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Juiz de Fora, Minas Gerais, Brazil
Apesar de ser mestre em Linguística e ter toda a minha vida acadêmica voltada para o ensino de línguas, sempre fui amante da literatura, devoradora de livros, filmes e séries. Sempre tive um sonho: escrever. Durante muito tempo, o medo de fracassar me impediu de realizar esse sonho, mas uma grande amiga me incentivou e me deu a coragem de enfrentar meus fantasmas e graças a ela eu hoje posso dizer que me sinto uma pessoa melhor, mais confiante e absolutamente ciente do meu potencial.

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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Capítulo XXVII – Em seus braços




Narrado por Melinda

Eu sentia o meu corpo pesado em uma estranha sensação de paralisia. Meus músculos travados não me permitiam mover sobre a cama. A boca seca e a garganta arranhada davam a impressão de que eu estava ali havia dias, sem me alimentar, sem beber nada, sem me mover.
As primeiras luzes do dia atravessavam timidamente a janela do quarto, anunciando a chegada de mais uma manhã. Aos poucos, o torpor começou a ceder espaço para a consciência. E foi, então, que veio a dor. Aquela velha sensação de ter o peito esmagado, o medo de sair daquele quarto e ouvir a notícia que talvez fosse acabar com a minha vida. Eu não me lembrava de muita coisa depois que o tio Edward tinha saído em busca de Brian. Lembrava-me apenas de chorar abraçada a tia Bella e de meus pais me dando algo para beber. Depois, tudo não passava de imagens nubladas e confusas, como naqueles sonhos dos quais não nos lembramos ao acordar.
Sonhos. Pela primeira vez em muito tempo, eu havia tido uma noite sem sonhos. O pesadelo que me perseguia havia tantas semanas tinha se transformado em pó diante do tormento que eu tinha vivido no dia anterior, mas apesar disso, eu me sentia terrivelmente cansada. Levantei-me da cama com dificuldade. Meu corpo insistia em não me obedecer. Tonta, caminhei até o banheiro me apoiando nos móveis e nas paredes. Entrei sob a ducha quente, depois de escovar os dentes, esperando que a água relaxasse o meu corpo. Lenta e gradualmente, meus músculos foram se soltando embora a tontura não tivesse me abandonado. Eu precisava me alimentar.
Desci as escadas em direção à sala de jantar depois de me vestir. Eu precisava falar com meus pais, precisava ter notícias de Brian, saber como ele estava, ainda que o medo da resposta me paralisasse. Eu já podia ouvir as vozes sussurradas dos meus pais vindo da mesa de jantar embora não pudesse compreender o que diziam. Aparentemente, o que eles diziam não deveria ser ouvido por mais ninguém. Parei na sala de estar, pensando se deveria entrar ou não e interromper a conversa que me parecia séria demais, mas o que ouvi a seguir mudou os rumos dos meus pensamentos.
_ Qual é o real estado de saúde dele? – meu pai perguntava aos sussurros.
_ Gravíssimo. – minha mãe respondeu depois de um longo período em silêncio.
_ Quem te deu essa informação? – a voz de meu pai soou estranha.
_ Edward passou a noite no hospital com Brian e quando eu liguei para saber notícias ele me contou. – minha mãe respondeu.
_ Ele tem alguma chance de sobrevivência? – meu pai voltou a perguntar.
_ Ele é jovem e forte, mas os ferimentos foram graves demais. Se ele sobreviver, o que eu duvido muito, as seqüelas poderão ser graves.
Nenhum dos dois disse mais nada. Naquele momento, eu senti todo o meu sangue fugir do meu rosto enquanto o meu coração disparava descontrolado em meu peito. Meu corpo tremia intensamente enquanto a minha mente era sugada para o vácuo. Lutei contra a paralisia do meu corpo durante o que me pareceu uma eternidade. Senti minha visão escurecer e minhas pernas já ameaçavam falhar. Apoiei-me no sofá da sala sentindo um peso tão grande no peito que quase me impedia de respirar. Só conseguia pensar em Brian. Se eu o perdesse, morreria com ele. Uma vida sem ele não seria exatamente uma vida, portanto não valeria a pena. Respirei fundo tentando recobrar o controle do meu corpo. Aos poucos, comecei a sentir as minhas pernas mais firmes. Levantei-me do sofá e caminhei em direção à sala de jantar, mas parei de repente ao ouvir a voz do meu pai:
_ Você acha que nós devemos contar a Mel sobre a gravidade do estado dele?
_ Eu preferiria deixá-la longe de tudo isso. Ela já tem agüentado muita coisa nas últimas semanas. – a voz preocupada de minha mãe soou baixinho – Não vai ser fácil esconder isso dela.
Um soluço magoado escapou de minha garganta antes que eu pudesse evitar. Por mais que eu compreendesse a necessidade dos meus pais de me proteger eu não podia acreditar que eles me esconderiam uma coisa dessas. Corri de volta ao meu quarto, meu estômago se contorcendo de forma dolorosa. A bile já queimava a minha garganta quando me ajoelhei diante do vaso sanitário. Embora não houvesse nada em meu estômago para ser colocado para fora, ele insistia em se contrair com força, me tirando todo o ar. Um suor gelado escorria em meu rosto e eu já podia ver pequenos pontos de luz piscando diante dos meus olhos e sabia que estava a um passo de desmaiar. Com muito custo, consegui me levantar e lavar a boca e o rosto. Olhei-me no espelho e a imagem que vi refletida me assustou. A mulher que me encarava de volta tinha uma aparência horrível. Pele pálida. Lábios sem cor. Profundas manchas escuras sob os olhos inchados de chorar. Feições distorcidas em uma expressão de dor. Ela sofria com medo de perder o homem que amava.
A imagem daquela mulher me fez sair do torpor em que eu havia mergulhado. Eu precisava sair de casa. Precisava vê-lo a qualquer custo e não deixaria que ninguém me impedisse de ir até o hospital. De volta ao meu quarto, peguei minha bolsa e saí para o corredor. Nikki, que saía do seu quarto naquele momento, parou assustada por me ver daquele jeito.
_ Mel, o que foi? Por que você está assim? – ela perguntou se aproximando de mim.
_ Você também vai esconder a verdade de mim? – perguntei com a voz embargada.
_ Que verdade? Do que você está falando? - ela me olhava confusa.
Não adiantava insistir. Ela também não iria me dizer a verdade. Meus olhos mais uma vez se encheram de lágrimas.
_ Mel, fique calma. Eu vou chamar o papai e a mamãe. Vamos conversar, está bem? – ela disse se dirigindo na direção do quarto dos nossos pais.
Eu não podia mais ficar ali. Ela iria contar a eles o que eu pretendia fazer e eles não me deixariam sair. Desci as escadas depressa, quase caindo ao tropeçar nos degraus. Abri a porta da frente correndo em direção à garagem. Minhas mãos tremiam tanto que ficava difícil encaixar a chave da ignição. Travei as portas ao ver meu pai correndo em direção ao carro. Ele batia nos vidros e tentava abrir a porta à força. Eu podia ouvir a sua voz, mas já não era capaz de entender o que ele dizia. Arranquei em alta velocidade rumo ao hospital. Meus olhos ardiam, maltratados pelas lágrimas que não paravam de rolar pelo meu rosto. Meu peito parecia ter sido esmagado e meu coração batia com tanta força que chegava a doer.
Não sei como consegui chegar ao estacionamento do hospital sem causar um acidente. Minhas lágrimas não me deixavam enxergar quase nada à minha frente. Desci do carro com dificuldade. A tontura forte aliada aos músculos praticamente travados do meu corpo quase me jogaram ao chão. Encostei-me na lateral do carro respirando profundamente. Eu estava quase lá, não podia fracassar, não naquele momento. Depois de alguns minutos, minhas pernas pareciam ter tomado vida própria me fazendo andar apressada pelos corredores do hospital. Na emergência, a velha senhora da recepção me olhou preocupada quando parei diante dela.
_ Melinda, você está se sentindo mal? – ela se aproximou de mim com os braços estendidos como se fosse me amparar.
_ Brian. Onde ele está? Por favor, eu preciso vê-lo! – pedi com a voz trêmula.
_ Ele está no quarto 2011, filha! Mas por que você está assim? – ela perguntou enquanto eu disparava em direção ao quarto de Brian.
Várias pessoas me olhavam espantadas em meu caminho até ele. Parei diante da porta, ofegante ... apavorada. Minhas mãos trêmulas mal tinham força para girar a maçaneta, mas eu não podia ficar ali parada sem saber como ele estava. Não sei de onde tirei coragem para abrir aquela porta e dar de cara com a cama .... vazia. Não havia ninguém ali. Não havia sequer um indício de alguém estivera ali. Nenhuma bolsa ... nenhum pedaço de papel ... nada. O colchão sem lençóis e sem travesseiro pintava a imagem agourenta de que ele não voltaria para aquele quarto. Um desespero enorme tomava conta de mim. Eu não sabia o que havia acontecido com ele ou tinha medo de admitir para mim mesma que o pior... Não. Eu não podia nem pensar em uma coisa daquelas. Ele não podia fazer aquilo comigo, não podia me deixar sozinha aqui, sem ele. Não era justo. A dor em meu peito agora atingia um nível insuportável. Deitei-me na cama fria, sem vida. Se Brian não estivesse comigo, não me restava mais nada a não ser chorar e esperar que a morte me levasse para junto dele.

Narrado por Brian

A única coisa que me dava certeza de ainda estar vivo era aquela dor insuportável nas costas. Parecia impossível que eu tivesse escapado da morte diante da violência daquela batida. No calor do momento, eu não havia atentado para a grande besteira que estava fazendo. Tudo o que eu queria era pegar aquele desgraçado para que ele nunca mais se aproximasse de nós. Agora, com a cabeça no lugar, eu me recriminava por ter feito as coisas da forma como fiz. O olhar cansado e triste do meu pai ao sair do quarto me fez sentir uma culpa enorme. De repente, comecei a pensar em todos na minha família. Minha mãe deveria ter ficado desesperada ao saber o que eu estava fazendo. O rosto assustado e molhado pelas lágrimas de Sofia me atormentava. Eu só esperava não ter causado nenhum mal a ela e ao bebê.
Meus pensamentos, então, se voltaram para ela. Mel. Sua ausência no quarto quando acordei pela manhã me dizia que ela deveria estar furiosa comigo. Eu não tirava a sua razão. Se ela tivesse feito o que eu fizera, certamente eu estaria mais do que furioso. Estaria totalmente histérico, querendo gritar e bater em tudo e em todos à minha frente. Eu só podia esperar que ela quisesse me ouvir quando eu a procurasse. Eu pediria desculpas, com certeza. Rastejaria aos seus pés, se necessário. Eu só não poderia ficar longe dela por mais tempo. Seria insuportável.
A enfermeira já tinha passado em meu quarto e recolhido tudo assim que tive alta. Eu só precisava tomar um banho antes de sair e ir para casa de vez. Meu pai ainda não tinha voltado, talvez estivesse visitando algum paciente enquanto me esperava. A água quente do chuveiro trazia um pouco de alívio para as minhas costas doloridas enquanto eu permanecia imóvel sob o jato abundante.
Abri a porta do banheiro depois de me vestir e a visão da mulher deitada sob o leito do hospital fez meu coração se aquecer. Mel estava quietinha, de costas para mim, me esperando sair do banho. Senti um enorme alívio por saber que ela não estava com raiva pelo que eu tinha feito, mas esse alívio foi imediatamente substituído pela preocupação ao perceber seu corpo ser sacudido por um leve soluço. Mel estava chorando.
Corri até ela, sentindo minhas costas protestarem pelo esforço extra, mas nada mais me importava. Deitei-me na cama abraçando o seu corpo por trás, sentindo o perfume que exalava da sua pele penetrar minhas narinas, infiltrando-se em minha corrente sanguínea e levando vida para cada célula do meu corpo.
_ Hey, amor? Está chorando por quê? – sussurrei com lábios colados em seu ouvido enquanto apertava o seu corpo contra o meu.
Mel suspendeu a respiração de repente e virou o rosto em minha direção, seus lindos olhos azuis arregalados como se ela não esperasse me encontrar ali. Ela não dizia nada, apenas olhava o meu rosto como se tentasse decorar cada pedaço dele. Sua mão tocou levemente a minha pele, provocando uma sensação deliciosa em todo o meu corpo. Fechei os olhos apreciando o carinho enquanto Mel desenhava os traços do meu rosto com as pontas dos dedos delicados. Sua voz baixinha me trouxe de volta à realidade.
_ Você está aqui! – ela disse com um sorriso lindo nos lábios. – Por um momento eu pensei que estivesse enlouquecendo, que você fosse uma ilusão!
_ Por que você pensou isso? – perguntei confuso enquanto acariciava o seu rosto ainda molhado pelas lágrimas.
_ Eu ouvi uma conversa dos meus pais em que eles falavam de alguém que estava em estado grave, que tinha poucas chances de sobrevivência. Eles estavam combinando de me esconder a verdade e eu achei .... – as lágrimas voltaram com força e ela não conseguiu continuar, mas eu já sabia o que ela tinha pensado.
_ Amor, não chore! Está tudo bem, eu estou aqui com você! – eu tentava enxugar o seu rosto, mas novas lágrimas substituíam as outras.
_ Eu tive tanto medo! – ela dizia entre soluços.
_ Shh ... Já passou, docinho! Está tudo bem agora! Se acalme... shh....! – eu dizia baixinho enquanto ela se virava de frente para mim e me abraçava forte, repousando a cabeça em meu peito.
Meus braços a envolveram em um abraço apertado, colando ainda mais os nossos corpos, enquanto minhas mãos acariciavam os seus cabelos. Deixei que ela chorasse, que extravasasse aquela angústia que ela tinha sentido. Ela precisava colocar aquilo tudo para fora e eu não podia fazer nada além de ampará-la. Fechei os olhos e esperei que ela se acalmasse.
Algum tempo depois, senti o seu olhar novamente em meu rosto. Abri os olhos e encarei o seu rostinho cansado. Ela não disse nada. Apenas ergueu o rosto em minha direção e, de repente, meus lábios estavam ocupados demais para que qualquer palavra fosse pronunciada. Sentir o seu gosto novamente foi como recuperar o fôlego depois de uma eternidade debaixo d’água. Meu sangue circulava novamente ligeiro por minhas veias, levando o oxigênio que alimentava cada célula do meu corpo. Sentir o calor do corpo de Mel colado ao meu me fez querer não sair mais daquele quarto. Eu queria permanecer junto dela, na nossa bolha, onde nada nem ninguém poderia nos atingir, onde tudo o que realmente importava éramos nós dois.

Narrado por Melinda

Eu me encontrei novamente ao sentir o sabor do beijo de Brian. O calor do seu corpo me fortalecia. A suavidade do toque dos seus dedos na minha pele me enchia de amor. Seus lábios movendo-se em harmonia com os meus me davam coragem de enfrentar o mundo. De repente, me dei conta de que eu estava completamente curada. O medo de perdê-lo tinha superado milhares de vezes o medo que eu sentira de Mark.  E esse medo não existia mais. Mark não era mais uma ameaça para mim e eu sabia que seria até mesmo capaz de enfrentá-lo para garantir que Brian jamais saísse da minha vida.  O seu lugar era ao meu lado, com o seu corpo colado ao meu, com os seus lábios acariciando gentilmente os meus e com suas mãos percorrendo a minha pele me causando arrepios de desejo. Quanto a mim, eu não tinha dúvidas de que meu coração, meu corpo e minha alma pertenciam àquele homem e de que o que eu mais queria era ficar para sempre em sua vida ... em seus braços.

domingo, 27 de novembro de 2011

Capítulo XXVI - Preocupações



                                    
Narrado por Bella

Sofia ainda chorava nervosa nos braços de Seth, que me olhava ansioso, enquanto eu tentava aferir a sua pressão. Minhas mãos trêmulas mal conseguiam segurar o aparelho e minha mente se dividia entre a preocupação com a minha filha grávida e o meu filho maluco que perseguia um delinqüente em alta velocidade. Sofia precisava se acalmar. Todo aquele estresse poderia desencadear algo muito mais grave se ela não recuperasse o controle. Lembrei-me da crise de hipertensão que tive quando estava grávida dela e meu coração saltou no peito com medo. A história parecia estar se repetindo e a angústia que invadia o meu peito agora era muito maior do que a daquela época. Era a minha filha ali, trêmula ... assustada ... vulnerável. Doía insuportavelmente em mim vê-la daquele jeito. Eu queria poder transferir tudo aquilo para mim para que ela ficasse bem.
Embora o coração de Sofia estivesse muito acelerado, a pressão estava normal, graças a Deus! Pude respirar um pouco mais calma por saber que não havia nada de errado com ela. A expressão aliviada em meu rosto pareceu dar ao olhar angustiado de Seth a resposta que ele tanto esperava. Era visível a preocupação em seu rosto. Seus braços apertavam Sofia com tanta força junto a ele que eu tinha a impressão de que ela mal conseguia respirar. Uma leve piscada de olho foi o que bastou para que ele relaxasse um pouco. Seth fechou os olhos soltando um suspiro profundo, beijou demoradamente o topo da cabeça de Sofia recostada em seu peito enquanto uma de suas mãos descia carinhosamente para o seu ventre, acariciando-o, como se ele conversasse em silêncio com o filho, dizendo que tudo estava bem, que o papai estava ali e que nada de ruim aconteceria. Eu observava a forma como ele cuidava da minha menina. Seth tinha nos olhos o mesmo olhar de adoração que Edward me dava todos os dias, a mesma paixão desesperada, o mesmo amor incondicional. Ele seria até mesmo capaz de se jogar na frente de uma bala por ela, disso eu tinha certeza. E era essa certeza de que ele faria qualquer coisa para protegê-la e para fazê-la feliz que me deixava tranquila. Se um dia Edward e eu faltássemos, ela não ficaria sozinha, teria alguém para apoiá-la e ajudá-la a seguir em frente.
Aos poucos, Sofia começou a se acalmar. Seu choro, antes convulsivo e preocupante, agora não passava de pequenos soluços seguidos de leves tremores pelo corpo. Depois de mais alguns minutos, todo o nervosismo pareceu se converter em cansaço. Ela começou a ficar sonolenta, seu corpo amolecendo nos braços de Seth que me olhou mais uma vez assustado antes de entender o que se passava. Ele se deitou na cama levando consigo o corpo de Sofia aninhado ao seu. Ela aconchegou a cabeça em seu peito, abraçando sua cintura ... adormecendo logo em seguida.
Meus pensamentos, de repente, se voltaram para Brian. Onde ele estaria naquele momento? Estaria bem? Deus do céu! Meu coração de mãe parecia não ter descanso. Eu precisava ter notícias de Brian ... meu menino ... meu eterno anjinho. Levantei-me cuidadosamente da cama sob o olhar atento de Seth, peguei minha maleta e caminhei em direção à porta.
_ Cuida dela para mim? – sussurrei um pedido a Seth que apenas assentiu silenciosamente, envolvendo ainda mais o corpo adormecido de Sofia em seus braços protetores.
O semblante sereno de minha filha me deu a coragem que eu precisava para sair daquele quarto e ir à busca do meu outro filho. Eu podia ouvir a televisão ligada no andar de baixo transmitindo alguma notícia que parecia urgente. Desci as escadas que davam para a sala depois de deixar minha maleta em meu quarto e meu coração se sobressaltou com o grito que saiu rasgando a garganta de Mel, no exato momento em que eu entrava na sala. Fiquei congelada ali por alguns segundos, olhando para a tela da TV enquanto os meus olhos reconheciam o carro que acabara de se chocar violentamente contra vários outros no meio de uma estrada. Levei as mãos à boca, sufocando o grito desesperado que tentava se libertar. Eu já podia sentir o meu peito sendo rasgado pela dor e pelo medo de que algo horrível tivesse acontecido com o meu menino.
Meus olhos inundados pelas grossas lágrimas que já se acumulavam não me permitiram distinguir o vulto que se aproximava de mim. Eu tinha a leve impressão de que mãos macias tocavam o meu rosto e uma voz suave e rouca dizia alguma coisa em meus ouvidos, algo que eu já não era capaz de compreender. Meus olhos não se despregavam da tela da TV. Eu precisava ver o meu filho abrindo a porta do carro e saindo de lá caminhando ... inteiro ... bem.
A voz rouca em meus ouvidos aos poucos foi se tornando ansiosa e angustiada. Senti meu corpo sendo levemente sacudido por mãos firmes que seguravam os meus ombros. Relutante, desviei o olhar da TV na direção daquela voz. O olhar sofrido de Edward me trouxe de volta à realidade.
_ Bella, amor? Fala comigo, por favor? – ele me pedia com a voz embargada.
Eu queria dizer alguma coisa, qualquer coisa que fizesse aquele olhar deixar o seu rosto, mas não conseguia encontrar a minha voz. Meus olhos esquadrinhavam cada pedacinho perfeito do seu rosto, deixando por último a parte que me prenderia indefinidamente: seus lindos olhos azuis. Olhos que agora estavam revestidos de angústia. Angústia por mim ... angústia por Sofia ... angústia por nosso anjinho. O pensamento em nosso filho imediatamente disparou a minha voz.
_ Brian! – eu disse em um sussurro.
Fechei os olhos não suportando mais a ideia de olhar para aquela TV. Senti os braços de Edward envolverem o meu corpo em um abraço sufocante, sua mão apertando a minha cabeça contra o seu peito enquanto eu ouvia o seu coração batendo forte e disparado contra o meu rosto. Eu me apertava a ele em busca de força enquanto ele sussurrava palavras de conforto em meus ouvidos.
_ Vai ficar tudo bem, amor! Ele vai ficar bem! – ele me prometia tentando me passar confiança mesmo que o leve tremor em sua voz me dissesse que ele não estava tão seguro assim.
Edward envolveu o meu rosto com ambas as mãos me obrigando a olhar novamente em seus olhos.
_ Eu preciso ir agora, Bella! Eu preciso ir buscar o nosso filho! – ele disse.
Eu via a luta que ele travava consigo mesmo. Ele tinha que ir atrás de Brian, mas estava inseguro de me deixar para trás.
_ Eu vou com você! – consegui dizer com algum esforço.
_ Não, amor! – tentei contestá-lo, mas ele me impediu – Bella, eu preciso que você seja forte, por favor! Amor, fique aqui em casa. Sofia pode precisar de ajuda. Eu não vou ficar tranquilo se nós dois sairmos agora, por favor!
Ele estava certo. Eu tinha que ficar, mas a expectativa de me afastar dele naquele momento, mesmo que fosse por um motivo tão forte como socorrer o nosso filho, me assustava. Apertei-me contra o seu corpo mais uma vez antes de soltá-lo.
_ Tome cuidado e traga o nosso anjinho de volta! – consegui finalmente dizer com a voz mais firme depois de respirar profundamente.
Ele me deu um sorriso triste antes de encostar os seus lábios levemente nos meus.
_ Promete que vai ficar bem? – ele me olhava preocupado.
_ Vai tranquilo, Edward! Eu cuido dela enquanto você estiver fora! – a voz de Emmett veio do meio da sala onde ele abraçava Mel.
Em meu desespero, eu sequer tinha percebido a presença dele ali. Voltei o meu olhar para Edward que ainda esperava a minha resposta. Apenas assenti com a cabeça sem ter a certeza de que a minha voz sairia firme o suficiente. Edward espremeu seus lábios contra os meus em um beijo intenso antes de virar as costas e sair sem olhar para trás. No exato momento em que ele passou pela porta e sumiu do meu campo de visão, eu me senti vazia. Algo me atraía na direção daquela porta, me atraía para fora de casa. Minhas pernas se moveram na direção da saída, me levando para a garagem onde Edward já abria a porta do carro.
_ Edward? – eu o chamei sem conseguir disfarçar o medo em minha voz.
Ele se virou depressa, talvez alarmado com o tom estranho em minha voz. Corri até ele e me atirei em seus braços que me apertaram contra o seu corpo.
_ Me promete uma coisa? – ele assentiu em resposta - Volta para mim?
_ Sempre! – ele me prometeu.
Meu coração batia descompassado no peito ao ver Edward entrar no carro e sair de casa apressado. Meu olhar ainda se prendeu ao dele uma última vez pelo espelho retrovisor antes que o carro desaparecesse de vez. Abracei-me ao meu corpo com medo do que viria. Não sei quanto tempo fiquei ali, parada na calçada encarando o ponto exato onde o carro de Edward tinha desaparecido, até que senti meu corpo ser abraçado pelos braços delicados de Mel. Ela me encarava com os olhos vermelhos e inchados pelo choro embora se esforçasse para segurar as lágrimas que teimavam em cair. Aquela expressão sofrida em seu rostinho de anjo finalmente liberou as lágrimas que eu tinha tentado evitar. Abraçamo-nos ali, no meio da rua, tentando passar para a outra uma força que já não tínhamos. Braços fortes e protetores nos envolveram em um abraço carinhoso. Emmett estava ali ... nos protegendo ... nos amparando ... cuidando de nós... cumprindo a promessa que fizera ao irmão.

Narrado por Edward

        Eu dirigia como um louco em direção ao hospital. A expressão de medo e dor no rosto de Bella ainda me assombrava. Parecia que, desde Michael, cada geração da minha família       estava condenada a sofrer com a perseguição de um psicopata. Que inferno! Por que diabos Brian tinha que pegar aquele carro e sair como um maluco atrás daquele marginal? Como ele podia ser tão irresponsável a ponto de arriscar a própria vida daquele jeito? Meu coração batia forte e descompassado em meu peito. Chegava a doer. Eu sentia um medo paralisante, mas tinha que me forçar a reagir. Meu filho precisava de mim.
Jake já me esperava na porta do hospital quando estacionei o carro. A ligação que eu havia feito enquanto dirigia para lá nos fez ganhar tempo. O helicóptero nos esperava no terraço do prédio com os motores ligados. Eu tinha que dar o braço a torcer. Emmett tinha feito um grande negócio ao comprar aquilo no mês passado. Se não fosse pela sua insistência quando fui terminantemente contra a compra daquele trambolho, agora eu levaria horas para chegar até o meu filho. As palavras de Emmett ecoavam em minha memória: “A gente nunca sabe quando vai precisar socorrer alguém em um lugar remoto, Edward!”. Parecia até ironia o fato de que o vôo inaugural do helicóptero de resgate fosse justamente para socorrer o meu filho. Eu tinha que me lembrar de agradecer ao meu irmão por ter sido tão chato naquela época.
_ Como você está, Edward? – a voz de Jake me trouxe de volta dos meus pensamentos enquanto o helicóptero decolava.
_ Sinceramente? Eu ainda não sei! – respondi com sinceridade.
Eu me sentia meio perdido. Não tinha sido fácil deixar minha filha e minha mulher para trás, sabendo que elas precisavam de mim. Mas eu tinha que definir prioridades, usar a razão ao invés da emoção. Sofia tinha Seth ao seu lado e, qualquer coisa que ela sentisse, ela teria Bella ou até mesmo Rose, na casa logo ao lado, para socorrê-la. Emmett tinha me prometido cuidar de Bella e eu sabia que ele não quebraria a promessa. Naquele momento, Brian era quem mais precisava de ajuda. Pelo menos era nisso que eu me agarrava para não me sentir culpado por ter deixado Bella para trás.
O leve solavanco do helicóptero pousando no meio da estrada me tirou dos meus pensamentos. A viagem, que de carro levaria horas, para o meu alívio, tinha levado apenas alguns minutos. Jake já descia carregando o equipamento de primeiros socorros enquanto eu tentava fazer o meu corpo me obedecer. Uma ambulância estava parada próxima a um carro capotado, um pouco mais adiante, mas eu não me interessava pelo que pudesse ter acontecido com aquele imbecil. Meu coração bateu espremido no peito ao chegar perto do carro de Brian. De perto, a cena era muito mais assustadora do que pela TV. O lado direito do carro tinha sido amassado como uma latinha de refrigerante, as ferragens se contorcendo até pararem bem próximas ao banco do motorista.
Os policiais abriram caminho para que nós passássemos com a maca. Um paramédico canadense já havia imobilizado o pescoço de Brian que trazia no rosto uma expressão de dor. A ausência de sangue indicava que ele não estava gravemente ferido, pelos menos não externamente. Eu já tinha entrado do modo médico, conseguia avaliar com certa distância o estado de Brian enquanto Jake e o paramédico o imobilizavam totalmente antes de retirá-lo do carro.
A maca já deslizava pelo asfalto em direção ao helicóptero quando a voz baixa Brian chegou aos meus ouvidos me fazendo um pedido surpreendente.
_ Pai? Traz o Mark com a gente? – ele pediu – Por favor?
Olhei para ele confuso. Ele pareceu ler a minha expressão antes de insistir.
_ Por favor, pai! Depois eu explico!
Troquei um olhar com Jake que assentiu concordando com Brian. Caminhei a contragosto em direção à ambulância que aguardava a maca que levaria Mark. Conversei com o médico responsável e o convenci a deixar que levássemos o paciente conosco no helicóptero.  Seu estado era grave e ele precisava chegar a um hospital o mais rápido possível. Acho que foi isso que fez com que o médico concordasse em entregá-lo a mim.
O helicóptero levantou vôo assim que a maca de Mark foi colocada em seu interior. O pulso fraco parecia avisar que não resistiria por muito tempo. Brian mantinha os olhos fixos em meu rosto enquanto eu segurava a sua mão.
_ Por que, filho? - perguntei dando apenas uma rápida olhada na direção de Mark antes de encará-lo de novo.
Brian respirou profundamente, fazendo uma careta de dor antes de me responder.
_ Se ele sobreviver, eu quero que ele esteja nos Estados Unidos. Se a ambulância o tivesse levado para o Canadá, ele poderia ter a chance de fugir antes que conseguíssemos a sua extradição. Eu o quero aqui, debaixo dos nossos olhos. Eu quero que ele pague pelo que ele nos fez.
Eu podia sentir o ódio fervilhando por baixo da falsa imagem de calma que ele tentava passar. Uma coisa era certa: se Mark sobrevivesse, Brian se certificaria de que ele iria pagar por seus erros, ainda que isso significasse montar guarda 24 horas por dia na porta da UTI.
Todo o corpo médico da emergência nos aguardava no terraço do hospital quando o helicóptero pousou em Edmonds. Depois de várias radiografias, tomografias e de todos os exames possíveis eu pude respirar com tranquilidade. Brian estava bem. Milagrosamente, ele havia escapado daquele acidente apenas com uma distensão muscular nas costas. Ainda assim, passaria a noite no hospital em observação. Mark já não tivera tanta sorte. Além dos ferimentos externos, ele tinha vários ossos fraturados, costelas quebradas que ameaçavam perfurar órgãos vitais e as chances de sobrevivência ficavam menores na medida em que o tempo passava.
Assim que Brian estava instalado em um quarto, liguei para casa. Bella atendeu no primeiro toque, a voz ansiosa e ainda chorosa fazendo meu coração saltar no peito. Com muito custo consegui convencê-la a ficar em casa. Eu passaria a noite no quarto com Brian e ela viria logo pela manhã. Ficamos conversando no telefone por incontáveis minutos, sem coragem de desligar.  Ouvir o som da sua voz me devolvia o equilíbrio, dava sentido à minha vida, me dava forças para me levantar todos os dias e enfrentar quaisquer dificuldades que pudessem surgir. O estresse do dia começou a dominar o meu corpo e um cansaço sem precedentes tomava conta de mim. Voltei para o quarto onde Brian dormia depois de tomar um medicamento para a dor. Sentei-me na poltrona ao seu lado e fiquei olhando o seu rosto sereno. Lembrei-me do dia em que ele sofreu a cirurgia de apêndice. Se naquela época eu pensei que nunca sentiria um medo tão grande de perdê-lo, agora eu pensava diferente. Nada iria superar o medo que eu tinha sentido mais cedo. Medo de nunca mais poder olhar no rosto do meu filho, de nunca mais vê-lo sorrir, de nunca mais ouvir a sua gargalhada. Meu peito estava apertado como se um bloco de concreto o esmagasse. Recostei-me na cadeira e olhando para o rosto do meu filho, fiz a única coisa que estava ao meu alcance para aliviar aquela pressão: chorar.