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Juiz de Fora, Minas Gerais, Brazil
Apesar de ser mestre em Linguística e ter toda a minha vida acadêmica voltada para o ensino de línguas, sempre fui amante da literatura, devoradora de livros, filmes e séries. Sempre tive um sonho: escrever. Durante muito tempo, o medo de fracassar me impediu de realizar esse sonho, mas uma grande amiga me incentivou e me deu a coragem de enfrentar meus fantasmas e graças a ela eu hoje posso dizer que me sinto uma pessoa melhor, mais confiante e absolutamente ciente do meu potencial.

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sábado, 9 de junho de 2012

Capítulo XXX – À espera de um anjo


Capítulo XXX – À espera de um anjo

Narrado por Seth

A luz do sol se infiltrava levemente pelas frestas da cortina trazendo uma suave claridade ao quarto. Ao meu lado, um anjo de cabelos dourados dormia tranquilamente. Meus olhos não se cansavam de admirá-la. A pele ainda levemente bronzeada pelo sol da Grécia brilhava como ouro, sedosa ... macia ... irresistível. Era impossível não querer tocá-la nem que fosse para ter certeza de que ela era real. Às vezes, eu sentia como se estivesse vivendo um sonho. Tocá-la, sentir o seu perfume, a maciez da sua pele, o sabor dos seus lábios e a temperatura do seu corpo eram as únicas coisas que me diziam que aquilo tudo era verdade. Não sei dizer o que eu fiz de bom nessa vida ou em alguma outra que eu possa ter vivido. Eu só sei que esse prêmio, o amor dessa mulher e esse filho que estava a caminho eram muito mais do que eu merecia. Eu mal conseguia acreditar que já estávamos casados havia dois meses. Sessenta dias em que eu experimentava a mais pura felicidade, algo que eu jamais pensara ser possível até conhecer Sofia.
Hipnotizado, eu assistia o movimento tranquilo do seu peito subindo e descendo conforme ela respirava. Na mão esquerda, pousada protetoramente sobre o ventre agora alterado pela gravidez, a aliança brilhava sob o reflexo do sol. O rosto delicado, de traços tão perfeitos trazia um leve sorriso, uma expressão serena que me fazia querer olhá-la pelo resto do dia. Mas as minhas mãos pareciam ter vontade própria e seguiram para o ventre inchado pelos cinco meses de gestação. Nosso filho se mexeu, como se reconhecesse o meu toque. Eu nunca conseguia segurar o sorriso bobo e meu coração sempre se acelerava no peito quando isso acontecia, agora mais do que nunca, principalmente depois do susto que tomamos há duas semanas.
Sofia e eu tínhamos acabado de fazer amor. Como sempre, tudo tinha sido muito arrebatador. Por mais que soubéssemos que tínhamos que tomar certos cuidados e não exagerar, era difícil, eu diria quase impossível, controlar a urgência e a força do desejo que tomava conta de nós. Bastava que as nossas peles se tocassem levemente para que o fogo tomasse conta dos nossos corpos. Eu sei que deveríamos ter pensado nas possíveis consequências de uma entrega tão intensa, tão vigorosa, mas simplesmente enlouquecíamos ao mais leve toque.
Eu ainda tentava controlar a minha respiração enquanto o meu coração tentava retornar ao seu ritmo normal. Sofia descansava a cabeça em meu peito e parecia lutar para que o ar enchesse os seus pulmões. O rosto gloriosamente suado estampava um sorriso de tirar o fôlego e isso me bastava: saber que ela estava feliz, satisfeita, plena.
Fechei os olhos e a visão do seu corpo se movendo sinuosamente sobre o meu, exalando sensualidade, me tirando de órbita cada vez que ela descia me encaixando dentro dela, apareceu por detrás das minhas pálpebras, provocando uma reação imediata no meu corpo. Senti mãos pequenas e macias descendo pelo meu abdome ... me provocando .. e as impedi antes que chegassem ao seu destino.
_ Fugindo da raia, amor? – a voz suave de Sofia saiu cheia de humor.
_ Não, princesa. Só estou tentando pegar leve e não machucar você. Você sabe que me tira do sério e se eu não me controlar ... – eu respondi ainda tentando controlar a sua mão que insistia em chegar lá.
Ela estava evidentemente se divertindo com aquele jogo. Essas brincadeiras já tinham se tornado parte da nossa rotina, mas nem por isso deixavam de ser deliciosas. Sua mão agora subia pelo meu peito enquanto ela erguia o corpo e se sentava sobre os meus quadris, se curvando sobre o meu corpo para me beijar. Os cabelos dourados e cheirosos caiam em volta do rosto como uma moldura perfeita feita sob medida para um quadro raro. Minhas mãos subiram automaticamente pelos seus quadris, acariciando as suas costas até que meus dedos se emaranharam em seus cabelos, puxando o seu rosto mais para perto de mim. Sentei-me na cama com o corpo da minha mulher totalmente colado ao meu. Seus quadris já serpenteavam sobre os meus, me deixando louco. Sofia se levantou levemente e desceu novamente se encaixando em mim de uma forma que fez o ar dos meus pulmões sair em uma única lufada. A partir daquele momento, eu perdi completamente a noção de tempo e espaço, não sabia onde eu estava, quem eu era ... não me lembrava nem mesmo do meu nome. Eu só conseguia sentir as sensações maravilhosas que ela me provocava ao se mover sobre mim, ao ouvir os seus gemidos, a sua voz chamando o meu nome ... até explodir de uma forma inacreditavelmente intensa, minha mente mergulhando no mais absoluto vácuo por alguns instantes enquanto o meu corpo ainda convulsionava de prazer.
Eu teria ficado naquele estado por muito mais tempo se algo na voz de Sofia não tivesse me despertado para a realidade.
_ Seth! – o tom assustado de sua voz me fez abrir os olhos.
Seu rosto aterrorizado fez o meu sangue congelar nas veias. Sofia olhava para o meu corpo com os olhos marejados e os lábios trêmulos. Desci o olhar para onde, havia poucos instantes, estivéramos conectados e arfei de susto. Meu quadril estava manchado de vermelho. Não foi preciso mais do que dois segundos para que eu entendesse o que estava acontecendo: Sofia estava sangrando. Olhei de volta para ela e meu coração deu um enorme salto em meu peito. Ela tinha levado a mão ao sexo e olhava apavorada para seus dedos ensanguentados. Seu corpo se sacudia com o choro descontrolado e seus olhos azuis me olhavam como se implorassem por ajuda.
_ Fique calma, amor! Vai ficar tudo bem, eu estou aqui! – eu dizia enquanto a carregava nos braços para o banheiro.
_ Seth ... – sua voz estrangulada pelas lágrimas era quase inaudível.
_ Shhhh ... amor! Fique quietinha! Nós vamos para o hospital, mas antes eu preciso ajudar você a se limpar. – eu tentava acalmá-la, mas eu mesmo estava apavorado com a visão daquele sangue.
 Sofia agora chorava silenciosamente e aquilo cortava o meu coração. Eu me sentia péssimo só em pensar que poderia ter machucado o nosso filho. Jamais me perdoaria se algo acontecesse com ele. Como eu poderia olhar no rosto de Sofia e ver a mágoa ou o ódio em seus olhos sabendo que eu teria ... Não. Eu não podia deixar aquele pensamento se instalar na minha cabeça. Eu precisava me manter sobre controle para ajudar a minha mulher e o meu filho.
Ajudei Sofia a se trocar e me lavei rapidamente jogando qualquer roupa sobre o corpo. Carreguei minha mulher nos braços até o carro, colocando-a no banco de trás o mais confortavelmente possível. Sofia ainda chorava assustada e eu sentia os meus músculos rígidos como rocha, resultado da tentativa constante de manter o controle diante dela. Dirigi praticamente no piloto automático até o hospital. Agora, tentando rever todo o trajeto, eu não saberia dizer como cheguei lá, por quais ruas passei. Naquele momento, eu só sabia uma coisa: eu precisava achar um médico, alguém que me ajudasse a salvar o meu filho.
_ Está sentindo alguma dor, amor? – perguntei preocupado enquanto a carregava nos braços para dentro do hospital.
Sofia negou com a cabeça. Ela não conseguia falar. Estava apavorada com a possibilidade de termos machucado o nosso menino. Uma enfermeira nos trouxe uma maca assim que me viu entrando com Sofia nos braços. A partir daquele momento, tudo se passou como um borrão. Não me lembro de detalhes, acho que a minha mente bloqueou algumas partes para que eu não enlouquecesse. Foram horas e horas entrando e saindo de salas de exames, soros, coletas de sangue, ultrassonografias e uma parafernália de coisas até que alguém me dissesse o que tinha acontecido.
_ Bem, meninos, os resultados dos exames já estão em minhas mãos. – Rosalie disse em um tom de voz tão sério que me deixou preocupado – Eu quero que vocês entendam que, apesar do sangramento, o bebê está bem. A hemorragia foi causada por um vasinho que se rompeu no interior da vagina por causa da penetração.
_ Mas isso não pode prejudicar o nosso filho, tia?- a voz de Sofia saiu rouca pelo choro.
_ A quantidade de sangue perdida foi muito pouca para que ele corresse algum risco. Fiquem tranquilos! – ela respondeu com um sorriso sereno que me tranquilizou um pouco.  - Eu só preciso que vocês tenham em mente que, a partir de agora, vocês vão precisar se conter um pouco na hora de ter relações. Eu sei que, como um casal jovem, apaixonado e casado há poucos meses, vocês querem se curtir intensamente. Não é preciso ficar com medo de fazer amor, mas certas estripulias devem ser evitadas para evitar novos sangramentos, vocês me entendem?
Assentimos em silêncio. Sofia apertava a minha mão com uma força extraordinária. Ela ainda estava tensa e eu acariciava o seu cabelo com a mão livre tentando acalmá-la. Rosálie ainda nos passou mais algumas recomendações antes de sairmos do seu consultório. Ao sairmos do consultório, toda a família nos aguardava preocupada na sala de espera. A notícia de que Sofia tinha dado entrada no hospital com hemorragia tinha se espalhado feito rastilho de pólvora. Edward e Bella, Tio Jake e tia Leah, Carlisle e Esme, Brian e Mel, Ashley, Nikki e as crianças, todos estavam lá. Edward e Bella correram para a filha assim que saímos. Tio Jake e tia Leah nos olhavam preocupados, ainda sem saber que Sofia e o bebê estavam bem. Brian e Mel nos olhavam ansiosos à espera de notícias. Emmett apareceu correndo, de repente, com os olhos arregalados pelo susto e foi acalmado por Rosalie que explicou a todos o que tinha acontecido. Ele abraçou Sofia com tanta força que, por um momento, eu achei que fosse quebrar os seus ossos. Era engraçado ver como um homem tão grande e forte como Emmett se tornava frágil diante das mulheres da família. Eu seria capaz de jurar que ele se esforçava para não chorar na frente de todos. Mas, caso isso acontecesse, quem poderia julgá-lo? Eu mesmo tive vontade de gritar feito um bebê assustado ao ver a minha mulher sangrando e chorando desesperada! O fato é que a união, marca inconfundível das nossas famílias, nos dava segurança e, principalmente, coragem para enfrentar todos os obstáculos.
A partir daquele dia, os cuidados com a saúde de Sofia foram redobrados. Eu percebia que às vezes eu a sufocava um pouco. Meu pânico de vê-la daquela forma novamente me levava a exagerar de vez em quando. Durante dias, eu não permiti que ela saísse da cama, mesmo que Rosalie não tenha dito que ela deveria fazer repouso absoluto. Também evitei tocá-la com medo de que ela voltasse a sangrar. Somente na noite passada, depois de uma conversa franca em que eu expus os meus medos para Sofia, foi que nós voltamos a fazer amor. Mas, ainda que tenhamos nos amado de forma mais calma e serena, a sensação de tê-la unida a mim de uma forma tão completa foi tão forte que trouxe lágrimas aos meus olhos.
Dormimos, como sempre, agarrados um ao outro ... a cabeça de Sofia descansando em meu peito ... nossas pernas entrelaçadas ... meus braços a envolvendo protetoramente. Era a melhor sensação do mundo ter os dois assim ... protegidos em meus braços, aquecidos e amados acima de qualquer coisa nessa vida. O rosto sereno de Sofia me trazia uma paz que eu jamais pensei que fosse possível sentir. Minhas mãos, agora levemente pousadas sobre o seu ventre, sentiam o nosso menino se mexer ... cheio de vida e de saúde ... forte como um touro e a salvo de qualquer perigo. Ele chegaria dentro de quatro meses e a ansiedade para ver o seu rostinho de anjo era imensa. Eu tinha certeza de que ele se pareceria com a mãe, seria lindo e perfeito como ela, fazendo de mim o papai mais feliz e coruja do mundo. E quando ele finalmente chegasse, a nossa vida, que já era maravilhosa, ficaria inacreditavelmente mais perfeita.
Eu estava tão distraído com os meus pensamentos que não notei um par de olhos azuis, brilhantes e apaixonados me observando. Somente quando as mãos macias acariciaram o meu rosto foi que eu pude novamente perceber como ela ficava ainda mais linda a cada manhã. Por alguns minutos e simplesmente mergulhei naquele mar azul e me afoguei no mais absoluto amor, mas lábios quentes e macios me trouxeram de volta à tona somente para depois me transportarem para um mundo mágico, de onde eu não queria sair jamais.

Narrado por Sofia

Eu ainda sentia que Seth estava assustado com o que tinha acontecido há duas semanas. O fato é que eu e o nosso filho estávamos ótimos, mas acho que eu o tinha assustado tanto que ele vivia tentando se refrear. Por dias, eu percebi que ele se culpava pela hemorragia, como se ele tivesse sido o único responsável. Somente ontem à noite, quando conversamos e expusemos os nossos medos e ansiedades, eu pude compreender como ele realmente se sentia. Seth sempre foi muito protetor em relação a mim e ficou ainda mais cuidadoso depois que engravidei. Quando eu sangrei depois de fazermos amor, ele sentiu que tinha falhado comigo, sentiu que não tinha sido capaz de proteger o nosso filho. Foi difícil convencê-lo de que nós estávamos bem e em segurança. Eu sentia uma falta insuportável de fazer amor com ele, embora compreendesse o motivo da sua hesitação.
Fazer amor com Seth era sempre maravilhoso, mesmo que ele ainda estivesse receoso e tentasse se refrear o tempo todo. Para um homem tão vigoroso que sempre perdia o controle ao me amar, eu podia imaginar o esforço enorme que ele tinha que fazer para se conter. E isso me fazia amá-lo ainda mais. Saber que ele estava se sacrificando para garantir o meu bem estar e o de nosso filho. Seth seria capaz de fazer qualquer coisa por nós. Minha mãe costumava dizer que ele era tão intenso comigo quando o meu pai era com ela, sempre disposto a se jogar na frente de uma bala, se isso significasse que eu estaria segura e viva. Por isso e por muito mais, eu sempre me sentia angustiada ao ver uma ruga de preocupação em sua testa. A minha vontade era de envolvê-lo em uma redoma e protegê-lo dos seus medos e inseguranças. “Mas isso – ele dizia – é o meu trabalho, proteger vocês!”
Seth acariciava suavemente a minha barriga e não tinha percebido que eu o observava havia vários minutos. Ele parecia hipnotizado e o sorriso que trazia no rosto era lindo e sereno. Não resisti. Acariciei o seu rosto fazendo com que ele me olhasse. O amor que eu via naqueles olhos claros e quentes a cada vez que eles se voltavam em minha direção fazia de mim a mulher mais feliz e realizada do mundo. Os lábios estendidos no sorriso mais lindo do universo me convidavam a sentir o seu sabor. Eram como ímãs me atraindo ... me chamando. E eu, como uma mera mortal seduzida pela perfeição, não poderia deixar de ceder ao apelo daquela boca sensual e pecaminosa.
Senti o meu corpo ferver assim que o beijei. Minhas mãos inquietas percorreram o peito de Seth sentindo a sua pele se arrepiando na medida em que desciam para o seu abdome. Seth estremeceu e, por um breve momento, senti o seu corpo travar com a lembrança de que deveria se conter. Eu sabia que teria que ter paciência, mas tinha a certeza de que, aos poucos, ele se daria conta de que não iria nos machucar.
_ Nós estamos bem, amor! Não há perigo! – eu tentei tranquilizá-lo.
_ Princesa ... – ele ainda estava hesitante.
_ Shhhh ... está tudo bem, Seth! Só me ame! – eu implorei com a certeza de que ele não resistiria.
Um rugido angustiado foi a única resposta que ele me deu antes de atacar os meus lábios do jeito que só ele sabia fazer. Meu Seth selvagem e impetuoso estava de volta, suas mãos fortes apertando cada pedacinho do meu corpo, me lavando ao paraíso. Ainda que ele tenha conseguido se conter antes de estar dentro de mim, era maravilhoso saber que eu estava conseguindo fazer com que ele voltasse a se soltar. Nos amamos com calma, Seth a cada vez mais carinhoso e cuidadoso, sempre atencioso e me perguntando se eu estava bem ... se ele não estava me machucando ... se o bebê estava seguro ...
Seria um caminho lento e árduo trazê-lo de volta ao normal, fazê-lo entender que o que aconteceu naquele dia não foi sua culpa, mas eu tinha certeza de que, com amor e perseverança, eu o faria perceber que era dele que eu tirava forças para enfrentar todas as dificuldades que a vida me apresentava. Era por ele, e agora pelo nosso filho, que eu acordava todas as manhãs.  

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Capítulo XXX – Enfrentando os fantasmas




Narrado por Mel

Eu não sabia há quanto tempo estava de pé, parada diante daquela porta, com as mãos suadas e as pernas trêmulas sem realmente criar coragem de entrar. Toda a determinação que havia me arrancado da cama antes mesmo de amanhecer agora vacilava diante daquela porta fechada. Aquele pequeno pedaço de madeira pintada de branco que me separava de um dos meus piores pesadelos parecia se agigantar diante de mim. Ou será que era eu que me sentia pequena e insignificante, sendo novamente oprimida pelo medo de enfrentar os meus fantasmas?
Eu sabia que precisava vencer aquela barreira e enfrentar de vez aquela situação. Era o último passo para a cura total. A última etapa antes de encerrar aquele capítulo da minha vida para poder seguir em frente com tranquilidade. Eu sentia que aquilo era importante, que eu precisava fazer aquilo para me sentir livre para alçar novos voos, para crescer, para deixar de ser a menina sempre indefesa e assustada e me tornar a mulher que toma as rédeas de sua própria vida, alguém digno de estar ao lado de Brian como igual, não como sua eterna protegida. E tudo o que eu tinha que fazer era girar aquela maçaneta que parecia queimar a minha mão como carvão em brasa e atravessar aquela porta.
O quarto estaria mergulhado no mais absoluto silêncio se não fosse pelo monitor cardíaco que emitia o som de um bipe tranquilo e regular. Meus olhos ainda não haviam pousado sobre o seu rosto, estavam presos no chão claro e limpo. As paredes, de um verde claro calmante, eram igualmente limpas e ostentavam pequenos quadros com pinturas delicadas. Em um canto, numa pequena mesa branca, sobre um livro grosso e pesado repousava um terço de prata, ao lado de um vaso com flores frescas. Um lençol imaculadamente branco pendia de um dos lados da cama como se a pessoa que a ocupava o tivesse jogado de lado ao se levantar apressadamente. Por um momento, esse pensamento fez o meu coração disparar de medo e uma vontade enorme de correr dali e nunca mais voltar quase me fez desistir de tudo.
Obriguei-me a erguer os olhos e encará-lo de uma vez por todas. O rosto magro e abatido não possuía nem mesmo a sombra da beleza que ainda ostentava meses atrás. O corpo, antes vigoroso e de músculos bem definidos, agora jazia flácido e atrofiado sobre aquela cama. A força que ele um dia emanara havia sido reduzida a uma fragilidade assustadora.
Fechei os olhos, tentando acalmar as batidas do meu coração. Respirei fundo algumas vezes. Eu precisava vencer aquela tontura que ameaçava me dominar, precisava controlar o velho medo que se esgueirava como uma sombra dentro de mim tentando me envolver, me acovardar. As lembranças daquele dia horrendo tentavam a todo o momento me tomar, mas eu as reprimia com todas as minhas forças.
Abri os olhos e me forcei a encará-lo. Meu corpo inteiro se travou e eu senti a minha respiração suspensa ao vê-lo de olhos abertos. Olhos incrivelmente claros e tristes me encaravam de volta. Eu não saberia explicar porque, de repente, todo o meu medo se esvaiu. Pela primeira vez em muito tempo, aqueles olhos não me fitavam de forma debochada ou ameaçadora. Ao contrário, eles pareciam amedrontados e profundamente infelizes. Eu, que tinha ensaiado tantas coisas para dizer a ele, palavras duras e até cruéis que estavam entaladas em minha garganta, de repente estava muda, minha mente mergulhada no mais absoluto vazio diante daquela imagem deprimente.
_ Oi! – ele disse quebrando o silêncio.
Não respondi. Fiquei ali, calada, congelada, sem saber o que dizer.
_ Melinda, eu sei que você deve me odiar pelo que eu lhe fiz passar ... – sua voz soava fraca - ... mas eu queria lhe dizer algumas coisas!
Ele esperou alguns instantes por uma resposta que não veio.
_ Desde pequeno, eu vejo o meu pai se envolvendo com várias mulheres sem se entregar realmente a nenhuma. Eu não sei o que a minha mãe pensa disso, mas eu sei que ela sempre soube das escapadas dele. Ela se cala, talvez porque tenha medo dele, talvez porque tenha medo de confrontá-lo e perdê-lo. O fato é que ela finge que nada disso acontece e que o casamento deles é perfeito. Eu cresci em meio a mentiras e fingimentos, sendo ignorado pelo meu pai e mimado pela minha mãe. Eu sempre tive tudo de maneira fácil, nunca tive que lutar por nada na minha vida ... – ele disse me olhando nos olhos - ... e nunca tive quem colocasse limites nas minhas atitudes.
Ele parou um pouco, me encarando, talvez esperando que eu finalmente dissesse alguma coisa, mas eu não queria dizer nada.
_ Eu cresci achando que podia ter tudo o que quisesse e, por incrível que pareça, a única coisa que eu realmente quis com todas as minhas forças foi a que eu jamais tive: você. Eu sempre fui apaixonado por você, Melinda! Desde menino, eu sempre sonhei que um dia você iria corresponder ao que eu sinto por você e nós seríamos felizes de verdade. No seu aniversário de 16 anos, eu tinha passado a tarde toda ensaiando uma forma de pedir você para namorar comigo – ele sorriu de forma triste – mas quando eu a vi naquela boate, tão linda, tão sedutora ... chamando a atenção de tantos rapazes enquanto dançava ... eu simplesmente perdi a cabeça. Eu sei que eu não tinha direito nenhum sobre você, mas naquele momento eu só pensava em ter você e afastar qualquer outro homem que pudesse se aproximar. Eu já tinha bebido bastante e por isso eu agi daquela forma idiota. Quando o Brian me empurrou para longe de você e a abraçou, eu percebi que você estava apaixonada por ele. Eu nunca tinha sido rejeitado por nenhuma garota na minha vida e, sinceramente, eu não soube como lidar com aquilo. O ciúme e a raiva que tomaram conta de mim me levaram por um caminho perigoso. Eu comecei a beber todos os dias e tempos depois eu acabei me envolvendo com drogas...
Meus olhos se arregalaram com aquela confissão. Mark estava me surpreendendo mais a cada palavra dita. Antes de tudo, eu jamais imaginara que ele seria capaz de se abrir dessa forma, principalmente comigo. Seus olhos cravados em meu rosto estavam agora cheios de lágrimas.
_ Eu não conseguia encontrar uma forma de fazer com que você se interessasse por mim e isso me matava um pouco mais a cada segundo, a cada vez que você me rejeitava. No fundo eu acho que tinha consciência de que as minhas atitudes só pioravam as coisas, mas eu estava perdido e a cada “não” que eu recebia de você eu me afundava ainda mais na bebida e nas drogas...
Eu não queria mais ouvir aquilo tudo. Já me arrependia amargamente de ter entrado naquele quarto. Eu já não sabia se sentia raiva ou pena daquela criatura infeliz deitada no leito à minha frente. Uma imensa confusão de sentimentos tomava conta de mim, mas eu sabia que, se eu quisesse virar de vez aquela página, teria que aguentar até o fim.
_ Naquela noite em que eu provoquei o Brian na praça, eu sabia que vocês tinham ficado noivos ... eu tinha ouvido por acidente uma conversa entre a Nikki e a Ashley. Elas estavam frenéticas porque o Brian estava voltando para casa e ia pedi-la em casamento naquela mesma noite, num jantar na casa dos seus avós. Eu fiquei louco de ciúmes quando ouvi aquilo. Quando eu a vi sozinha na praça, eu estava totalmente chapado e acabei estragando tudo de novo.
Fechei os meus olhos me lembrando da angústia que eu tinha sentido ao achar que Brian teria acreditado nas mentiras que Mark dissera naquela noite. Meu coração bateu apertado no peito e eu não consegui segurar a lágrima que rolou dos meus olhos. Quando voltei a abri-los, Mark me olhava angustiado.
_ Desculpe! Eu não queria fazer você chorar. – ele disse sincero – Eu só queria que você soubesse o que me levou a agir da forma como eu agi. Eu não tenho palavras para expressar o quanto eu me arrependo de tudo o que eu fiz. Aquele dia no shopping não sai da minha cabeça. A imagem da sua prima caída, inconsciente no estacionamento me assombra até hoje. – uma grossa lágrima rolou dos seus olhos – Deus do céu, Melinda! Eu cheguei sequestrar você ... eu ia ... – ele não conseguiu terminar a frase.
Um choro convulsivo tomou conta do seu corpo. Ele chorou por muito tempo sem conseguir dizer uma palavra sequer. Era visível a culpa que ele sentia por todos os erros que tinha cometido.
_ ... Graças a Deus o seu pai chegou a tempo de me impedir de fazer aquela monstruosidade com você! – ele conseguiu dizer entre soluços – Quando o efeito da droga passou, eu me vi deitado em um lugar imundo no meio de várias pessoas fedidas e decadentes que eu nunca tinha visto na minha vida. Ali eu me dei conta da profundidade do buraco em que eu havia me atirado e do tamanho da merda que eu tinha feito não só com você, mas comigo também. Liguei para o meu pai, contei tudo o que eu tinha feito e pedi ajuda. Ele me internou em uma clínica de reabilitação para dependentes químicos. Lá eu participei de um grupo de terapia que me ajudou a perceber o quanto o meu amor por você era nocivo e doentio, o quanto as minhas atitudes me afastaram de mim mesmo e, principalmente, o quanto elas tinham feito você sofrer. Melinda, eu não estou querendo dizer que foram as drogas e o álcool que me tornaram a pessoa horrível que eu fui com você. O que eu estou tentando dizer é que eu já era uma pessoa ruim e que o vício só intensificou esse meu lado errado. Eu achava que os fins justificavam os meios, mas hoje eu sei o quanto eu estava errado ... Eu sei que eu não tenho o direito de lhe pedir perdão, mas se algum dia você acreditar em mim e achar que eu mereço o seu perdão ...
_ Mark ... – eu ia dizer que não sentia ódio dele, porém perdoá-lo pelo que ele havia feito levaria ainda algum tempo. Mas não pude terminar a minha frase.
_ Eu posso saber o que essa menina está fazendo aqui? - uma voz furiosa vinda de trás de mim me fez sobressaltar.
Virei-me assustada em direção à porta do quarto por onde uma mulher tinha entrado e me olhava com fogo nos olhos.
_ Se você pensa que pode vir aqui e tripudiar sobre o meu filho você está muito enganada, menina! – ela praticamente rosnava andando em minha direção.
_ Eu não ... – tentei dizer, mas ela me pegou pelo braço com tanta fúria que eu me calei assustada.
_ Você vai sair deste quarto imediatamente, está me entendendo? Já não basta todo o mal que você causou ao meu filho? É por sua culpa que ele está nesta cama de hospital! Se você não tivesse virado a cabeça do meu menino, ele não estaria desse jeito!
_ MÃE, PARE COM ISSO! – o grito enfurecido de Mark a calou de repente – ELA NÃO TEM CULPA DE NADA! O ÚNICO CULPADO POR EU ESTAR AQUI SOU EU MESMO! SERÁ QUE VOCÊ AINDA NÃO PERCEBEU QUE FINGIR QUE A SUA VIDA É PERFEITA NUNCA TE LEVOU A NADA? SERÁ QUE VOCÊ NÃO PERCEBEU QUE ESSA SUA MANIA DE TAMPAR O SOL COM A PENEIRA SE RECUSANDO A ENXERGAR A REALIDADE SÓ PIORA AS COISAS?
Ela o olhava com os olhos arregalados e marejados sem conseguir dizer uma palavra sequer. Aos poucos, o aperto em meus braços foi cedendo até que ela finalmente me soltou e deu um passo para trás encarando o filho com uma expressão estranha no rosto. Eu não sabia o que ela estava pensando, mas ela me parecia a ponto de desmoronar a qualquer momento. Mark voltou a olhar em meus olhos e com um sorriso ainda mais triste continuou:
_ Me desculpe por isso, Melinda! Minha mãe tem o péssimo hábito de arrumar desculpas para todos os meus erros, mas isso vai ter que parar a partir de agora! – ele disse as últimas palavras olhando de forma severa nos olhos da mãe e continuou - Naquele dia, na porta da sua casa, eu não queria assustá-la. Eu tinha ido até lá para pedir perdão pelos meus erros e para dizer que eu ia me entregar para a polícia, eu ia pagar pelo que tinha feito com a sua prima e com você. Era o certo a se fazer e eu queria que você soubesse que eu estava querendo o que era certo. Mas você se assustou, Brian e Seth entenderam tudo errado e eu acabei me apavorando e fugindo.
_ Filho, você não ... – a mãe de Mark tentou falar, mas foi interrompida por ele.
_ Mãe, por favor, pare! Não adianta a senhora dizer que eu não sabia o que eu estava fazendo por causa das drogas e da bebida. Eu sabia perfeitamente o que eu estava fazendo, eu sabia que era errado e ainda assim eu o fiz. A única coisa que as drogas e o álcool fizeram comigo foi me dessensibilizar.  A única coisa que eles realmente fizeram foi me deixar completamente insensível ao sofrimento dos outros, insensível ao fato de que as minhas atitudes podiam ferir os outros. Eu não vou fechar os meus olhos e fingir que tudo foi por culpa das drogas porque não foi. Eu optei por me drogar e por me embebedar. Eu estava consciente dos riscos e ainda assim eu os aceitei.
Ele suspirou profundamente aparentando um enorme cansaço e voltou a olhar em meus olhos. Seu rosto estava tão sereno que eu mal o reconhecia como aquele monstro que me perseguira por tanto tempo.
_ Você é uma pessoa linda, Melinda! Não só fisicamente, mas você tem a alma pura como a de uma criança. E é isso o que faz de você uma pessoa tão especial. É quase impossível um homem não se apaixonar por você ... – sua voz de repente soou embargada - ... você merece o melhor que essa vida pode lhe dar e eu tenho certeza de que você será feliz com o Brian. Ele ama você com a mesma intensidade com que você o ama, eu tenho certeza disso. Eu vi isso nos olhos dele em todas as vezes que nós nos confrontamos. Ele seria capaz de dar a vida dele pela sua e só uma pessoa que ama a outra acima de qualquer coisa é capaz de fazer isso.
_ Mark ... – eu tentei dizer alguma coisa, mas ele não me deixou continuar.
_ Não ... – ele sorriu tristemente - ... não precisa dizer nada. Vai tranquila! Eu aprendi a minha lição! Você está livre de mim para sempre, ainda que eu jamais seja capaz de esquecer você. Eu vou amar você para sempre, mas eu não vou mais permitir que esse amor me envenene e me intoxique. Eu preciso aprender a conviver com ele sem deixar que ele me domine e me faça agir erradamente... Vai, Melinda! Vai viver a sua vida, vai ser feliz ao lado do homem que você ama. Você merece!
Quando dei por mim, eu já tinha me aproximado da cama. Minha mão apertou levemente a dele. Ele fechou os olhos com força, sua respiração se alterando ao meu toque. Eu via a força que ele fazia para não chorar na minha presença, mas as lágrimas desciam pelo seu rosto lentamente enquanto seus dedos apertavam os meus em uma despedida silenciosa.
_ Obrigado! – ele disse com a voz embargada sabendo que com aquele gesto eu o havia perdoado.
_ Adeus! – eu disse simplesmente, saindo logo em seguida ainda sentindo o seu olhar sobre mim.
Encostei-me à parede do lado de fora do quarto assim que a porta de fechou atrás de mim. Meu coração batia absurdamente forte em meu peito. Chegava a doer. O que tinha acabado de acontecer ali era simplesmente inacreditável. Minhas lágrimas de alívio desciam livremente pelo meu rosto. Levei a mão ao peito tentando controlar as batidas do meu coração e fechei os olhos respirando profundamente. Não sei por quanto tempo permaneci ali, mas meus olhos se abriram instantaneamente ao sentir aquele toque carinhoso em meu rosto.
_ Você está bem? – ele me perguntou com o olhar angustiado.
Perdi-me naqueles olhos verdes, naquele olhar apaixonado e cheio de ternura. Minhas mãos tocaram levemente o seu peito, subindo lentamente pelo seu pescoço, meus dedos se emaranhando em seus cabelos macios e cheirosos. Sorri ao vê-lo fechar os olhos apreciando o carinho.
_ Eu tenho você! – eu disse me aproximando lentamente do seu rosto - Eu não poderia estar melhor!
Não esperei por sua resposta. Meus lábios se colaram aos dele em um beijo terno e demorado. Esqueci-me de onde estávamos e das pessoas que passavam ao nosso redor. Tudo o que eu sentia era a suavidade dos lábios de Brian sobre os meus, o sabor viciante daquela boca macia que se moldava à minha e o toque delicado daquelas mãos em meu rosto. De repente, me dei conta de que eu tinha sobrevivido a todo aquele horror, de que eu tinha ao meu lado o melhor homem do mundo e que, portanto, seria capaz de enfrentar o que viesse pela frente. Com Brian ao meu lado, eu seria capaz de vencer até mesmo a morte.

sábado, 10 de março de 2012

Capítulo XXIX – Doce Tortura




Narrado por Sofia

         Eu não conseguia entender o que me levava a permanecer de pé depois de ser torturada por aquele homem maravilhoso que me abraçava e rodopiava comigo na pista de dança, música após música. A mão suave e macia acariciava a pele das minhas costas, provocando uma poderosa corrente elétrica por todo o meu corpo. Estávamos tão grudados um no outro que era difícil dizer onde um começava e o outro terminava e isso também não estava me ajudando a manter o controle. Agora eu tinha a mais absoluta certeza de que tudo era parte do meu castigo: senti-lo tão perto sem, na verdade, poder senti-lo como eu queria ... como eu necessitava desesperadamente.
        Forcei-me a pensar em qualquer coisa que não fosse Seth e o desejo que me assolava. Meu corpo estava tão tenso que, de repente, tive medo de que, de alguma forma, aquilo tudo pudesse fazer mal ao meu bebê. O pensamento em meu filho levou automaticamente a minha mão ao meu ventre. Seth percebeu o movimento e parou de dançar, de repente, afastando-se levemente de mim.
        _ Está sentindo alguma coisa, princesa? – ele me olhava com uma expressão preocupada.
        _ Eu estou bem, Seth! Não se preocupe! – tentei disfarçar a minha tensão, mas ele não pareceu acreditar em mim.
        _ Vem, amor! Vamos nos sentar um pouco! Você já está há muito tempo de pé. Deve estar ficando cansada! – ele respondeu me puxando pela mão.
        Seth me levou de volta para a mesa onde estavam as nossas famílias, sentando-se ao meu lado, sua mão tocando o meu ventre de forma ansiosa.
        _ Vocês estão bem? – ele me perguntou ainda preocupado.
        Apenas assenti. Não estava totalmente certa de que a minha voz sairia firme se eu tentasse falar alguma coisa. Encostei a minha cabeça em seu peito e ele imediatamente me envolveu em seus braços, seus lábios beijando os meus cabelos. Ficamos ali, por muito tempo, conversando com os nossos pais e irmãos, mas eu sentia o olhar de Seth sobre mim o tempo todo, me analisando, me observando, se certificando de que eu estava bem. Eu queria muito poder apagar aquela expressão preocupada do seu rosto, mas minha mente não conseguia se concentrar em outra coisa que não fosse fazer amor com o meu marido. Droga! Meus hormônios malucos estavam me fazendo parecer uma maníaca. E o pior de tudo é que eu sabia que ainda teria que esperar por mais um castigo antes de tê-lo por inteiro. Meu estômago se contraiu com esse pensamento e minha expressão angustiada não passou despercebida por minha mãe.
        _ Filha, você está se sentindo mal? – sua voz alarmada me tirou dos meus pensamentos.
        Ergui os meus olhos em sua direção e percebi vários olhares ansiosos convergindo para mim enquanto ela e meu pai se levantavam de suas cadeiras e caminhavam em minha direção. Tenso ao meu lado, Seth me olhava com uma expressão angustiada, esperando pela minha resposta.
        _ Está tudo bem! – minha voz saiu um pouco trêmula. Isso não ia ajudar em nada a acalmá-los.
        _ Sofia, suas mãos estão geladas e transpirando! – meu pai disse ao se abaixar perto de mim e pegar em minhas mãos – Filha, por favor, diga o que você está sentindo!
        _ Eu estou bem, pai! – minha voz trêmula me contradizia – Eu só estou um pouco cansada, é só isso! – menti.
        Meus pais ainda me olhavam com certa preocupação, mas pareceram acreditar em mim. Seth, no entanto, ainda acariciava o meu ventre de forma ansiosa e achei melhor não encará-lo de frente ou ele saberia no mesmo instante que eu estava mentindo. Forcei a minha mente a se concentrar na conversa à minha volta. Tio Emmett e tio Jake contavam como meu pai tinha ficado nervoso no dia de seu casamento com minha mãe, arrancando risadas de todos nós. Tia Leah, tia Alice e tia Rose contavam como tinham enganado a minha mãe para que ela não desconfiasse de nada. Eu olhava para os dois e via os olhares apaixonados que trocavam e os sorrisos bobos estampados em seus rostos mostrando que, mesmo depois de vinte anos, eles não haviam permitido que aquele relacionamento caísse na rotina, tornando-se algo enfadonho e insuportável. Meu coração se aqueceu ao pensar que entre Seth e eu a história se repetiria. Aos poucos, eu comecei a relaxar, sentindo a tensão nos meus músculos diminuir.       
        Cumprimentos. Fotos. Bolo. Brindes. Buquê. Valsa dos noivos... Embora eu estivesse amando cada momento do meu casamento, meu corpo já implorava por um pouco de descanso. Não via a hora de estar a sós com Seth, de poder me deitar ao seu lado e sentir o seu corpo colado ao meu... Estava tão perdida em meus pensamentos que não percebi que alguém se aproximava por trás.
        _ Preparada para ficar a sós com o seu marido? – a voz sussurrada em meu ouvido me causou uma enorme corrente elétrica por todo o meu corpo.
        Virei-me de frente para ele, encarando o rosto perfeito e me perdendo no olhar intenso e brilhante. Não tive tempo de formular uma resposta. De repente, eu estava ocupada demais para qualquer outra coisa que não fosse beijar o meu marido, sentir o sabor enlouquecedor dos seus lábios, o calor daquele corpo forte e sensual totalmente colado ao meu e aquelas mãos macias que me apertavam contra ele, me fazendo sentir sua excitação, me levando novamente à loucura.
Um gemido alto escapou da minha garganta, sendo abafado pela boca quente e molhada colada à minha. Um desejo intenso se apossava novamente do meu corpo fazendo-o estremecer. Se Seth não me possuísse logo, eu iria enlouquecer. Um sorriso malicioso brotou em seus lábios ao perceber o meu estado.
_ Algum problema, Sofia? – ele perguntou divertido.
Meu olhar em chamas cravado em seu rosto só fez com que o seu sorriso aumentasse ainda mais. Eu tentava pensar em alguma coisa para dizer a ele, algo que o desestabilizasse, que o fizesse querer me arrastar logo dali e fazer amor comigo no primeiro cantinho que encontrasse, mas minha mente tinha mergulhado no mais absoluto vácuo. Passei então a pensar no que eu faria com ele assim que estivéssemos a sós. Aquela tortura teria troco e eu cobraria juros altos por ele me fazer ficar daquele jeito.

Narrado por Seth

Finalmente havíamos chegado ao hotel. Sofia me parecia bem, apesar da visível tensão sexual. Por alguns instantes, durante a festa, eu tinha pensado em parar com aquela história de castigo, mas mudei de ideia assim que vi seu olhar em chamas em cima de mim. Ela era forte e eu tinha certeza de que aguentaria mais um pouco antes de nos fundirmos em um só corpo.
Eu podia ouvir o barulho do chuveiro do outro lado da porta. Imagens daquele corpo perfeito todo molhado, com a espuma cheirosa escorrendo por suas curvas preenchiam a minha mente, me torturando. Embora o plano inicial fosse deixa-la se refrescar e até relaxar um pouco, minha mente pervertida já se enchia de ideias. Tirei as minhas roupas o mais rápido que pude e entrei sorrateiramente no banheiro, abrindo a porta do box com cuidado para que ela não percebesse a minha presença até o ultimo segundo, o vapor d’água me ajudando na minha missão.
A visão daquele corpo pecaminoso quase me fez perder o controle. Ela soltou um gritinho de susto quando minhas mãos afoitas a agarraram por trás, deslizando pela pele lisinha e sedosa, acariciando o ventre levemente alterado pela gravidez. Colei o meu corpo ao seu, minhas mãos subindo até os seios perfeitos, provocando os mamilos até deixa-los túrgidos. Sofia deixou a cabeça tombar para trás, apoiando-a em meu peito, suas mãos seguindo diretamente para os meus cabelos enquanto o seu corpo ondulava diante do meu esfregando os quadris em minha ereção.
Eu respirava com dificuldade, tentando manter o controle para conseguir levar aquilo até o fim. Meus dedos acariciavam levemente a intimidade úmida da minha mulher e eu não via a hora de estar ali dentro, me enterrando em seu corpo até a raiz. Virei-a de frente para mim e a ergui pelos quadris imprensando o seu corpo quente contra o azulejo frio. Ela sorriu triunfante, pensando que finalmente iria me sentir penetrando o seu corpo, mas minha vontade de fazê-la perder o controle não me permitiu realizar o seu desejo.
Eu pressionava meu quadril contra o dela, fazendo com que o meu membro deslizasse em sua virilha, se esfregando em seu clitóris, enquanto a minha boca torturava ora um seio, ora outro, para, logo em seguida, tomar os seus lábios em um beijo selvagem.  Sofia gemia alto, implorando para ser possuída. Seus quadris inquietos ondulavam em busca de um alívio que não tardaria a chegar, caso contrário, eu enlouqueceria. Meu membro dolorido implorava para invadir a fenda apertada e se saciar lá dentro, mas eu insistia em mantê-lo do lado de fora, apenas roçando-o contra o corpo de Sofia. Meu corpo suava e tremia dando sinais de que não aguentaria aquela tortura por muito mais tempo. Eu precisava levá-la ao clímax antes que fosse tarde demais. Seria ridículo se eu gozasse sem nem ao menos estar dentro dela.
Sofia apertava os meus ombros, o rosto lindo mostrando o total descontrole que a dominava. Ela também estremecia a cada investida mostrando que o fim estava cada vez mais próximo. Seus gemidos altos rapidamente se transformaram em gritos quando mais um orgasmo a atingiu em cheio, fazendo com que ela ondulasse descontroladamente os quadris contra os meus enquanto suas pernas me apertavam ainda mais a cintura.
Aos poucos, senti que ela perdia as forças, suas pernas bambeando e seus braços se tornando flácidos em volta do meu pescoço. Permanecemos ali, abraçados sob o chuveiro, por incontáveis minutos até que eu tivesse a certeza de que ela poderia se sustentar sozinha sobre as próprias pernas. Embora eu quisesse desesperadamente me enterrar em seu corpo ali mesmo, eu precisava recobrar o controle antes de estar dentro dela.
Desvencilhei-me lentamente dos seus braços e a deixei sob o chuveiro para que ela acabasse de se banhar. Enxuguei-me levemente e voltei a vestir a minha roupa, indo até o bar no canto do quarto e tomando uma dose de uísque para tentar relaxar o meu corpo. Santo Deus! Eu precisava me acalmar ou então acabaria por machucá-la. Sentei-me em uma poltrona à espera que ela voltasse para o quarto. Fechei os olhos, sorvendo mais um gole da bebida e respirando fundo até que as batidas do meu coração voltassem ao normal.
Abri os olhos assim que a porta se abriu e agradeci imediatamente a quem quer que fosse o deus da cobiça. Sofia parecia flutuar em uma camisola longa e delicada com a mesma naturalidade de quem estivesse usando uma calça jeans gasta e uma camiseta. Só ela podia usar roupas como aquela com tamanha elegância. Meu corpo reagiu à sua presença imediatamente.
Assim que ela fechou a porta, pude ver a expressão estampada em seu rosto e fiquei ainda mais excitado do que já estava. Já tinha visto aquele brilho em seus olhos antes, quando ela havia me beijado pela primeira vez e sabia que aquilo significava que eu estava em apuros, e, Deus, como eu ansiava por isso! Ela se virou e eu a ouvi trancar a porta, para logo depois baixar a alça da sua camisola.
Mal notei que o copo havia escorregado de meus dedos, e já estava ocupado demais prestando atenção em seus movimentos. Ela parecia uma deusa, alta e brilhante, que havia adentrado o meu quarto pronta para realizar todas as minhas fantasias.
— Está na hora do jantar, Seth — disse ela sedutoramente.
Pigarreei e tentei parecer informal.
— Boa ideia.
Seu olhar divertido fez com que eu soubesse que estava realmente encrencado. Ela conseguiu deixar que a camisola caísse aos seus pés, apesar de suas alças intrincadas. Depois tirou o belo conjunto de sutiã e calcinha cor-de-rosa com movimentos simples e sensuais.
Seu corpo delgado e ágil estava completamente desnudo com exceção dos sapatos. A olhei lentamente de baixo para cima, deleitando-me com a visão de suas longas pernas bem torneadas, a total ausência de pelos entre elas, a cintura estreita, os seios projetados e os mamilos enrijecidos, o longo pescoço e os cabelos compridos e sedosos. O que mais me deixou excitado, porém, foi o brilho de desejo em seus olhos azuis, injetados nos meus e seu sorriso deliciosamente pecaminoso. Ela estava querendo se divertir e eu estava mais do que disposto a fazer a sua vontade.
Sofia se virou de costas para mim e se debruçou sobre uma pequena mesa, propiciando-me a visão incrivelmente sexy das suas belas nádegas arredondadas e da convidativa fenda existente entre elas. Fui tomado por desejos contraditórios. Parte de mim ansiava por enterrar o rosto nela, provocá-la e saboreá-la até os seus quadris começarem a se contorcer e ela enterrar as mãos em meus cabelos, gritando o meu nome.
Outra parte, porém, desejava simplesmente puxá-la para junto de mim e então penetrá-la com movimentos rápidos e firmes, repetidamente, até ela contrair os seus músculos internos em torno do meu membro, se agarrar aos meus ombros, e, oh, sim, gritar o meu nome.
Talvez eu fizesse ambos.
Naquele exato momento, porém, eu simplesmente não conseguia me mover. Teria que esperar para ver exatamente o que ela pretendia fazer.
Ela se levantou, lançou-me um olhar atrevido e mostrou, então, o oleo de massagem que havia pegado na gaveta da mesa.
Piedade, Senhor!
A leve oscilação dos seus quadris ao caminhar em minha direção era altamente instigante. Sofia abriu o pequeno frasco enquanto andava e a minha calça pareceu subitamente apertada demais. Eu nunca havia sentido meu sangue pulsar com tamanha força. Nunca havia sentido o meu membro tão rígido a ponto de me causar dor.
— E quanto às preliminares?
Ela colocou o frasco sobre a mesa.
— Essas foram as preliminares.
Tentei voltar a respirar, mas percebi que não era capaz nem mesmo disso. Estava excitado demais. Ela girou a minha cadeira para fazer com que eu a encarasse. Olhou, então, para baixo e viu o volume em minha calça.
— Algum problema, Seth? — perguntou ela, me afagando.
— Só um pequeno — respondi com a voz rouca.
Sofia conteve uma risada ao abrir o botão do cós da minha calça e então tentar baixar o zíper.
— Pois eu diria que o seu problema é bem grande, até mesmo colossal.
Resmunguei alguma coisa incompreensível e agarrei cada um dos lados de minha calça, puxando-a com força. O som do tecido sendo rasgado foi incrivelmente excitante. A cueca de algodão ainda estava no meio do caminho, e não hesitei em rasgá-la também.
Os olhos de Sofia estavam arregalados, e suas pupilas dilatadas e seu sorriso só aumentavam, assim como os meus.
Remexi os quadris, impaciente.
— Quieto — ordenou ela.
Surpreso, ergui os olhos em direção aos dela e senti o meu membro enrijecer ainda mais ao ver o desafio que havia estampado neles. Ela se aproximou e começou a desabotoar a minha camisa. Pressionei a boca contra a sua clavícula quando ela se inclinou para afastar as duas metades da camisa. O sorriso que ela me lançou ao se erguer foi sublime.
Me agarrei aos braços da poltrona enquanto ela derramava o oleo aromático pelo meu peito e me acariciava, descendo as mãos delicadas pelo meu abdomen até envolver o meu membro com aqueles dedos torturantemente lentos.
Finalmente ela montou sobre ele, apoiando os joelhos de cada um dos lados dos meus quadris, na poltrona estreita. Depois se alçou sobre ele, afastando as pernas para tomá-lo dentro de si. Tudo o que eu podia fazer era ver, esperar e sentir, mais excitado do que jamais estivera em toda a minha vida. Outra vez. E por ela.
Sofia fechou os olhos tomando apenas a glande dentro de si. Soltei o ar que vinha segurando até então. Ela era apertada e o meu membro muito grande. Pude senti-la se dilatando lentamente para tomá-lo por inteiro, centímetro por centímetro, dentro de si, de maneira incrivelmente lenta.
Sofia abriu os olhos e me encarou.
— Isso é tão bom...
Era um eufemismo. Aquilo era fantástico.
Ela deslizou para cima e para baixo, lentamente, girando os quadris em torno dele, numa dança lenta e sensual que estava me deixando completamente louco.
Em pouco tempo o desejo de entrar fundo dentro dela tomou conta de mim. Eu tinha que dominá-la, tomar-lhe o corpo, fazê-la tremer, se render a mim. Meus músculos ardiam de vontade se mover, de entrar mais fundo dentro dela, com mais força, mais rapidez, mais intensidade, mas ela permanecia impassível, no comando absoluto da situação.
Tentei pensar em números de telefone, preços de produtos, nomes de hotéis, qualquer coisa que pudesse fazer com que eu fosse mais devagar. Tentei até cantar a música que ensinava o alfabeto, mas só consegui chegar até a letra "F".
Finalmente, com um profundo alívio, percebi que o controle dela estava começando a ficar mais precário. Sua respiração estava arfante e pude ver a tortura em seus olhos ao se aproximar do clímax. O desejo na expressão dela aumentou ainda mais e eu ergui levemente os quadris para que ela se desse conta da minha força.
Sofia se ergueu, quase deixando que o meu membro escapasse. Sabia que eu queria que ela se movesse mais rápido, e com mais firmeza. Ela também desejava fazê-lo, mas estava adorando ver aquela expressão no meu rosto enquanto me provocava. Estava adorando se inclinar para frente e provocar os meus lábios com as pontas dos mamilos. Certamente eu estava gemendo como ela nunca me havia ouvido gemer antes, mal conseguindo me conter. Meus olhos estavam injetados, a pele suada e todos os músculos contraídos. A expressão em meu rosto deveria refletir um misto de prazer e dor à medida que ela ia me conduzindo ao limite absoluto do meu controle. Ela queria que eu soltasse as rédeas de uma vez.
— Eu preciso... — eu disse sem conseguir concluir a frase.
— O que foi, Seth? — murmurou ela em meu ouvido ao deslizar sobre o meu membro mais uma vez, tomando-o por inteiro dentro de si. — Olhe para mim, Seth. Sinta o meu corpo — disse ela, cavalgando com mais força. — Goze dentro de mim.
— E quanto a você? — perguntei rangendo os dentes, num esforço extremo.
— Eu já estou um passo à sua frente.
Detive as leves carícias nas suas costas, agarrei-a pelos quadris, e com uma força descomunal, ergui o seu peso com as mãos até conseguir me recostar na cadeira e projetar os meus quadris para cima, rápida, intensa e freneticamente.
A base da minha pélvis bateu repetidamente contra a dela, e de repente era Sofia quem estava gemendo, enquanto eu estampava um sorriso diabólico no rosto. Meus dedos provavelmete a estavam machucando, mas ela mal se deu conta, tão perto que estava de alcançar o êxtase.
Bastou apenas mais uma investida e então aconteceu. Mais um orgasmo avassalador se abateu sobre ela enquanto ela gritava, em meio a lágrimas, risos, e espasmos violentos.
— Você é uma feiticeira — murmurei, ainda arfando, cinco minutos depois.
Ela sorriu, toda esparramada sobre mim, e feliz consigo mesma.
— Eu realmente gosto de ficar por cima.
Estreitei os olhos, coloquei-a de pé e então me levantei. Depois tomei-lhe a mão e comecei a caminhar rapidamente. Ainda com as pernas bambas, ela se esforçou por acertar o passo com o meu em direção ao quarto. Peguei-a em meu colo e com um sorriso diabólico, literalmente a joguei sobre a cama macia. Pude ver que uma excitação faminta, que ela acreditara ter acabado de saciar se acendeu novamente em seu ventre.
— O que você está fazendo? — perguntou ela, ajoelhando-se ao me ver arrancar a camisa e o que restava da calça e da cueca.
A joguei novamente sobre a cama e me inclinei sobre ela, exibindo os dentes num amplo sorriso malicioso enquanto a invadia com uma única investida firme e forte.
— Mostrando a você exatamente quem manda aqui.