara do tio Emmett com o batom vermelho da tia Rose enquanto ele dormia na rede da casa de praia em uma de nossas viagens de férias.
Voltávamos para casa em um clima gostoso. Ao meu lado, Mel mantinha um lindo sorriso nos lábios, seus olhos tinham recuperado o brilho que eu tanto amava e, embora os pesadelos ainda a atormentassem à noite, ela estava se recuperando a olhos vistos. Porém, ao estacionar o carro na porta de casa, tudo mudou em poucos segundos. Eu havia descido do carro e aberto a porta para que ela saísse. Seu sorriso brilhante enchia o meu coração de esperança. Desde o dia em que ela me pedira para irmos ao shopping, ela vinha apresentando uma melhora assustadora em seu estado psicológico. Mas tudo pareceu se perder assim que o seu olhar se fixou do outro lado da rua, atrás de mim. Eu vi, com riqueza de detalhes, as feições em seu rosto mudarem da serenidade ao desespero em uma fração de segundo. Seu sorriso se apagou instantaneamente, seus olhos se encheram de lágrimas com uma rapidez jamais vista e eu pude sentir as suas mãos trêmulas umedecidas com um suor frio apertarem ansiosas as minhas.
Meu olhar seguiu o seu e eu custei a acreditar no que meus olhos me mostravam. A minha vontade era correr até ele e socá-lo até a inconsciência, mas o corpo trêmulo de Mel, então agarrado ao meu, me implorava para não deixá-la. Seth, que havia estacionado o carro logo atrás do meu, já saía disparado na direção de Mark, a expressão furiosa em seu rosto deixava clara a sua intenção. Olhei para o interior do carro, me deparando com o rosto assustado e confuso de minha irmã que não sabia o que estava acontecendo ali perto. Corri em sua direção levando Mel comigo e abri a porta do carro para tirá-la de lá.
_ Mel, leve a Sofia para dentro de casa e fique lá com ela, está bem? – pedi ansioso para me juntar a Seth.
Ela não disse uma palavra sequer. Na verdade, não era preciso. A expressão em seu rosto me dizia o quanto ela estava assustada com aquilo tudo. Mel guiou Sofia para dentro de casa enquanto eu corria na direção de Mark que havia conseguido se desvencilhar de Seth e corria de volta para o seu carro. Eu não podia perdê-lo de vista. Iria colocá-lo na cadeia a qualquer custo, aquela expressão de puro terror nunca mais tomaria conta do rosto da minha menina. Corri de volta para o meu carro enquanto ouvia os pneus do carro de Mark cantando no asfalto, saindo em alta velocidade dali. Ainda pude ouvir os gritos desesperados de Mel que saía correndo de casa tentando me impedir, mas pude ver quando Seth a segurou antes que ela chegasse a mim. O olhar em seu rosto e o leve aceno de cabeça me deram a segurança de partir. Eu sabia que ele cuidaria da minha irmã e de Mel enquanto eu estivesse longe. Elas estavam a salvo, seguras dentro de casa, e isso era tudo o que me importava.
O toque estridente do meu celular me tirou dos meus pensamentos. Não precisei olhar no visor para saber quem era. Desde o momento em que eu arrancara a toda velocidade da porta de casa, Mel não parava de ligar para o meu celular. Eu tinha certeza de que ela estaria apavorada, com pânico de que algo acontecesse comigo, mas eu sabia que, se ouvisse a sua voz chorosa ao telefone me pedindo para voltar, eu não conseguiria prosseguir. Deixei mais uma vez que a ligação caísse na caixa de mensagens e me concentrei no carro à minha frente. Eu não fazia ideia de quanto tempo havia se passado desde que aquela perseguição começara: segundos ... minutos .... horas talvez. A única certeza que eu tinha era a de que aquele cretino iria pagar por tudo o que tinha feito, por cada lágrima derramada, por cada segundo de angústia que todos nós vínhamos enfrentando desde aquele maldito dia.
Dirigíamos como loucos pela estrada cheia de carros. Os motoristas abriam caminho assustados com o ruído das sirenes dos carros da polícia. Mark passava rasgando o ar por entre os carros, sem se preocupar se causaria um acidente que poderia tirar muitas vidas, inclusive a dele. Tínhamos deixado os limites de Edmonds havia algum tempo e seguíamos na autoestrada em direção ao norte. Meu celular tocava insistentemente de tempos em tempos, mas eu não podia atender ... não na velocidade em que dirigia. Qualquer descuido poderia acabar em uma enorme tragédia. À minha frente, o carro de Mark ganhava cada vez mais velocidade, me obrigando a pisar cada vez mais fundo no acelerador. Uma velha caminhonete que se arrastava pela estrada foi jogada para fora da pista quando o carro de Mark bateu em sua lateral na tentativa de abrir caminho. Por um breve momento, eu achei que ele também perderia o controle do volante, mas ele conseguiu retomar a linha reta na estrada imprimindo ainda mais velocidade ao carro. O motor do meu carro rugia alto com o esforço extra exigido pelo excesso de velocidade. Eu sabia que estaria encrencado quando tudo aquilo acabasse, mas, desde que Mel pudesse ter paz e tranquilidade, nada mais importava.
Muitos quilômetros mais tarde, eu percebi os carros da polícia ficando para trás. Só então entendi o que estava acontecendo. Estávamos perto da fronteira entre os países e entraríamos em outra jurisdição. O tempo estava acabando. Se Mark conseguisse ultrapassar a fronteira, suas chances de escapar ficariam ainda maiores. Uma curva fechada era tudo o que nos separava do Canadá. Mark entrou na curva sem reduzir a marcha. Instintivamente, aliviei o pé no acelerador, mas não o suficiente para que ele tomasse a dianteira. Os carros da polícia já não corriam atrás de nós, apenas um helicóptero nos acompanhava, o ruído do seu motor se misturando ao toque do meu celular que chamava novamente. Tudo aconteceu muito rápido. Uma enorme barreira de carros fechava a estrada pouco depois da saída da curva. Eu vi, horrorizado, o carro de Mark se chocar contra os veículos atravessados na estrada. A violência do choque arrancou o carro do chão, fazendo-o voar vários metros adiante para bater novamente no asfalto capotando diversas vezes até parar com as rodas para cima perto de um penhasco. Eu tinha poucos milésimos de segundos para frear, antes que o meu carro tivesse o mesmo destino. Afundei o pé no freio e as rodas travadas fizeram com que os pneus se arrastassem pelo asfalto, deixando no ar um forte cheiro de borracha queimada. Vi, tarde demais, que o carro perdia velocidade, mas não seria o suficiente para evitar que eu me chocasse contra a barreira de carros no meio da estrada. Só tive tempo de virar o volante jogando a lateral direita do carro na direção da barreira e de firmar o meu corpo contra o encosto do banco travando firmemente minhas pernas e braços na parte dianteira do carro. A pancada veio com força, ativando todos os airbags do carro ... chacoalhando o meu corpo de forma dolorosa ... me levando para a inconsciência.

Narrado por Mel
       
        Meu corpo todo havia sido tomado pelo mais completo desespero. O medo que senti ao vê-lo novamente não era nada comparado ao pânico que eu sentia agora. O que Brian estava tentando fazer afinal? Se matar? Meu coração saltou como louco em meu peito quando o vi entrando em seu carro para perseguir o carro de Mark que já disparava pela rua da minha casa. Corri aos gritos em sua direção, mas Seth me agarrou, me impedindo de alcançá-lo. Eu gritava, esperneava e chorava desesperada tentando me livrar do aperto de aço de Seth, mas quanto mais força eu fazia, mais ele me apertava.
        O carro de Brian sumia das minhas vistas com a velocidade de um raio enquanto Seth me arrastava para dentro de casa. Na sala, Sofia tremia abraçada ao tio Edward que tentava acalmá-la, preocupado com o bebê. Tia Bella vinha apressada da cozinha trazendo um copo de água com açúcar para que ela bebesse, mas ficou ainda mais preocupada quando me viu naquele estado.
        _ Mas o que está acontecendo aqui, afinal? – ela perguntou confusa.
        Eu não conseguia responder. Minha mente repassava a cena de Brian arrancando com o carro a toda velocidade atrás de Mark. Meu medo de que algo de ruim acontecesse com ele me drenava as forças.
        _ Mark estava aqui em frente quando chegamos. Ele conseguiu fugir e Brian foi atrás dele de carro! – Seth explicou deixando-me sentada no sofá e tomando Sofia nos braços.
        Eu ligava insistentemente para o celular de Brian, mas o telefone chamava até cair na caixa de mensagens. Eu já nem conseguia mais pensar direito e a cada vez que eu tentava e não conseguia falar com ele, minha angústia e meu desespero aumentavam ainda mais. Por que será que ele não respondia? Tudo o que eu queria era que ele voltasse para mim são e a salvo. Deus do céu! O simples pensamento sobre a possibilidade de um acidente me fazia querer gritar. Ele não podia fazer aquilo comigo ... eu precisava dele para viver ... ele tinha que voltar para mim!
        Seth e tia Bella haviam subido levando Sofia para o quarto. Eu ainda tentava falar com Brian enquanto tio Edward falava ao telefone com a polícia. Eles precisavam fazer alguma coisa, sei lá, ir atrás deles, prenderem Mark e trazerem Brian de volta para casa. O maldito celular só caía na caixa de mensagens. Eu andava de um lado para o outro na sala discando incessantemente o número de Brian. Parecia um animal enjaulado. Eu não era sequer capaz de respirar direito. A sala me parecia absurdamente abafada, sem oxigênio suficiente para encher os meus pulmões. Abri a porta da frente arfando em busca de ar. Meu corpo já perdia as forças curvando-se para frente, minhas mãos mal conseguiam segurar o celular que rediscava centenas de vezes o número de Brian sem que ele respondesse nem mesmo uma vez.  Pânico ... dor ... absoluto desespero. Minhas pernas fraquejaram e meu corpo foi envolvido pelos braços fortes do tio Edward antes que eu atingisse o chão.
        As lágrimas que eu tanto tentara reter finalmente desceram com força, aliviando um pouco a pressão que eu sentia no peito . Tio Edward me abraçava com força, me ninando como se eu fosse uma criança em seu colo. Mesmo que ele tentasse me passar segurança e tranquilidade eu percebia que ele também tremia. Era o seu filho lá fora, perseguindo um maluco pelas ruas em alta velocidade. Nenhum pai ficaria tranquilo diante de uma situação daquelas.
        _ Edward? – a voz assustada do meu pai entrou pela porta da sala – Filha, o que foi que aconteceu? – ele correu até nós a praticamente me arrancou dos braços de tio Edward.
        _ Brian ... Mark ... o carro ... – foram as únicas palavras que consegui dizer em meio a tantos soluços enquanto me agarrava ao corpo do meu pai em busca de apoio.
        _ O que? O que está acontecendo? Por que você está assim, Mel? – ele perguntou ainda confuso.
        _ Brian saiu feito um louco de carro atrás do Mark, Emmett. – tio Edward respondeu com a voz sufocada – Deus do céu! O que esse menino tem na cabeça? Sair pelas ruas em alta velocidade perseguindo um criminoso desse jeito?
Aquelas palavras só me fizeram tremer ainda mais. Meu pai me apertava em seus braços, acariciando minhas costas tentando me acalmar enquanto meus soluços sacudiam todo o meu corpo violentamente. Voltei a discar o número de Brian. Nada. Somente a maldita caixa de mensagens. Estava prestes a tentar mais uma vez quando Gabriel desceu as escadas correndo e ligou a televisão.
_ Vocês precisam ver isso! – ele disse com os olhos arregalados.
Gabriel ligou o aparelho e a imagem de dois carros correndo por uma estrada logo se materializou na nossa frente. Vários carros da polícia os seguiam e a velocidade altíssima que eles imprimiam aos veículos para acompanhar os outros dois era evidente. O repórter narrava a perseguição com a voz alarmada. “Há aproximadamente 1 hora e meia, a polícia vem perseguindo dois carros pelas estradas do estado de Washington. Nossas fontes informaram que a perseguição teve início na cidade de Edmonds, mas ainda não temos notícia do que teria desencadeado essa corrida desenfreada pelas estradas do estado. A julgar pela direção que os carros estão tomando, tudo indica que eles tentarão ultrapassar a fronteira do Canadá...”
O repórter continuava a narrar aquela loucura enquanto eu reconhecia horrorizada o carro de Brian rasgando a pista logo atrás de outro que, certamente, era o de Mark.  Uma velha caminhonete tinha sido jogada para fora da estrada pelo carro de Mark e os carros seguiam cada vez mais velozes para o norte. De repente, percebi confusa que os carros da polícia começaram a ficar para trás. O que eles estavam fazendo? Estavam desistindo? Mas antes que as minhas perguntas encontrassem uma resposta, a imagem na televisão se transformou no prelúdio de uma enorme tragédia. O carro de Mark saía disparado de uma curva fechada e se chocava contra uma imensa barreira de carros atravessada na pista, voando por sobre os veículos e capotando diversas vezes antes de parar de cabeça para baixo. Meu corpo todo reagiu com uma intensa sensação de dor. Meus músculos travaram, enrijecidos como um bloco de concreto enquanto eu assistia, atormentada, o carro de Brian deslizar no asfalto deixando-lhe uma enorme marca negra para, em seguida, se chocar violentamente contra os carros da polícia que interrompiam a pista.
_ NÃO!!!!!!! – reuni todas as minhas forças em um grito que saiu rasgando o meu peito e a minha garganta.
Meus olhos procuravam algum sinal de que Brian estivesse bem. Eu esperava que ele saísse do carro a qualquer momento, mas os minutos se passavam e a porta do carro não se abria. Aos poucos, fui tendo a consciência de que ele não estava bem, que algo de muito ruim havia acontecido com ele. Meu corpo, de repente, ficou mole. O celular caiu da minha mão, eu não sentia mais o meu corpo. Respirar tinha se tornado um trabalho hercúleo. Piscar os olhos demandava um esforço enorme e tudo o que eu pensava era em uma forma de não sentir aquela angústia ... aquela dor ...  aquele inferno. Naquele momento, tudo perdeu o sentido para mim. Eu não via mais significado na vida, sentia-me incapaz de diferenciar cores, perfumes. Eu não conseguia mais pensar. Eu tinha deixado de existir. Eu não queria mais existir sem ele. O melhor que eu tinha a fazer era me entregar de vez, desistir de tudo, morrer. Talvez, assim, a dor passasse mais rapidamente.