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Juiz de Fora, Minas Gerais, Brazil
Apesar de ser mestre em Linguística e ter toda a minha vida acadêmica voltada para o ensino de línguas, sempre fui amante da literatura, devoradora de livros, filmes e séries. Sempre tive um sonho: escrever. Durante muito tempo, o medo de fracassar me impediu de realizar esse sonho, mas uma grande amiga me incentivou e me deu a coragem de enfrentar meus fantasmas e graças a ela eu hoje posso dizer que me sinto uma pessoa melhor, mais confiante e absolutamente ciente do meu potencial.

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terça-feira, 4 de outubro de 2011

Capítulo XXII – Pânico


                                    
Narrador por Mel

  Minha cabeça estava confusa. A última coisa de que eu me lembrava era do rosto sombrio de Mark que se debruçava sobre mim, em meu quarto, levando um pano umedecido em um líquido com cheiro forte ao meu rosto. Depois disso, tudo escureceu. Eu não sabia como ele tinha conseguido entrar em minha casa sem ser visto, mas de alguma forma ele conseguiu me tirar de lá. Meu coração disparou descontrolado em meu peito quando acordei e vi que estava presa em um quarto escuro. Uma pequena vela acesa em um canto distante do cômodo úmido não produzia luz o suficiente para que eu pudesse identificar o lugar onde estava. O cheiro forte de mofo irritava as minhas narinas e o colchão gelado sob mim causava arrepios por todo o meu corpo. Eu tentava forçar os meus olhos a definir alguma forma dentro daquele lugar, mas a escuridão era assustadora. Minhas mãos tateavam as paredes grosseiras em busca de uma saída, mas tudo o que eu consegui encontrar foi uma porta trancada, não havia janelas naquele lugar pavoroso. Eu estava morta de medo. Mark devia estar com ódio de mim por ter colocado a polícia em seu encalço. Eu tinha certeza de que ele queria vingança e não se contentaria em me matar simplesmente. Ele iria se certificar de que eu sofresse bastante antes de acabar comigo de vez.
Eu não sabia há quanto tempo estava presa ali. Eu não sabia se era dia ou se era noite. Não havia um único feixe de luz entrando por baixo da porta. A sensação de desorientação era atordoante. Tudo o que eu conseguia perceber era o som de diversas goteiras pingando insistentemente por todos os lados. Onde eu estava, afinal?
Depois do que pareceu uma eternidade, comecei a ouvir passos pesados se aproximando cada vez mais do lado de fora da porta. Meu corpo inteiro tremia de frio e de medo na medida em que o barulho dos passos ficava mais alto. De repente, o silêncio. Um brilho fraco de luz surgiu por baixo da porta pelo lado de fora e o barulho de chaves destrancando a porta fez o meu coração gelar. Ela rangeu de forma agourenta antes de revelar a imagem de Mark diante de mim. Encolhi-me apavorada em um canto do cômodo ao ver o sorriso doentio estampado no rosto de Mark. Ele passou pela porta com uma bandeja e um pequeno lampião nas mãos. Caminhou lentamente até a pequena mesa onde queimava a vela, depositando o que parecia ser a minha refeição sobre ela e virando-se em minha direção logo em seguida. Senti suas mãos agarrando meu braço com brutalidade, me levantando e me jogando sobre uma cadeira próxima à mesa.
_ Coma! – ele ordenou com a voz transtornada.
Sobre a mesa havia um prato com algum alimento que não consegui distinguir. Parecia uma espécie de mingau. A aparência era nojenta e meu estômago se revirou quando olhei aquilo.
_ JÁ MANDEI COMER! – ele gritou empurrando-me pelas costas contra a mesa.
Trêmula, peguei a colher ao lado do prato e a mergulhei na papa asquerosa, o gosto amargo me embrulhando o estômago. Cuspi aquilo depressa sentindo minhas entranhas se contorcerem, e meu rosto ardeu pelo forte tapa que recebi. O gosto de sangue imediatamente inundou a minha boca.
_ Escute aqui, sua ordinária! Você vai comer tudo quietinha, sem reclamar. Se você cuspir ou vomitar a comida, pode ter a certeza de que eu vou fazer coisa muito pior do que te obrigar a comer isso. Estamos entendidos? – ele ameaçou puxando os meus cabelos de forma dolorosa. – ESTAMOS ENTENDIDOS? – ele tornou a gritar diante do meu silêncio.
Assenti sem conseguir evitar um gemido de dor. Mark soltou os meus cabelos, empurrando a minha cabeça com força. Prendi a respiração e coloquei mais uma colherada daquela gosma nojenta em minha boca, engolindo depressa antes que o gosto horrível batesse sobre a minha língua. Quanto mais cedo eu acabasse com aquilo, mais rápido ele poderia ir embora, assim eu esperava. Mas antes de chegar ao final, comecei a sentir um leve torpor. Meus olhos começaram a perder o foco, meu corpo sentia dificuldade em responder aos meus comandos. De repente, me dei conta de que o gosto amargo da comida poderia ser de algum entorpecente. Mark havia me drogado. Eu lutava para permanecer consciente, eu precisava tentar escapar ou ele faria o que quisesse com o meu corpo depois que eu desmaiasse.
Meus braços foram envolvidos em um aperto forte e meu corpo foi erguido da cadeira e colocado novamente sobre o colchão gelado. Senti mãos rudes subindo pela minha perna em direção à minha virilha. Fechei as pernas com força tentando bloquear o acesso indesejado. Pensei em Brian. Por ele, eu tinha que lutar. Meus olhos percorreram o quarto, agora iluminado pelo lampião, até encontrarem uma garrafa vazia jogada em um canto próximo à minha cabeça. Ela seria a minha única chance. Mark não me olhava nos olhos. Seus olhos devoravam famintos cada parte do meu corpo que suas mãos, aos poucos, descobriam. Ergui o braço lentamente tateando o chão em busca da garrafa, meus olhos cravados no rosto de Mark. Fechei os olhos e golpeei sua cabeça com toda a minha força. O corpo de Mark caiu de lado, o sangue jorrando de seu supercílio direito onde a garrafa tinha se partido. Ele não havia desmaiado com a pancada, mas estava visivelmente atordoado. Levantei-me depressa, agarrando o lampião e ganhei a porta do quarto, correndo como louca.
Eu corria desorientada por túneis escuros. Meus pés descalços doíam, perfurados pelas pedras e objetos pontiagudos e cortantes espalhados pelo chão. As paredes irregulares construídas com pedras brutas e ásperas arranhavam os meus braços na medida em que eu tentava escapar. Eu não sabia onde estava. Eu só sabia que tinha que correr, que tinha que ir para longe daquele lugar. Minha vida dependia do quanto eu aguentaria correr. Eu precisava manter a calma, tentar controlar o meu pânico, mas os gritos atrás de mim faziam a adrenalina correr descontrolada pelo meu corpo. A voz enfurecida de Mark ecoava pelos túneis fazendo ameaças. Eu sabia que ele estava me perseguindo, eu sentia a sua aproximação. No final de mais um túnel daquele labirinto interminável, eu pude perceber uma saída iluminada pela luz do dia. Corri naquela direção e meus olhos arderam ao serem atingidos pela claridade. Diante de mim, se estendia uma mata densa. Desorientada, comecei a correr em qualquer direção. Eu não tinha nada que me orientasse, não sabia se estava me embrenhando ainda mais fundo naquela mata ou se corria em direção a alguma estrada. Tudo o que eu via eram árvores e mais árvores passando por mim na medida em que eu corria. Os galhos mais baixos açoitavam os meus braços e as minhas pernas e filetes de sangue surgiam nos pequenos cortes. Depois de correr pelo que me pareceram horas, minhas pernas já não me obedeciam mais. Meus pés cortados deixavam atrás de mim um rastro de sangue e a droga que Mark havia me dado começava a surtir efeito. Eu precisava eliminar aquilo do meu organismo. Agachei-me atrás de um arbusto e enfiei o dedo na garganta, colocando para fora o que eu tinha comido. Eu rezava para que o efeito da droga diminuísse e que eu pudesse recuperar o controle do meu corpo. Entorpecida, arrastei-me até um tronco oco de uma árvore e me escondi lá dentro até que pudesse voltar a correr. Eu lutava para manter os meus olhos abertos, mas eles ficavam cada vez mais pesados até que finalmente se fecharam, me levando para o inconsciente.
Acordei assustada, sentindo o corpo dolorido. Arrastei-me para fora do tronco sentindo todas as minhas articulações protestarem. O dia claro já não existia mais. Eu estava novamente no escuro e a única fonte de luz que me permitia enxergar alguma coisa vinha da lua cheia, cujos raios atravessavam com dificuldade as copas das árvores gigantescas. Eu não sabia que direção tomar. Eu temia começar a andar no escuro e acabar me aproximando do meu cativeiro novamente. A mata estava praticamente silenciosa o que lhe conferia um aspecto extremamente sombrio. Andei por muito tempo sem rumo, quando, ao longe, comecei a ouvir um barulho diferente. Algo que não combinava com os ruídos da natureza. Fiquei imóvel tentando identificar o que eram aqueles ruídos e de que direção eles viriam. Carros. Deus do céu! Eram carros! Eu estava perto de alguma estrada. Comecei a correr desesperadamente em direção aos ruídos que ficavam cada vez mais altos. Depois de algum tempo, eu já conseguia ver à distância as luzes dos faróis iluminando a estrada. Disparei naquela direção, a dor e o cansaço completamente esquecidos. Há dois metros da estrada, um vulto negro se colocou entre mim e a minha esperança de liberdade. Percebi desesperada que todos os meus esforços tinham sido em vão.   Mark estava ali, sorrindo doentiamente, de braços abertos como se me desse as boas vindas. Em seus olhos, eu podia ver a intensidade do ódio que ele sentia. Meu coração perdeu uma batida ao vê-lo saltar sobre mim como um predador experiente, seus braços envolvendo fortemente a minha cintura. Eu gritava e me debatia tentando chamar a atenção dos motoristas, mas o barulho intenso do tráfego abafava o meu desespero. Braços fortes me apertavam em um abraço de aço, me detendo ... me restringindo ... me imobilizando. Eu via, derrotada, a estrada se distanciar novamente de mim, o som dos motores dos automóveis ficando cada vez mais distantes, enquanto Mark me arrastava mais uma vez para a escuridão.

Narrado por Brian

Desespero. Eu sentia o mais absoluto desespero tomando cada célula do meu corpo. Já não sabia mais o que fazer. Nada do que eu fizesse parecia adiantar e saber que ela estava mais uma vez passando por aquele pesadelo fazia eu me sentir um inútil. Eu não conseguia ajudá-la, eu não conseguia tirá-la de lá. Na medida em que os dias passavam, o meu desespero aumentava ainda mais.
Duas semanas. Duas semanas já tinham se passado desde que Mark a sequestrara e, quando a noite chegava, o pânico era sempre o mesmo. Eu tinha medo de perdê-la, tinha medo que ela se perdesse e eu não pudesse fazer nada para resgatá-la. Mel se debatia e gritava em meus braços enquanto eu a abraçava com toda a minha força tentando trazê-la de volta à realidade. Ela estava mais uma vez presa naquele pesadelo que a perseguia desde que voltara para casa. Ainda me lembro da primeira noite, quando Nikki entrou em meu quarto aos prantos, me pedindo para que fosse até a sua casa porque Mel gritava o meu nome desesperada. Meu coração sempre se apertava ao me lembrar da expressão do seu rosto devastado pelo terror no momento em que entrei em seu quarto. Eu nunca a tinha visto tão trêmula e tão indefesa em toda a minha vida. Ela se agarrava ao corpo do pai chorando descontroladamente enquanto dizia o meu nome sem parar. Corri em sua direção e praticamente a arranquei de seus braços para que ela me sentisse ao seu lado. Ainda levou incontáveis minutos até que ela realmente se acalmasse e voltasse a dormir. Porém, a cada noite, o mesmo pesadelo voltava a assombrá-la e ela gritava e se debatia em meus braços, exatamente como fazia agora.
_ Shhh...amor! Eu estou aqui! – eu tentava acordá-la, mas fracassava mais uma vez.
Meus braços a apertavam em um abraço sufocante tentando impedi-la de se debater e se machucar. Mel finalmente abriu os olhos e me encarou para, em seguida, me agarrar com força e chorar convulsivamente em meus braços. 
_ Eu não aguento mais isso! Não aguento mais ... – ela repetia entre soluços.
_ Está tudo bem agora, amor! Foi só um sonho ruim! Você está segura aqui! – eu a embalava tentando acalmá-la.
A luz do quarto, de repente, se acendeu e tio Emmett e tia Rose entraram assustados com os gritos da filha. Tia Rose chorava silenciosamente nos braços do meu tio que tentava controlar a angústia que sentia pelo estado de Mel.
_ Ele vai voltar ... eu sei que ele vai voltar ... – ela ainda chorava.
_ Ele não tem como chegar perto de você de novo, Mel! Nós não vamos deixar! Por favor, amor, tente se acalmar! – eu pedia aflito.
Ódio. Todo esse pânico tinha se intensificado por causa daquele cretino. No dia em que Mel voltara para casa, Mark tinha mandado um buquê de rosas vermelhas para ela com um cartão que dizia: “Não se pode fugir do destino. E eu sou o seu destino.” Mel teve uma crise nervosa ao ler o cartão e só então todos perceberam que as rosas não tinham sido enviadas por mim. Fui tomado pelo mais profundo ódio ao chegar à sua casa e vê-la naquele estado. Naquela noite, ela teve o primeiro do que viria a ser uma sequência interminável de pesadelos. Enquanto aquele animal estivesse livre, ela não conseguiria relaxar. Enquanto ele estivesse vivo, esses pesadelos a assombrariam tirando-lhe, aos poucos, a sanidade e a vontade de viver.
A polícia já tinha feito buscas por todas as áreas de Edmonds sem conseguir encontrá-lo. Mel ficava tão insegura por saber que ele ainda andava à solta por aí que eu praticamente me mudei para a sua casa a pedido do tio Emmett. Nunca irei me esquecer do seu rosto contorcido pela dor ao me pedir para dormir no quarto de Mel. Quando acordava dos pesadelos, ela só conseguia se acalmar quando me sentia junto dela.
Nikki entrou no quarto trazendo água para a irmã. Mel mal conseguia segurar o copo, suas mãos tremiam intensamente. Ajudei-a a levar o copo aos lábios e ela tomou o líquido em goles grandes como se a garganta estivesse extremamente ressecada. Devolveu o copo à irmã e voltou a me abraçar ainda trêmula, repousando a sua cabeça em meu peito. Meus braços a envolveram delicadamente, minhas mãos seguindo para os seus cabelos. Aos poucos, ela foi se acalmando e a família foi se retirando do quarto, nos deixando sozinhos.
_ Pode voltar a dormir, amor! Eu vou ficar aqui com você, eu prometo! – voltei a me deitar na cama trazendo o seu corpo comigo.
_ Eu não quero dormir! – ela disse com a voz triste – Sempre que eu fecho os olhos, eu vejo o rosto dele na minha frente, vejo o ódio nos olhos dele e vejo aquele sorriso doentio estampado na cara dele. Se eu pudesse, eu nunca mais voltaria a dormir!
Abracei mais forte o seu corpo, me sentindo impotente. Em seus sonhos eu não podia defendê-la. Ali era o único lugar em que ela estava completamente sozinha e desprotegida, ali eu não podia entrar e isso me matava por dentro. Eu queria que ela se sentisse segura, mas como eu poderia evitar que aqueles pesadelos a assombrassem? Mesmo agora, tendo o seu corpo envolvido em meus braços, eu sabia que ela não se sentia em segurança. Por mais que ela soubesse que eu seria capaz de dar a minha vida para salvar a sua, eu sentia o seu medo. Era quase palpável. Eu precisava fazer alguma coisa para trazer a paz e a tranquilidade de volta à vida de Mel e a única coisa que me vinha à mente era caçar aquele animal. Mas eu não podia deixá-la. Ela precisava de mim e eu não sairia do seu lado por nenhum motivo desse mundo. Eu tinha que confiar na polícia e ficar ao lado de Mel tentando passar-lhe força e segurança.
Mel fechou os olhos, vencida pelo cansaço, e pousou sua mão sobre o meu peito, na altura do meu coração. Ele batia forte, batia movido pelo amor e pela vontade que eu tinha de fazê-la feliz. Com um suspiro tranquilo, ela se entregou à inconsciência, seu corpo totalmente relaxado colado ao meu. Afaguei-lhe os cabelos e beijei-lhe suavemente os lábios. Eu não dormiria mais naquela noite, ficaria acordado, velando o seu sono, lutando contra os fantasmas que insistiam em persegui-la. E no que dependesse de mim, eles jamais se aproximariam dela novamente.

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