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Juiz de Fora, Minas Gerais, Brazil
Apesar de ser mestre em Linguística e ter toda a minha vida acadêmica voltada para o ensino de línguas, sempre fui amante da literatura, devoradora de livros, filmes e séries. Sempre tive um sonho: escrever. Durante muito tempo, o medo de fracassar me impediu de realizar esse sonho, mas uma grande amiga me incentivou e me deu a coragem de enfrentar meus fantasmas e graças a ela eu hoje posso dizer que me sinto uma pessoa melhor, mais confiante e absolutamente ciente do meu potencial.

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terça-feira, 21 de junho de 2011

Capítulo V - Indigno




Narrado por Brian

        As batidas do meu coração ainda não tinham recuperado o ritmo normal. Ele parecia um cavalo selvagem galopando livremente em campo aberto. Eu tinha mais uma vez em meus braços a mulher que possuía o meu coração e dominava meus pensamentos e, agora, tínhamos acabado de dar um passo ainda maior em nosso relacionamento: estávamos noivos. Eu sorria com esses pensamentos enquanto esperava que as crianças fizessem seus pedidos para que eu pudesse cumprir minha promessa e levar para Mel o sorvete mais gostoso de todos. Distraí-me com as crianças que pulavam e gritavam excitadas com a expectativa de tomar o sorvete. Olhando para cada uma delas, eu tentava imaginar a sensação de ter um filho com aquela mulher. Seria a realização de um sonho, seria como encontrar um tesouro por acaso, seria o paraíso. Minha mente vagava tentando desenhar os traços do rostinho do nosso bebê: a cor dos olhos e dos cabelos, a maciez e a suavidade da pele fininha e cheirosa, o som vivo do chorinho esfomeado e o lindo sorriso da mãe ao aninhá-lo no colo e amamentá-lo todos os dias. Seria realmente o melhor momento da minha vida quando isso acontecesse de verdade e o sorriso que eu levava nos lábios já era real, mas foi desfeito assim que ouvi aquilo:
– Vai parar de se fazer de difícil comigo agora ou vai aproveitar a chance de conhecer um homem de verdade? – olhei na direção em que Mel estava a tempo de vê-la tentar se afastar de um homem totalmente assustada, mas ele a agarrou pelo braço.
_ Me solta! – a dor era perceptível em sua voz. Será que aquele animal não percebia que a estava machucando apertando seu braço daquele jeito? – Você está me machucando Mark, me solta!
Ao ouvir aquele nome, a lembrança da festa de aniversário de 16 anos de Mel e Nikki me pegou de assalto. Era o mesmo palhaço que tinha tentado ficar com ela naquela noite. Era o mesmo idiota que desde então tentava seduzi-la em todas as oportunidades que tinha, mesmo ouvindo sempre um sonoro “não”. Ele não desistia, não respeitava a vontade dela, mas eu iria mostrar a ele que Mel tinha quem a defendesse e fizesse sua vontade ser respeitada. Eu já atravessava a rua de volta à praça quando a voz asquerosa insistiu:
_ Primeiro me responde! Você vai me dar uma chance ou não? – ele ainda a segurava pelo braço enquanto tentava beijá-la.
Meu sangue já estava entrando em ebulição em minhas veias. Eu já corria em direção aos dois para arrancar Mel das garras nojentas daquele verme. Ao mesmo tempo, eu tentava me controlar para não avançar nele. Eu sabia que esse era o maior medo dela, o motivo pelo qual ela ainda não tinha me contado sobre as constantes investidas dele. Foi com alívio e orgulho que vi quando minha menina estapeou o rosto daquele canalha. O susto fez com que ele a soltasse, mas eu ainda temia que ele fosse capaz de revidar a bofetada. O olhar furioso que ele lançava para ela me fez correr ainda mais. Se ele tocasse em um fio sequer do cabelo dela eu o mataria.
_ Ficou maluca, garota? Quem você pensa que é para me bater? Hein? – ele rosnava descontrolado passando a mão sobre o rosto vermelho. Os dedos delicados de Mel estavam marcados em suas bochechas. Meu docinho tinha usado todas as suas forças, eu estava certo disso.
Mel estava visivelmente assustada ao ver o ódio estampado no rosto de Mark. Ela tinha medo dele, seu olhar denunciava isso e eu precisava impedir que ele tomasse proveito da situação e tentasse intimidá-la novamente. Eu ainda pude ouvir a voz de Mel que lhe dizia alguma coisa, mas não conseguia compreender o que era. Estava completamente focado nele, me concentrava em suas feições e movimentos tentando prever sua próxima atitude. Naquele momento, tudo o que eu pensava era em chegar até ela e protegê-la da canalhice daquele moleque.
 Mark não dizia mais nada, apenas permanecia encarando-a com uma expressão indecifrável. Eu não podia me demorar mais. Acelerei ainda mais o passo para chegar até ela sem que ele percebesse. O fator surpresa seria minha arma contra ele.
_ Vá embora, Mark, por favor! – eu pude ouvir a voz amedrontada de Mel implorando que ele a deixasse em paz.
Seus olhos estavam cheios de lágrimas e embora ela se esforçasse para não chorar, uma lágrima escorreu por seu rosto. A expressão de Mark ainda era uma incógnita. Eu não sabia o que se passava por sua cabeça. Foi com alívio que vi Mel começar a se afastar vagarosamente. Ela parecia estudar sua reação enquanto dava alguns passos para longe dele. No início ele não se moveu, mas de repente, pareceu acordar de um transe e tentou se aproximar dela novamente. Eu ainda estava um pouco distante, mas precisava impedir aquela aproximação.
_ Mel? – eu a chamei para que ele soubesse que ela não estava sozinha e desprotegida.
Deu certo. Mark desviou o olhar de Mel e olhou em minha direção. Pude perceber claramente o momento em que uma ideia diabólica se acendeu em sua mente doentia. Suas feições adotaram uma expressão que deixou Mel visivelmente apavorada. Ela agora estava congelada diante dele e suas mãos estavam trêmulas e certamente suadas de nervosismo.
_ Agora eu entendi porque você está me dispensando! Quer dizer que o corno do seu namoradinho está na cidade, não é? – ele disse em um tom de voz mais alto do que o normal para que eu o ouvisse. – Você é mesmo muito engraçada, não é, Melinda? Quando o idiota está longe você não para de me ligar e me chamar para sair e quando ele chega você me coloca para escanteio? Pois fique você sabendo que eu não sou substituto de ninguém, nem sou o seu quebra-galho particular!
Ela o olhava atônita. Naquele momento, eu já estava ao lado dela e o encarava com um olhar mortal. Estava novamente concentrado nas ações do imbecil que tentava me envenenar contra minha menina. Ao menor movimento dele, eu o faria beijar o chão e, dessa vez, não iria me contentar em apenas empurrá-lo. Vendo que sua insinuação não tinha surtido efeito em mim, Mark resolveu pegar pesado:
_ Você já contou pro seu namoradinho como você gosta quando eu estou esfolando você por dentro, vadia?
Ao ouvir aquelas palavras, minha visão se tingiu de vermelho. Eu podia sentir a sede de sangue, do sangue daquele animal, me impulsionar para frente, enquanto meu punho fechado voava em direção ao seu rosto. O primeiro soco foi como uma dose de droga injetada na veia de um dependente químico. Trouxe algum alívio para a minha ira, mas não foi o suficiente para aplacá-la. Eu precisava de mais. Me peguei completamente viciado em socar a cara daquele cretino que se debatia embaixo de mim e tentava se proteger dos meus golpes. Eu podia ouvir os gritos apavorados de Mel e, embora não conseguisse entender o que ela dizia, tinha certeza de que me implorava para parar. Eu sabia que devia parar, mas não conseguia. Uma ira incontrolável tinha tomado conta de mim. As palavras ofensivas que ele tinha dito à minha noiva ainda ecoavam em meus ouvidos me incentivando a continuar a castigar o rosto de Mark.
Eu era pura fúria. Estava totalmente fora de mim. Apesar de ter plena consciência da presença de Mel ali tão perto, tudo o que eu conseguia pensar e fazer era esmurrar incansavelmente o rosto de Mark. Eu sabia que Mel deveria estar assustada comigo agora, talvez até decepcionada diante da violência que eu tinha demonstrado ser capaz, mas simplesmente não conseguia parar.
Eu ainda batia furiosamente no rosto de Mark que já sangrava como o porco que ele era, quando me senti ser arrancado de cima dele. Ainda tentei me debater para voltar a ensiná-lo a não desrespeitar a minha menina, mas os três homens que me seguravam firmemente pelos braços me impediram de prosseguir.
Mesmo depois de ter sido socado daquela forma, Mark ainda se levantou meio tonto tentando estancar o sangue com a própria camisa. Eu teria ficado quieto no meu canto se, antes de partir, ele não tivesse olhado mais uma vez para Mel com o ódio estampado no rosto e, em uma ameaça silenciosa, apontado o dedo em sua direção como se fosse uma arma e “atirado”.
O ódio novamente se apossou de mim e comecei a me debater para me soltar dos homens que ainda tentavam me conter. Dessa vez, eu não pararia até matar aquele infeliz. Ele nunca mais ameaçaria ninguém, muito menos a minha menina. Eu já estava disposto a me atracar com aqueles homens até que eles me soltassem, mas a voz de um deles me fez repensar minhas intenções:
_ Vá embora daqui, moleque, antes que eu resolva soltar este rapaz para que ele lhe ensine a não ameaçar moças indefesas!
Mark olhou para o homem com um sorriso debochado e virou-se mais uma vez na direção de Mel jogando-lhe um beijinho no ar. Eu já bufava de ódio novamente e não via a hora de pegá-lo, mas congelei ao perceber que Mel não me olhava nos olhos. Baixei os olhos e encarei o chão com vergonha de mim mesmo.
Vergonha. Angústia. Raiva. Impotência. Eu não sabia como agir, não conseguia pensar direito, mas, principalmente, eu não tinha coragem de olhar nos olhos da minha menina e ver a decepção estampada ali. Decepção que eu tinha causado. Minha culpa. Eu não deveria ter me deixado levar pela raiva. Eu não deveria ter me permitido levar pelas provocações de Mark. Ele havia conseguido o que queria. Eu via uma crise se instalando ali. Estava perdendo a briga apesar de não ter sido fisicamente atingido nem mesmo uma única vez. Porém, a destruição que a minha atitude tinha causado estava estampada no rostinho triste de Mel.
Nós havíamos caminhado lado a lado até a casa de minha avó, onde eu peguei meu carro para levá-la para casa. Durante todo o trajeto ela não tinha olhado para mim nenhuma vez. Sequer falou comigo. Manteve seu olhar fixo no lado de fora do carro através da janela ao seu lado. Meu sangue estava congelado nas veias e eu me sentia entorpecido, talvez pelo excesso da adrenalina que tinha sido injetada em meu coração no momento da briga. Ou talvez fosse simplesmente pelo pânico de que ela não me perdoasse por minha atitude violenta.
Meu olhar estava preso na estrada à minha frente e minha mente não conseguia processar nem mesmo uma frase coerente para tentar quebrar aquele silêncio angustiante. Eu tentava pensar em uma forma de começar uma conversa em que eu pudesse tentar me desculpar por ter estragado a nossa noite, mas meu cérebro não me obedecia. O medo de ouvi-la dizer que não queria ficar com um homem capaz de tamanha violência havia me deixado incapaz de dizer qualquer coisa. Eu repassava as palavras maldosas de Mark em minha cabeça e ainda não conseguia acreditar que ele tinha sido capaz de ofendê-la daquela forma. Ainda que Mel não fosse virgem, ninguém em sã consciência acreditaria por um minuto sequer nas calúnias daquele cafajeste. Mel seria incapaz de uma atitude tão baixa como a que ele a tinha acusado de ter. Ela era a pessoa mais pura que eu já tinha conhecido. Pura não só de corpo, mas também de alma. Mel era um anjo, uma criatura extremamente meiga, um docinho ... o meu docinho.
O carro estava agora parado em frente à casa de Mel e eu não sabia se ela queria que eu entrasse. Eu implorava a Deus para que ela dissesse alguma coisa, para que me pedisse para desligar o motor, que me pedisse para conversarmos e foi com o mais absoluto desespero que eu a vi descer do carro aos prantos e correr em direção à porta de casa sem nada dizer. Meu coração se apertou em meu peito e eu não conseguia me mover. Eu queria correr atrás dela e implorar para que ela me ouvisse, mas depois do que eu tinha feito eu não me sentia digno sequer de respirar o mesmo ar que ela. Eu me sentia sujo. Eu estava sujo. Tinha me sujado com a imundice de Mark ao me deixar levar pela raiva. Tinha caído na armadilha dele e me rebaixado ao seu nível. Mel merecia mais do que um noivo imundo e indigno e foi por isso que eu não a segui. Fiquei ali olhando a mulher da minha vida se afastar de mim totalmente impotente, totalmente destruído.
Meus músculos estavam paralisados. Mais de uma hora havia passado desde que Mel me deixara sozinho e eu permanecia parado do lado de fora de sua casa com o motor do carro ainda ligado. Eu não tinha coragem de sair dali. Era como se o meu oxigênio fosse acabar se eu me afastasse ainda mais dela.
Meu peito doía com a angústia de não poder estar com ela, de não poder aconchegá-la em meu colo e consolá-la. Mas acima de tudo, ele doía por saber que eu era o causador daquele sofrimento.
A luz do farol de um carro batendo no meu espelho retrovisor chamou a minha atenção. O carro do tio Emmett estacionava na garagem de casa trazendo toda a família. Tio Emmett, reconhecendo meu carro, aproximou-se sorrindo, mas seu sorriso se desfez ao olhar para o meu rosto.
_ O que foi, Brian? Por que você está deste jeito? Aconteceu alguma coisa com a minha menina? – a preocupação era visível em sua voz.
Seu tom de voz preocupado atraiu a atenção de todos que ainda saíam do carro. Em poucos segundos eu me encontrava rodeado por meus tios e primas. Nikki me olhava com os olhos arregalados, provavelmente tentando adivinhar o que tinha acontecido. Sem conseguir arrancar uma resposta de mim, tio Emmett abriu a porta do meu carro e me puxou para fora para olhar em meus olhos.
_ Deus do céu, menino! Diga-me o que aconteceu, por favor? – ele pediu angustiado.
Eu o olhava sem conseguir pronunciar uma única palavra. A vergonha me sufocava. Como eu iria dizer a ele que eu tinha agido como um troglodita e magoado a sua filha? Com que cara eu iria olhar para ele e saber que tinha quebrado a confiança que ele tinha depositado em mim quando me entregou sua menina? Meus olhos deixaram escapar as lágrimas que há tanto tempo eu lutava para segurar.
_ Fala comigo, filho? – tio Emmett me abraçou tentando me amparar. – Me diga o que aconteceu? – ele insistiu.
_ Eu vou ver como a Mel está, papai! – Nikki disse olhando em meus olhos e saiu de perto levando tia Rose e as irmãs.
Agradeci mentalmente por isso. A conversa que eu teria com tio Emmett já seria difícil o suficiente para que eu ainda tivesse toda a família como platéia. Assim que elas entraram e fecharam a porta, eu olhei para o rosto preocupado do meu tio e respirei fundo algumas vezes antes de contar toda aquela sujeira. Tio Emmett ouviu tudo o que eu tinha para dizer sem pronunciar uma palavra sequer. Apesar de ver o ódio brilhar em seus olhos quando repeti as palavras infames de Mark pude perceber que ele se esforçava para não sair dali atrás do canalha. Minha vergonha tornou-se ainda maior ao perceber que eu tinha que ter me controlado como ele fazia agora bem diante de mim.
_ Ela deve estar me odiando agora, tio! – eu disse arrasado ao terminar de contar a verdade. – Ela deve estar me achando um troglodita. Eu não podia ter me deixado levar pelas provocações daquele moleque.
Tio Emmett, que até então tinha ficado calado, me abraçou apertado como fazia quando eu ainda era um menino. Deixei que a emoção tomasse conta de vez e liberei o choro na tentativa de aliviar aquela pressão horrível em meu peito. A princípio, ele nada disse, apenas deixou-me molhar sua camisa com as minhas lágrimas enquanto acariciava meus cabelos com o mesmo carinho de sempre. Como era possível que ele não sentisse raiva de mim por ter magoado sua filha da forma que eu tinha magoado? Eu mesmo não conseguia me perdoar pelo que eu tinha feito, no entanto, ele estava ali, como sempre esteve, para me apoiar.
_ A violência realmente não é a melhor saída para resolver os problemas, Brian! Mas eu devo confessar que estou orgulhoso de você! – ele disse me surpreendendo.
_ C-como? – eu o olhava atônito sem conseguir acreditar em meus ouvidos. – O senhor não está decepcionado comigo? – perguntei.
_ De forma alguma! – ele disse com firmeza – Eu sei que você poderia ter tentado resolver a situação de outra maneira, mas eu estou orgulhoso por você ter defendido a honra da minha filha, mesmo que o tenha feito de forma violenta. Eu tenho que admitir que eu teria feito pior com aquele moleque. Certamente eu o teria matado se estivesse no seu lugar.
_ Mas eu queria matá-lo, tio. Só não o fiz porque me tiraram de cima dele, mas eu não o teria soltado até que ele estivesse morto. E é isso o que mais me assusta. O senhor sabe que eu nunca fui uma pessoa violenta, mas ele conseguiu despertar uma fúria assustadora em mim, algo que eu nunca tinha sentido antes. Eu me sinto tão sujo agora, sinto que eu não mereço a mulher que eu tenho. A Mel merece alguém melhor do que eu. – eu disse voltando a chorar.
_ Não diga tolices, menino! – ele me repreendeu. – Não existe ninguém neste mundo mais merecedor da minha filha do que você. O meu respeito e a minha admiração por você não mudaram em nada por causa da sua atitude. E eu tenho certeza de que a Mel também não se decepcionou com você!
Como eu queria que as suas palavras expressassem a verdade dos fatos! Eu queria muito acreditar que ela estava apenas assustada com a minha reação, que ela não tinha se decepcionado comigo, mas isso não era possível. Não depois de vê-la correr aos prantos para dentro de casa sem falar comigo.
_ Se o senhor tivesse visto como ela correu para longe de mim assim que eu parei o carro, não me diria essas coisas. – eu sussurrei sentindo mais uma vez o peito sufocado.
_ Vocês chegaram a falar sobre o assunto? – ele me perguntou.
_ Ela sequer olhou para mim depois que tudo acabou, tio! Se ela tivesse dito qualquer coisa, mesmo que tivesse gritado comigo ou me ofendido, eu estaria menos angustiado agora. – confessei.
_ Filho, já passou pela sua cabeça que ela pode ter agido assim por medo de você ter acreditado nas calúnias daquele rapaz? – ele me perguntou.
_ Eu nunca faria isso, tio! – respondi indignado. – Como ela poderia acreditar em um absurdo desses?
_ Da mesma forma que você está pensando que ela lhe odeia agora! – ele respondeu simplesmente. – Você não imagina as confusões que a falta de diálogo entre duas pessoas pode causar!
Sim, eu sabia. Meu pai tinha me contado sua história quando me revelou sobre as investidas de Mark para cima de Mel. Minha mãe tinha tentado esconder dele que o ex-marido a tinha abordado e tinha colocado sua vida e a de Sofia em perigo. Meu pai me contou que tinha reagido mal ao finalmente saber a verdade e que, por causa de sua reação, minha mãe quase perdeu o bebê. Foi pensando nisso que ele decidiu me contar sobre o que estava acontecendo com Mel. Ele esperava que eu estivesse preparado e que eu soubesse esperar até que Mel tivesse coragem de me contar a verdade. Ainda me lembro de suas palavras ao terminar de me contar tudo: “Ouça tudo o que ela tiver a lhe dizer, filho. E não a julgue por não ter contado antes, ela só está assustada e cabe a você fazê-la se sentir segura o suficiente para se abrir com você”.
O que mais me angustiava era que, diante da minha reação às palavras de Mark, ela jamais se sentiria confiante o suficiente para se abrir comigo. Parecia que, se eu ainda não tinha fechado as portas para o diálogo, eu certamente tinha colocado um imenso obstáculo para que ele acontecesse.
_ Vá para casa, Brian! – a voz carinhosa de tia Rose me tirou dos meus pensamentos – Descanse um pouco e amanhã vocês conversam. Mel está dormindo agora e você deveria tentar fazer o mesmo.
Eu estava tão absorto em meus pensamentos que não tinha percebido que tia Rose estava de volta. Apenas assenti com a cabeça, recebendo um abraço e um beijo carinhoso de meus tios e entrei novamente em meu carro dirigindo sem rumo pela cidade. Quando o cansaço finalmente começou a me tomar decidi voltar para casa. No caminho de volta, eu tentava me convencer de que tudo seria esclarecido no dia seguinte, mas algo me dizia que as coisas não seriam tão simples assim.
No instante em que entrei em casa, minha mãe veio em minha direção e me deu aquele abraço protetor e carinhoso que ela sempre reservava para mim quando eu estava triste. Suas mãos deslizavam suavemente por meus cabelos me trazendo um pouco de conforto. Ficou obvio que tia Rose havia ligado para ela assim que eu tinha saído de sua casa.
_ Amanhã vocês conversam e resolvem todos os problemas, anjinho! – ela disse com sua voz suave tentando me fazer sentir melhor.
_ Eu espero que sim, mãezinha! Eu espero honestamente que sim! – respondi sem conseguir segurar um suspiro cansado.
_ Você está esgotado, filho! Vá se deitar e tente descansar um pouco. Você precisa estar mais forte para a conversa que terão amanhã! – ela disse me levando pela mão até a porta do meu quarto.
Meu pai nos seguia calado, me olhando com carinho, apenas repousando uma de suas mãos sobre o meu ombro direito. Em seu silêncio, ele me dizia que estaria ali caso eu sentisse a necessidade de desabafar, mas eu não queria falar. Não naquele momento. Eu só queria me deitar e tentar dormir para que o dia seguinte chegasse mais rapidamente e eu pudesse tentar trazer a minha menina de volta para mim.
Entrei em meu quarto indo direto para o chuveiro. Eu esperava que a água quente pudesse lavar a sujeira de Mark que estava impregnada em minhas mãos que agora latejavam. Minha aliança estrangulava meu dedo inchado pelos incontáveis golpes aplicados no rosto daquele moleque inconseqüente. Com muito esforço, consegui tirá-la do dedo e senti um imenso vazio assim que a coloquei sobre a mesinha de cabeceira ao lado da minha cama. Minha mãe me esperava sentada em minha cama e me olhava com o semblante preocupado. Deitei-me calado com a cabeça apoiada em seu colo. Seus dedos passeavam suavemente por meus cabelos em um carinho gostoso que só uma mãe é capaz de oferecer. Não dissemos uma palavra sequer. Permanecemos por um longo tempo em um silêncio confortável e embora o cansaço já começasse a me dominar eu estava ciente de sua presença protetora ali.  Aos poucos, comecei a me permitir relaxar e deixei que o sono me abraçasse. No dia seguinte, eu conversaria com Mel e tentaria me explicar. Eu só não sabia ainda se aquele pesadelo estava prestes a acabar ou se estava apenas começando. 




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