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Juiz de Fora, Minas Gerais, Brazil
Apesar de ser mestre em Linguística e ter toda a minha vida acadêmica voltada para o ensino de línguas, sempre fui amante da literatura, devoradora de livros, filmes e séries. Sempre tive um sonho: escrever. Durante muito tempo, o medo de fracassar me impediu de realizar esse sonho, mas uma grande amiga me incentivou e me deu a coragem de enfrentar meus fantasmas e graças a ela eu hoje posso dizer que me sinto uma pessoa melhor, mais confiante e absolutamente ciente do meu potencial.

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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Capítulo XXIII - Emoções



                                    
Narrado por Seth

        Meus olhos jamais se cansariam de admirar o anjo que estava diante de mim. Os cabelos longos e sedosos espalhados aleatoriamente sobre o travesseiro emolduravam o seu rosto sereno e perfeito. Os lábios que eu tanto amava beijar traziam um leve sorriso me dando a certeza de que ela estava tendo um sonho bom.   O corpo perfeito, ainda sem sinais evidentes da gravidez, descansava sobre o colchão macio, sua respiração tranqüila me trazendo uma enorme sensação de paz. Apesar de tudo, Sofia estava bem.
        Por vezes, eu a sentia ansiosa, por outras, angustiada com o fato de sua visão ainda não ter melhorado. No entanto, bastava falar sobre o nosso filho que seus olhos se iluminavam imediatamente e um sorriso que me tirava o fôlego atravessava o seu rosto. Eu a observava dormir, encostado ao batente da porta do seu quarto. Morria de pena de ter que acordá-la, mas estava ansioso como nunca para a nossa primeira consulta pré-natal. Não via a hora de ouvir o coraçãozinho do nosso bebê batendo acelerado e forte, de vê-lo através da ultrassonografia, mesmo que fosse através daquela tela toda chuviscada. Estava louco para ouvir Rose dizer que ele estava bem, se desenvolvendo normalmente e que nasceria saudável apesar da agressão e da queda que Sofia sofrera há quase um mês.
        Caminhei silenciosamente até a sua cama sem desviar os olhos do seu rosto. Abaixei-me cuidadosamente, deitando ao seu lado, colando o seu corpo no meu e beijei demoradamente os seus lábios. Ainda de olhos fechados, ela sorriu com os lábios unidos aos meus.
        _ Oi, princesa! – sussurrei acariciando seu rosto – Descansou bastante?
        _ Uhum! – ela respondeu com a voz preguiçosa se aninhando ainda mais em meus braços – Que horas são?
        _ Hora de você começar a se arrumar para a consulta no médico, amor! – respondi baixinho em seu ouvido, meus dedos delineando os traços delicados do seu rosto.
        Ela soltou um longo suspiro e me abraçou mais forte, ajeitando sua cabeça em meu peito, sem dar a impressão de que iria se levantar.
        _ O que foi, princesa? Ainda está cansada? – perguntei começando a me preocupar.
        _ Não! – ela respondeu manhosa – Mas está tão bom aqui que eu não quero me levantar!
        _ Nem mesmo para ouvir o coração do nosso filhote?  - provoquei sabendo que ela não resistiria.
        O mesmo sorriso enorme que atravessava o seu rosto todas as vezes que eu falava do nosso filho estava ali novamente. Seus olhos azuis se abriram ainda mais brilhantes e ela se apertou ainda mais contra mim, suspirando tranquila.
        _ Por vocês dois, eu faço qualquer coisa! – ela respondeu acariciando o meu rosto com os dedos delicados.
Beijei sua testa e a apertei ainda mais contra o meu corpo. Ficamos mais alguns minutos ali, curtindo um ao outro, até que ela decidiu se levantar. A cada dia, eu me orgulhava ainda mais da forma como ela estava enfrentando toda aquela situação. Dia após dia, Sofia dependia menos da ajuda de outras pessoas. Mesmo ciente de que sempre estaríamos todos ali, a postos, para ajudá-la no que fosse necessário, ela procurava fazer quase tudo sozinha. Apenas nas coisas mais arriscadas, como descer escadas e sair à rua, ela se sentia insegura. De qualquer forma, por mais que ela estivesse se tornando independente, sempre havia alguém próximo para o caso de algo sair errado. Procurávamos dar o máximo de espaço possível a ela, para que ela não se sentisse “um peso em nossas vidas.” Absurda! Tive vontade de dar-lhe umas palmadas quando ela disse aquilo. Como ela poderia pensar em uma coisa insana daquelas?
 As pessoas não podem simplesmente deixar de viver a vida delas para cuidar de mim o tempo todo, amor!” – foi a resposta que ela me deu. Por mais que ela jamais fosse ficar sozinha, ela estava certa até certo ponto. Mas deixar que ela pensasse que seria um peso nas nossas vidas era algo inconcebível na minha cabeça. Nunca! Eu abandonaria tudo para ficar com ela se ela precisasse de mim.
Durante todo o trajeto para o hospital, Sofia manteve um lindo sorriso nos lábios. Conversávamos sobre o nosso filho, falávamos da ansiedade de tê-lo logo nos braços, de poder tocá-lo, de vê-lo crescer saudável e feliz, de dar a ele o amor que já transbordava em nós.
Parei o carro próximo à entrada principal do hospital, desci e abri a porta para Sofia que, imediatamente, pegou a minha mão para sair. Ela estava tão linda que eu não resisti. Assim que ela ficou de pé, eu a imprensei contra a lateral do carro, minhas mãos se apossando da sua cintura, e a beijei. Ela correspondeu com o mesmo entusiasmo, me enlouquecendo quando seus dedos se embrenharam em meus cabelos, me puxando para mais perto dela. Ela sabia que eu adorava quando ela fazia aquilo. Eu parecia um adolescente com os hormônios descontrolados quando meu corpo ficava colado ao dela daquela forma. Com muito esforço, separei os nossos lábios, colando as nossas testas. Ela mantinha seus olhos fechados e sorria lindamente, enquanto tentava regularizar a respiração ofegante.
_ Pronta? – perguntei quebrando o silêncio gostoso entre nós.
Ela sorriu, mordendo o lábio inferior e assentiu. Dei-lhe um último selinho e entramos no hospital. Pelos corredores, os médicos e enfermeiros nos cumprimentavam e nos felicitavam pelo bebê.  Na sala de espera do consultório médico, algumas gestantes folheavam revistas especializadas em bebês. Sofia estava quietinha, sentada ao meu lado com os dedos entrelaçados aos meus. Meus olhos vasculharam toda a sala captando tudo ao nosso redor: as cores suaves das paredes decoradas com pequenos desenhos infantis, as fotos de várias crianças coladas em um mural, provavelmente as crianças que vieram ao mundo pelas mãos de Rose, as várias gestantes com suas barrigas de diversos tamanhos... Peguei-me imaginando Sofia com a barriga redondinha crescendo ainda mais dia após dia. Ficaria ainda mais linda do que já era. Imaginei como seria a emoção de sentir o nosso filho se mover dentro dela e chutá-la todas as vezes em que eu falasse com ele ou tocasse o seu ventre.
_ Amor? – a voz suave e baixinha de Sofia me tirou dos meus pensamentos.
_ Oi, princesa? – respondi olhando em seu rosto de anjo.
_ Está tudo bem? – ela perguntou.
_ Está sim, princesa! Por que a pergunta? – perguntei confuso.
Ela não me respondeu. Apenas sorriu e pousou a sua mão sobre a minha que estava sobre o seu ventre. Só então me dei conta de que, na minha ansiedade, eu a havia colocado ali e talvez estivesse apertando o seu ventre com força.
_ Desculpe, princesa! Eu a machuquei? – perguntei preocupado.
_ Não, amor! Está tudo bem! Eu só te senti um pouco ansioso, foi só isso! – ela respondeu serena.
A porta do consultório se abriu e depois que a paciente saiu, Rose chegou até nós e pegou carinhosamente as mãos de Sofia.
_ Vamos ver como está este bebezinho lindo aqui? – ela sussurrou para nós.
Entramos no consultório e Rose ajudou Sofia a se sentar em uma cadeira diante da sua mesa.
_ Como você tem se sentido, Sofia? – ela perguntou já sentada em sua mesa.
_ Estou bem, tia. – ela respondeu simplesmente, sua mão procurando a minha.
_ Não tem sentido enjôos, tonturas, nada? – Rose insistiu.
_ Não. Eu nunca senti nada disso. – Sofia respondeu.
_ Alguma cólica? – Rose continuou o interrogatório.
_ Não. Nada. Eu só tenho me sentido um pouco cansada demais! Tenho dormido além da conta também. – Sofia admitiu mordendo ansiosamente o lábio inferior.
_ Esse cansaço que você sente, é um cansaço físico ou é só sonolência mesmo? – Rose perguntou com o cenho franzido. Aquilo me deixou preocupado.
 _ Eu não sinto como se o meu corpo estivesse cansado. É só muito sono. Quanto mais eu durmo, mais sono eu tenho. – ela respondeu constrangida.
Alívio. O semblante de Rose se suavizou imediatamente.
_ Sono em excesso é normal durante a gravidez, Sofia! Principalmente nos primeiros meses. Não se preocupe com isso. O excesso de hormônios circulando em seu corpo e o metabolismo que se torna mais lento com a gravidez causam essa sonolência em você. Além disso, você ainda está se recuperando da pancada na cabeça e sentir um pouco de cansaço é normal. – Rose nos tranquilizou.
Rose aferiu a pressão arterial de Sofia, escutou o seu coração e pulmões e fez uma série de verificações para se certificar de que ela estava bem. Ajudei Sofia a se despir e colocar uma espécie de avental. Deitada em uma maca, Sofia apertava ansiosamente a minha mão. Ela estava nervosa, talvez com medo de que sua queda pudesse ter deixado alguma seqüela em nosso filho também. Confesso que essa ideia já tinha passado por minha cabeça, mas eu a expulsara com a mesma rapidez com que ela tinha chegado.
Rose ligou o monitor e espalhou um gel sobre o ventre de Sofia que pulou de susto ao sentir-lhe a temperatura fria. Uma imagem borrada aparecia no aparelho enquanto Rose explorava o ventre de Sofia com o sensor do ultrassom.  Meus olhos não se desgrudavam da tela. Eu não queria perder um segundo sequer do universo do meu filho e acho que nem mesmo piscava os olhos com medo de deixar escapar qualquer detalhe.
Sofia estava entrando na nona semana de gravidez e meu filho já era uma pessoinha de 20mm com um coração forte e acelerado. Assustei-me ao perceber a velocidade com que o seu pequeno coração batia. No início, achei que algo estivesse errado. Afinal, como um coração tão pequenino podia bater tão rápido assim? Passado o susto inicial, eu não pude deixar de me emocionar com aquele som. Chorei como um bebezão e não senti a menor vergonha disso. Nosso bebê estava ali, forte, saudável e amado. A gravidez de Sofia corria normalmente e não tínhamos motivos de preocupação em conseqüência do que havia acontecido um mês antes. Sofia ouvia o som dos batimentos cardíacos do nosso bebê com os olhos fechados. Lágrimas de felicidade rolavam pelos cantos dos seus olhos e o meu sorriso favorito estava presente em seu rosto delicado. Ela estava feliz ... eu estava mais feliz ainda. Saber que o nosso bebê estava bem e ver a felicidade no rosto da minha princesa era motivo suficiente para que eu explodisse de satisfação.
Depois de ajudar Sofia a se trocar, voltei a me sentar com ela no consultório de Rose que prescrevia as vitaminas que ela deveria tomar. Sofia aguardava sorridente, sentada ao meu lado, os dedos da sua mão entrelaçados aos meus. Tudo corria tranquilamente, mas ao nos levantarmos para sair do consultório, o corpo de Sofia se retesou de repente e ela arfou assustada com alguma coisa.
_ O que foi, amor? Você está sentindo alguma coisa? – perguntei preocupado ao vê-la com a respiração acelerada.
Sofia não conseguia me responder. Ela piscava os olhos freneticamente, fechando-os com força às vezes como se algo a incomodasse. Suas mãos trêmulas seguravam os meus braços enquanto ela tentava recuperar a fala.
_ Amor, fala comigo, por favor? – eu pedi desesperado – Me diz o que você tem?
_ Um ... um clarão! – ela disse com a voz embargada – Eu vi um clarão!
Rose imediatamente pegou o telefone, pedindo para que Jasper fosse até o seu consultório e me fez deitar Sofia de volta na maca. Em poucos minutos, a sala de Rose estava cheia de gente: Jasper, Edward, Bella e tio Jacob tinham corrido para lá. Em um canto da sala, eu observava calado enquanto Jasper examinava Sofia.
_ Seth? – ela me chamou ansiosa.
Corri em sua direção, envolvendo a sua mão estendida com a minha.
_ Aqui, princesa! – respondi beijando as costas da sua mão.
Sofia esquadrinhou o meu rosto com os dedos, tentando saber, através da minha expressão, como eu estava. Peguei sua mão beijando-lhe a palma e a coloquei em meu peito, na altura do meu coração que batia assustadoramente forte e acelerado. A expectativa era enorme. Aquele clarão poderia significar que a sua visão estava voltando ao normal, mas eu não podia dar a ela falsas esperanças. Preferia esperar até que Jasper dissesse alguma coisa.
Um enfermeiro entrou na sala trazendo uma cadeira de rodas. Jasper levaria Sofia para a sala de tomografia para verificar se a lesão havia diminuído. Eu seguia pelos corredores ao seu lado, minha mão segurando a sua. Nada nem ninguém me impediriam de estar ao lado da minha mulher e do meu filho naquele momento. Sofia precisava de mim. Meu filho precisava de mim. E eu precisava dos dois como meus pulmões precisavam de oxigênio. Eu precisava dos dois para viver e era ao lado deles que eu estaria. Para sempre.

Narrado por Sofia
       
        Tinha sido apenas um clarão. No início, eu não havia entendido o que tinha acontecido. Foi como um relâmpago forte iluminando uma noite escura, sem lua. Durou apenas um segundo e, logo depois, a escuridão me envolveu novamente. No entanto, o breve momento em que meus olhos se iluminaram foi o suficiente para me deixar trêmula. Ansiedade. O que estava acontecendo comigo? Esperança. Aquele clarão poderia significar que a minha visão estava voltando. Medo. E se não fosse nada disso? Eu não podia ter falsas esperanças, não podia deixar Seth acreditar nisso antes de ter certeza. Chamei o seu nome. Eu precisava saber o que ele estava sentindo. Tentei sentir através do seu rosto, mas foi o seu coração batendo forte e acelerado sob a minha mão que me deu a certeza de que ele estava se sentindo como eu me sentia naquele momento.
        No caminho para a sala de tomografia, o clarão voltou mais duas vezes. Por um breve segundo, eu pude distinguir figuras humanas ao meu redor. Embora não pudesse saber de quem se tratavam, era bom saber que elas estavam ali. A mão de Seth, envolvendo a minha, me dava segurança. Eu sabia que ele estaria ao meu lado, não importava o que viesse a acontecer.
A cadeira de rodas parou de repente. Senti mãos macias e carinhosas envolvendo o meu corpo, me erguendo dali.
_ Eu vou colocá-la sobre a maca do aparelho de tomografia, amor. – a voz sussurrada de Seth acariciou os meus ouvidos.
Levei minhas mãos ao seu rosto quando ele me depositou gentilmente sobre uma superfície macia. Senti meu rosto sendo acariciado. A sensação era maravilhosa. Os dedos de Seth tocaram uma mecha dos meus cabelos colocando-a atrás da minha orelha antes que meus lábios fossem suavemente beijados. Fechei os olhos apreciando o carinho, mas meu coração saltou no peito quando voltei a abri-los e eu arfei. Um novo clarão havia me proporcionado, mesmo que brevemente, a visão mais linda do mundo. Por um mero segundo, eu pude ver os olhos brilhantes de Seth cravados em mim. Nem mesmo a escuridão que veio a seguir poderia apagar aquela imagem da minha cabeça.
_ O que foi, amor? – a voz ansiosa de Seth chegou aos meus ouvidos.
Eu sorria e chorava ao mesmo tempo. Por mais que ele estivesse sempre ao meu lado, eu morria de saudades de ver o seu rosto e, de repente, a vida havia me presenteado com aquele momento tão lindo. Ainda que a minha visão nunca mais voltasse, aquele breve vislumbre do rosto glorioso do homem da minha vida já teria valido a pena.
_ Eu vi você! Eu vi o seu rosto, Seth! – consegui dizer entre lágrimas.
_ Ah, meu Deus! Obrigado! – ele sussurrou emocionado, me abraçando com força.
Ficamos ali, chorando juntos por incontáveis minutos até que tio Jasper me pediu que eu me deitasse para que ele pudesse fazer o exame.
_ Eu vou estar logo ali atrás do vidro, princesa! – Seth me prometeu apertando levemente a minha mão antes de sair.
_ Sofia, eu preciso que você fique totalmente imóvel enquanto o aparelho estiver escaneando o seu cérebro, está bem? – a voz do tio Jasper saiu alta e clara em uma caixa de som.
_ Ok. – respondi ansiosa, tentando ficar quieta.
        De olhos fechados, eu ouvia o som do aparelho vasculhando o meu cérebro e pedia a Deus para que aqueles clarões fossem um sinal de cura. Mesmo não querendo alimentar falsas esperanças, ei não consegui fazer o meu coração não bater mais devagar. Embora meus olhos ainda estivessem na escuridão, eu estava feliz. Meu bebê estava bem e seguro em meu ventre, o amor da minha vida estava ao meu lado e o futuro voltava a sorrir para mim.  
         


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