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Juiz de Fora, Minas Gerais, Brazil
Apesar de ser mestre em Linguística e ter toda a minha vida acadêmica voltada para o ensino de línguas, sempre fui amante da literatura, devoradora de livros, filmes e séries. Sempre tive um sonho: escrever. Durante muito tempo, o medo de fracassar me impediu de realizar esse sonho, mas uma grande amiga me incentivou e me deu a coragem de enfrentar meus fantasmas e graças a ela eu hoje posso dizer que me sinto uma pessoa melhor, mais confiante e absolutamente ciente do meu potencial.

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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Capítulo XVIII – Resgatadas




Narrado por Edward
        
Emmett e eu estávamos havia horas conversando em sua sala. A ala pediátrica tinha crescido assustadoramente nos últimos anos e precisava de um administrador exclusivo. Pensávamos na possibilidade de colocá-la sobre a responsabilidade de Brian e Seth, transformando-a em uma clínica pediátrica independente do hospital. Como diretor do setor, eu não me opunha, mas precisávamos ainda verificar as implicações jurídicas de nossa atitude.
_ ... de qualquer forma, essa transição não aconteceria da noite para o dia, Edward. Enquanto isso, eles podem passar um período aqui comigo para se familiarizar com ... – ele foi interrompido pelo toque do seu celular.
_ Atende, Emmett! – eu disse quando ele hesitou – Pode ser importante!
_ É a Mel! – ele disse sorrindo ao ver o nome da filha no visor – Oi, filhota do papai!
Seu sorriso, de repente, esmaeceu. Emmett me olhava visivelmente assustado.
_ Emmett, o que foi? Algum problema com a Mel? – perguntei ansioso com o seu silêncio.
Ele não me respondeu. Colocou o telefone no viva-voz deixando-o sobre a mesa. Do outro lado da linha, podíamos ouvir a voz chorosa de Mel, mas ela não falava com o pai.
_ Mark, pelo amor de Deus, nós precisamos voltar! Sofia está ferida! Não podemos deixá-la caída no estacionamento do shopping! – meu coração acelerou ao ouvir aquilo. Minha filha estava ferida?
_ Não me importa! Eu não vou voltar lá e ser preso por agressão! Eu não sou nenhum estúpido, Melinda! – ele respondeu aos gritos. O desgraçado tinha agredido a minha menina e a deixado caída sem socorro.
Meu corpo praticamente saltou da cadeira, minhas mãos trêmulas e suadas já buscavam o pager. Eu precisava acionar a equipe de emergência do hospital e correr para o shopping.
_ Mas ela está mal, está sangrando muito! Nós precisamos levá-la a um hospital! – ela gritava aos prantos.
_ EU JÁ FALEI QUE NÃO IMPORTA, DROGA! – ele gritava a plenos pulmões – AGORA CALA ESSA MALDITA BOCA ANTES QUE EU PERCA O CONTROLE DE NOVO E BATA EM VOCÊ TAMBÉM!
Eu não podia mais ficar parado ali. Corri daquela sala, deixando Emmett congelado em sua cadeira ouvindo o desespero da filha. Eu disparava pelos corredores como um louco, a adrenalina correndo descontrolada pelo meu corpo me deixando cada vez mais trêmulo. Eu tinha que me controlar, precisava pensar com clareza para prestar socorro à minha filha. A equipe de emergência já estava a postos me esperando quando os avistei. Entrei em meu carro, arrancando em alta velocidade sendo seguido pela ambulância. Os carros, nas ruas, paravam nos acostamentos nos dando passagem. Minhas mãos suavam, escorregando pelo volante quando entramos no estacionamento do shopping. Uma pequena quantidade de curiosos, que se amontoava tentando ver o que tinha acontecido, se espalhou ao ver a ambulância encostando e os paramédicos retirando a maca para remover minha menina dali.
Corri em direção a Sofia. Não sabia há quanto tempo ela estava inconsciente, não fazia idéia da extensão dos seus ferimentos, mas a enorme poça de sangue que se acumulava perto de sua cabeça me fez prender a respiração. Jake, que tinha me acompanhado com a ambulância, examinou o ferimento na cabeça de Sofia, estancou o sangue, passou o colete cervical em seu pescoço e imobilizou o seu corpo, prendendo-o à maca. Eu não conseguia agir. Assistia a tudo petrificado, trêmulo, apavorado. Sofia não respondia a nenhum estímulo e a cada minuto que ela passava inconsciente a sua situação poderia se agravar ainda mais.
A maca foi colocada no fundo da ambulância e Jake me deu um olhar preocupado antes de desaparecer atrás da porta fechada. A ambulância saiu em disparada pelas ruas de Edmonds de volta ao hospital, as sirenes afastando todos os carros do caminho na medida em que passávamos por eles. Eu não conseguia mais enxergar a estrada. Dirigia no piloto automático, minha mente me atormentando com a imagem da minha menina ferida ... inconsciente. Eu revivia com riqueza de detalhes os momentos angustiantes que enfrentara na época em que Bella estava grávida de Sofia. A crise de hipertensão que poderia ter acabado em tragédia, a tensão constante pela ameaça de Michael, o desespero ao acharmos que ele a tinha sequestrado ... Tínhamos lutado tanto, enfrentado tantas dificuldades e agora corríamos mais uma vez o risco de perdê-la. O olhar de Jake me dissera que o ferimento poderia ser grave. Eu implorava a Deus para que ele estivesse enganado, para que tudo aquilo não passasse de mais um enorme susto.
Bella. Deus do céu! Como eu iria contar a ela o que tinha acontecido? Como eu poderia dar uma notícia dessas a ela, vê-la desmoronar diante de mim e permanecer de pé? Eu ainda me fazia todas essas perguntas sem conseguir encontrar uma resposta sequer, quando o meu telefone tocou. Era Emmett.
_ Diga, Emmett! – atendi sem tirar os olhos da pista.
_ Edward, estou indo com a polícia atrás daquele bastardo. Ele está com a minha filha e nós vamos acabar com ele de uma vez por todas! – sua voz soava furiosa ao telefone. – Como está Sofia?
_ Ainda não sabemos, Emmett! – respondi com o coração apertado no peito – Ela está inconsciente e perdeu muito sangue. Estamos a caminho do hospital. Jake está com ela na ambulância.
Ele ficou em silêncio por quase uma eternidade. Meu corpo saltou de susto com o seu grito colérico.
_ Desgraçado! Eu vou matar aquele moleque com as minhas próprias mãos! Eu acabo com a minha vida, mas ele não vai mais tocar em um fio de cabelo das nossas meninas! Eu prometo, Edward!
Não houve tempo para que eu dissesse qualquer coisa. Emmett já tinha desligado. Eu só esperava que ele não fizesse nenhuma bobagem. Por mais que eu desejasse matar o bastardo eu mesmo, sabia que não era a atitude certa a ser tomada.
A ambulância parou em frente ao hospital e a maca foi rapidamente levada para o centro de traumatologia. No canto da sala, encostado em uma parede, eu observava os médicos e enfermeiros prestarem o socorro a Sofia. Minha cabeça rodava, meu estômago se contorcia e eu sentia que faltava pouco para minhas pernas falharem. Não há profissionalismo médico que se sustente quando alguém que a gente ama corre perigo de vida. A sensação de impotência é aterradora.
Eu respirava profundamente, tentando acalmar as batidas do meu coração e controlar a sensação de náusea que ainda me golpeava o estômago, quando a porta da sala se abriu com força de repente. O que eu mais temia tinha acabado de acontecer. Bella tinha ficado sabendo de tudo e acabava de entrar na sala em total desespero.
_ Jake? – ela sussurrou com o olhar assustado cravado em nossa filha. Ela ainda não tinha me visto.
Jake não respondeu e Bella fez menção de se aproximar da maca. Corri em sua direção e a puxei de volta abraçando-a por trás envolvendo a sua cintura com força.
_ Edward, o que foi que aconteceu? – ela me perguntou baixinho, sua voz saindo chorosa.
_ Ela foi agredida no shopping, amor! Estava caída inconsciente no estacionamento. – respondi simplesmente.
Bella levou a mão à boca abafando um grito de horror. Seus olhos me encaravam assustados. Seu corpo todo tremia em reação à notícia e eu decidi ocultar o resto, pelo menos por aquele momento. Era informação demais para absorver de uma só vez. Eu mesmo ainda não tinha conseguido processar aquilo tudo. Virei seu corpo de frente para mim e peguei o seu rosto com ambas as mãos forçando-a a olhar em meus olhos.
_ Ela vai ficar bem, amor! Vai ficar tudo bem, acredite em mim! – prometi sem estar totalmente seguro se toda aquela confusão teria uma solução favorável.
Bella apenas assentiu, deixando uma lágrima rolar de seus olhos. Apertei o seu corpo contra o meu em um abraço sufocante e depositei um beijo trêmulo em sua testa. Bella permaneceu quieta em meus braços, chorando silenciosamente. Meu coração batia dolorido no peito. Medo ... Raiva .... Angústia. Depois de receber os primeiros socorros, Sofia foi levada para a sala de tomografia. Ela ainda teria que passar por muitos exames até termos uma idéia da extensão dos seus ferimentos. Embora eu quisesse acompanhá-la, permaneci ao lado de Bella. Ela precisava de mim e eu sabia que Sofia estava em boas mãos. Jake e, depois, Jasper, cuidariam dela como cuidariam de suas próprias filhas. A sala da traumatologia foi, aos poucos, ficando silenciosa. O único ruído que eu identificava era o som dos soluços baixinhos de Bella que continuava fortemente agarrada a mim. Inspirei profundamente tentando manter o controle, pedindo a Deus que salvasse a nossa menina ... nosso tesouro ... nossa bonequinha ...

Narrado por Emmett

        Depois do susto e da inércia inicial provocados pelo telefonema de Mel, minha mente começou a trabalhar em uma velocidade espantosa. Eu ouvia a voz assustada da minha filha implorando para que aquele monstro voltasse para o shopping onde ele havia abandonado o corpo inconsciente de Sofia. Mel chorava desesperada, preocupada com a prima. Edward já tinha saído em busca da filha e eu precisava fazer alguma coisa para salvar a minha. A voz daquele moleque ameaçando a minha menina fazia o meu coração acelerar no peito, mas ele quase parou ao ouvir aquilo:
_ Mulher nenhuma diz não para mim, Melinda! Eu tenho uma reputação a zelar e não vou deixar que você seja a primeira a manchá-la.
_ O que ... o que você quer dizer com isso? – a voz de Mel soava apavorada – O que você vai fazer comigo, Mark?
 Eu soube o que ele queria dizer assim que ele pronunciou aquelas palavras. Eu não podia mais ficar parado ali. Acionei a polícia e informei sobre o sequestro da minha filha. Enquanto passava todas as informações para o delegado, entrei no programa de rastreamento de celulares e digitei o código do GPS do celular de Sofia. O site não demorou a me dar a sua exata localização. Passei a informação para o delegado e desliguei o telefone. Iria me encontrar com aquele demônio e esperava que a polícia não chegasse a tempo de me impedir de matá-lo. Liguei para Edward no caminho para a casa onde aquele monstro mantinha a minha filha e meu ódio só fez aumentar ainda mais quando meu irmão me informou do estado de Sofia. Lembrei-me da ameaça de Michael, da luta de Edward para manter a família segura, do seu completo desespero ao pensar que a filha tivesse sido levada, do descontrole de Bella ao saber da notícia. Minha filha não passaria por isso. Minha família não passaria por isso. Eu não iria deixar. Iria ao inferno, mas acabaria com a raça amaldiçoada daquele imbecil.
Parei em frente à casa abandonando o carro aberto, o motor ligado com a chave ainda na ignição. Já podia ouvir ao longe o barulho das sirenes. Eu não tinha muito tempo até que a polícia chegasse e tomasse conta da situação. Corri até a porta da frente e forcei a maçaneta. Inacreditavelmente, ela estava destrancada. Entrei. Do andar inferior eu podia ouvir o choro desesperado da minha menina. Meu coração batia cada vez mais forte e mais rápido em meu peito. Subi as escadas correndo, seguindo o som do choro da minha filha que vinha de trás da única porta trancada.
_ MEL! – gritei do lado de fora enquanto tentava arrombar a porta com meus pés – ABRE ESSA PORTA, SEU DESGRAÇADO! EU VOU ACABAR COM A SUA RAÇA MALDITA SE VOCÊ ENCOSTAR A SUA MÃO IMUNDA NA MINHA FILHA!
A porta não demorou a ceder. Partiu-se ao meio e tombou sobre o chão com um estalo seco. Disparei para dentro do quarto como um touro furioso, mas o monstro não estava mais lá. Tinha fugido pela janela como o covarde que era. Sobre a cama, encolhida na cabeceira como um bichinho acuado, minha menina chorava descontroladamente de olhos fechados. Seu corpo seminu tremia convulsivamente, todos os músculos contraídos pelo estresse. Seu braço trazia uma enorme mancha roxa, era visível a marca dos dedos do canalha. Os punhos sangravam, em carne viva. Aproximei-me vagarosamente, tentando não assustá-la ainda mais.
_ Filha? – eu a chamei baixinho, mas ela não reagiu – Mel? Olha para mim, meu amor? Acabou! Você está segura agora!
Ela abriu os olhos parecendo reconhecer a minha voz e me encarou. Seu olhar amedrontado me fez prender a respiração. Senti uma imensa vontade de chorar, mas precisava manter o controle ... por ela ... para ela.
_ Me ... me l-leva daqui, papai? – ela disse entre soluços.
_ Eu vou te levar, amorzinho! O papai vai te levar daqui! – eu sussurrei em seu ouvido abraçando o seu corpo frágil, cobrindo-o com uma manta. – Você está segura agora! Eu estou aqui com você!
A polícia logo invadiu a casa, mas o canalha já deveria estar longe dali. Por mais que eu desejasse ir atrás dele até o inferno, minha filha era a minha prioridade. Mel estava assustada, machucada e precisava de cuidados médicos. A casa estava toda cercada quando passei pela porta da frente com minha menina no colo. Ela se encolheu ainda mais em meus braços ao ver tantas pessoas estranhas. Estava aterrorizada e seu corpo ainda tremia muito. As lágrimas desciam livremente pelo rosto de anjo e meu coração já não aguentava mais vê-la tão fragilizada. Meu ódio por aquele moleque aumentava na proporção em que as lágrimas escorriam pelo rosto da minha garotinha. Soluços intensos sacudiam o corpo pequeno e frágil de Mel.
Coloquei-a sentada no banco do carro, mas ela não queria se soltar de mim. Eu não tinha como dirigir com ela naquele estado. Uma policial, vendo a minha aflição, ofereceu-se para tomar a direção. Sentei com Mel em meu colo no banco de trás enquanto o carro partia em direção ao hospital sendo escoltado por uma viatura da policia. Mel agarrava-se a mim como quem se agarra a um galho de árvore à beira do precipício antes de cair. Eu a apertava em meus braços, acariciando seus cabelos, tentando acalmá-la, mas nada parecia surtir efeito. Já estava à beira do desespero. Vê-la daquele jeito estava me matando.
O carro mal tinha parado em frente ao hospital e toda a equipe de emergência já corria em nossa direção. Saí com Mel em meus braços e tentei colocá-la sobre a maca, mas ela permanecia agarrada a mim. Entrei no prédio com ela nos braços, não poderia forçá-la a uma situação que a deixasse ainda mais fragilizada. Se ela precisava me sentir junto dela, ela me teria ali, durante todo o tempo que fosse necessário.
Na sala de emergência, ela se encolhia a cada vez que alguém chegava perto dela. Não permitia que ninguém além de mim a tocasse. Rose entrou na sala transtornada, correndo em nossa direção e abraçando a filha com força. Mel voltou a chorar convulsivamente, demonstrando uma fragilidade de cortar o coração. Tentávamos acalmá-la, mas nada parecia funcionar. Ela precisava de cuidados, seu punho ainda sangrava e a ferida precisava ser limpa. Ela precisava ser examinada, mas no estado em que estava, ela não permitiria que ninguém se aproximasse.
Rose foi obrigada a sedá-la para que pudéssemos examiná-la e cuidar de seus ferimentos. Não sei como descrever o alívio que senti quando Rose não encontrou nenhuma laceração que indicasse violência sexual. Meu maior medo era que eu não tivesse chegado a tempo de evitar que ele a marcasse daquela forma. Ela jamais se recuperaria de um trauma tão grande e tão horrendo. Mel não demorou a ser transferida para o quarto. Passaria a noite em observação. Fisicamente ela estava bem, mas, psicologicamente, ainda era muito cedo para dizer qualquer coisa. Ainda tínhamos que contar a Seth e a Brian sobre o que havia acontecido e tentar impedi-los de fazer qualquer bobagem. Eu precisava conversar com Edward, saber sobre o estado de saúde de Sofia, mas não queria sair de perto da minha filha. Rose dormia exausta no sofá no canto do quarto. Embora tivesse saído de um plantão de 24 horas, tinha se recusado a ir para casa, ainda que eu prometesse não arredar o pé do quarto de Mel.
Levantei-me da poltrona onde estivera sentado desde que Mel fora levada para o quarto ainda sedada. Aproximei-me da cama, acariciando o rosto sereno da minha menina. Os punhos estavam agora envoltos em um curativo, a mão pequena e delicada trazia uma agulha com soro. Ela precisava descansar. Eu precisava descansar. Os dias que se seguiriam seriam difíceis para todos nós. Teríamos que manter a serenidade diante dos possíveis traumas que aquela experiência teria infligido em minha filha. Uma lágrima traiçoeira escapou de meus olhos. Encostei-me na parede ao lado da cama e deixei meu corpo escorregar até que eu me sentasse no chão abraçado às minhas pernas. Hoje, eu me permitiria fraquejar. Amanhã, eu voltaria a ser a fortaleza que a minha família precisava que eu fosse. Naquele momento, tudo o que eu queria fazer era chorar. Chorar por Mel ... chorar por Sofia ... chorar por mim.


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