Bella acordou com o toque insistente de seu telefone. Olhou o relógio antes de atender. Eram seis horas da manhã. Quem estaria ligando para ela a uma hora daquelas? Será que algum de seus pacientes tinha piorado?
_ Alô! – atendeu com a voz ainda grave de sono.
_ ...
_ Alô? – insistiu.
Do outro lado da linha havia um silêncio absoluto. “Talvez a ligação esteja com problemas”, pensou ao colocar o telefone de volta na base. Voltou a repousar a cabeça sobre o travesseiro, mas o sono não veio. Decidiu tomar um banho para relaxar a musculatura tensa, resultante do plantão do dia anterior. Enquanto a banheira se enchia de água quente, foi ao closet separar a roupa que usaria para trabalhar naquele dia. De volta ao banheiro, despejou seus sais de banho preferidos na água. Relaxou sentindo o calor da água e o cheirinho gostoso de pêssego que invadia suas narinas trazidos pelo vapor d’água que saia da banheira. Lembrou-se da conversa que tivera com Leah Clearwater cinco dias depois da festa de inauguração do novo anexo:
Bella caminhava em direção ao seu carro no estacionamento do hospital depois de um dia cansativo de trabalho quando ouviu uma voz feminina chamar seu nome:
_ Bella? – Bella virou-se para encarar Leah que se aproximava sorridente.
_ Leah, como vai? Se veio ver o Jake, ele está de folga hoje.
_ Estou muito bem, Bella! Na verdade vim aqui porque gostaria de falar com você. Já está de saída?
_ Sim. Podemos voltar para o meu consultório ou se você não se importar podemos conversar em minha casa. Me acompanha? – Leah assentiu.
Em casa, Bella preparou um café aguardando que Leah dissesse o que queria.
_ Bem, Bella! Eu serei bem direta com você. Eu andei pesquisando sobre o andamento do seu divórcio e descobri que o processo está parado.
_ Como assim, parado? Eu deixei bem claro para o advogado que eu queria me ver livre do Michael o mais rápido possível! – disse arregalando os olhos de susto.
_ Bella, eu andei investigando esse advogado que você contratou e... – Leah hesitou.
_ E...? – insistiu Bella.
_ Bem... ele tem perdido os prazos para a entrega dos documentos, Bella. E tem mais... quando eu fui procurá-lo em seu escritório, adivinhe quem estava saindo todo alegrinho de lá de dentro?
_ Quem? – Bella perguntou desconfiada.
_ Michael MacCalister.
Bella fechou as mãos em punho com força e respirou fundo várias vezes antes de falar:
_ Leah, você acredita que o advogado possa estar recebendo dinheiro de Michael para perder os prazos? – disse tentando manter a calma.
_ Bella, é antiético o que eu vou dizer, mas tenho certeza de que é isso mesmo o que está acontecendo.
_ Meu Deus, o que eu faço? Leah, me ajude, por favor! Eu não sei como agir nesse caso. – pediu Bella sentindo-se perdida.
_ Bella, a primeira coisa que você deve fazer é cassar a procuração que passou para esse advogado. Não é nada complicado e eu vou te ajudar. Depois disso, é só você nomear outro advogado para cuidar do seu caso.
_ Você aceitaria ser minha advogada nesse caso, Leah? Eu não confio em mais ninguém, por favor? – pediu Bella.
_ É claro que sim, Bella! Não se preocupe. Vou preparar a procuração em que você me nomeia como sua advogada e assim que você assinar o documento, darei entrada com o pedido de divórcio e te garanto que vai sair o mais rápido possível. – Leah sorria confiante.
Naquele mesmo dia, Bella cassou a procuração que havia passado para o primeiro advogado e Leah pôde dar entrada nos papéis do divórcio em nome de Bella.
O barulho do telefone a tirou de suas lembranças. Bella vestiu-se com um roupão e correu para atender o aparelho.
_ Alô?
_ ...
_ Alô? – uma leve respiração podia ser ouvida do outro lado da linha. – Alô?
Bella desligou o telefone mais uma vez, mas agora tinha certeza de que havia alguém do outro lado da linha. Uma coisa a incomodava: por que a pessoa não dissera nada? Sentiu um frio subir por sua coluna com a possibilidade de ser Michael, porém, desde a noite da festa ele nunca mais tinha dado sinal de vida e já se tinham passado dois meses desde então.
Antes de sair de casa para o trabalho, Bella atendeu novamente o telefone. Ainda podia ouvir a respiração do outro lado da linha, mas ninguém dizia nada. Irritada, ela bateu o telefone e saiu de casa pisando duro.
_ Hey, Dra. Delícia! Aonde a senhora vai furiosa desse jeito, hein? – Edward sorria parado do lado de fora do carro em frente à casa de Bella.
_ Poxa vida, finalmente uma coisa boa no meu dia! – Bella sorria enquanto caminhava na direção de Edward. – Veio me buscar, meu anjo?
Edward envolveu fortemente a cintura de Bella com seus braços e deu-lhe um beijo suave nos lábios.
_ Gostou da surpresa? – perguntou sorrindo e colando sua testa na dela.
_ Amei. – ela respondeu recostando a cabeça em seu peito e sentindo aquele perfume que a enlouquecia. – Senti sua falta na minha cama esta noite.
_ Eu também, meu anjo! Acho que vou pedir ao Emmett para me colocar de plantão junto com você. O que você acha? – ele perguntou com um sorriso maroto no rosto.
_ Hum... acho que vai ser maravilhoso! Mesmo estando em um hospital, passar a noite toda com você vai ser muito, muito bom mesmo! – ela disse dando um beijo em seu queixo.
_ Então está resolvido. Plantão juntos. – ele disse beijando-lhe os cabelos. – Sabia que eu adoro esse seu cheirinho de pêssego? Dá vontade de te morder.
_ Você pode me morder a hora que quiser, Dr. Cullen, mas agora eu tenho que ir trabalhar! – ela disse acariciando-lhe o rosto. – Você só veio me ver antes de ir para casa descansar ou veio me buscar para me levar para o trabalho?
_ As duas coisas, Dra. Delícia! As duas coisas. – disse ele abrindo a porta do Volvo para que Bella entrasse.
No caminho para o hospital Edward se lembrou da expressão irritada de Bella ao sair de casa.
_ Meu anjo, por que você estava irritada ao sair de casa hoje? Aconteceu alguma coisa que eu não saiba? – ele perguntou.
_ Acho que não é nada, Edward, mas hoje eu acordei com o telefone tocando às seis da manhã. Quando atendi, a linha parecia muda, então desliguei. Mas até a hora em que eu saí o telefone tocou mais duas vezes e eu pude ouvir uma respiração do outro lado da linha, mas ninguém disse nada. Eu sei que pode parecer bobagem, mas fiquei irritada por causa disso.
Edward estacionou o carro na porta do hospital e virou-se preocupado para Bella.
_ Você acha que pode ser o seu ex-marido, meu anjo? – suas mãos estavam fechadas em punho na tentativa de conter a raiva que já se apoderava dele.
_ Essa hipótese passou pela minha cabeça, Edward, mas se fosse o Michael eu acredito que ele diria alguma coisa. Eu não sei. Pode ser algum desocupado passando trote e eu fico aqui na maior paranóia. Não se preocupe. Não deve ser nada. – ela disse percebendo sua preocupação.
_ Não é paranóia, Bella! Todo cuidado é pouco com esse crápula. Eu não vou dar chance de ele fazer nada contra você, meu anjo, nada! – Edward a abraçou com força. – Agora, entre, minha linda, senão você vai se atrasar.
Bella desceu do carro depois de dar um último beijo nos lábios de Edward e entrou no hospital. Sabia que ele tinha ficado preocupado por causa dos telefonemas e se repreendeu por ter contado. Não queria que ele ficasse apreensivo por algo que poderia não passar de uma brincadeira sem graça de algum moleque desocupado.
Bella passou a manhã visitando seus pacientes, almoçou com Emmett, Jasper, Rosalie e Alice no restaurante do hospital e já se encaminhava para retomar suas consultas quando seu celular tocou. Era Leah Clearwater avisando que a audiência do divórcio seria na semana seguinte.
_ Leah, você acha que desta vez o divórcio sai? – perguntou insegura.
_ Com certeza, Bella! Eu já disse para você não se preocupar. Esta será a última audiência. Como Michael não apareceu nas duas primeiras, o juiz convocou esta terceira. Se ele não aparecer nesta, o juiz dá ganho de causa a você.
_ Mas e se ele aparecer? Ele vai dizer que não quer se divorciar, Leah! O juiz não vai ficar com aquela história de conciliação? Eu não quero isso, por favor? – o nervosismo já tomava conta de Bella.
_ Bella, confie em mim! Ele não vai comparecer à audiência. Amiga, na próxima semana você sairá daquele tribunal como uma mulher livre. – ela disse confiante.
_ Espero que sim, Leah. Eu não aguento mais tudo isso. Eu quero me livrar desse fardo o mais rápido possível. Quero seguir adiante com a minha vida e isso está me empacando, entende? – Bella desabafou.
_ Se “seguir adiante com sua vida” quer dizer que você está doidinha para se amarrar ao Dr. Gostosão, entendo sim, amiga. – Leah riu.
_ Hey, mais respeito com o meu Dr. Gostosão, ouviu? Eu vi primeiro! – Bella brincou.
_ Pode ficar com ele todo para você, boba. Eu tenho o meu próprio Dr. Gostosão, se é que você me entende? Bem, agora eu tenho que desligar. A gente se fala antes do dia da audiência, está bem? Um beijo grande. Tchau!
_ Um beijo para você também e, mais uma vez, obrigada por tudo! – Bella disse antes de desligar o telefone.
A tarde passou lentamente e às dezoito horas Edward estava no estacionamento do hospital esperando por Bella.
_ Como foi o seu dia, meu anjo? – ele perguntou dando-lhe um beijo molhado nos lábios.
_ A manhã passou rapidamente, mas a tarde se arrastou. – ela disse manhosa se aninhando em seus braços – Acho que é porque eu fiquei contando os segundos para te ver.
_ Hum... Se você tivesse me ligado eu teria vindo correndo para cá, bobinha! – ele disse beijando-lhe os cabelos e apertando-a ainda mais em seus braços.
_ Eu sabia que você precisava dormir. Pensa que eu não percebi suas olheiras de cansaço hoje pela manhã? Além do mais, você precisa dar atenção ao Brian. Eu não posso te monopolizar, sabia moço? Bem que eu adoraria ter você todo para mim, mas... – lamentou-se.
_ Eu já sou todo seu, sua bobinha! – disse roçando a ponta de seu nariz no de Bella - Agora vamos embora porque tem um certo anjinho que intimou a tia Bella para jantar lá em casa hoje.
_ Um anjinho, sei! Será que por acaso o papai desse anjinho não está por trás dessa intimação? – ela perguntou estreitando os olhos.
Edward riu culpado.
_Bem... pode ser que o papai do anjinho tenha dado uma forcinha para ele intimar a tia Bella para jantar. Mas ele também está morto de saudades dela. – Edward sorriu travesso.
_ Edward? – Bella fingiu-se de ofendida. – Você não tem vergonha de manipular seu próprio filho para conseguir o que quer? Que coisa feia Dr. Chantagista!
Edward deu uma sonora gargalhada. Adorava os apelidos que Bella arrumava para ele. Deu-lhe mais um beijo de tirar o fôlego antes de abrir a porta do carro para Bella. Conversaram sobre diversos assuntos no trajeto para a casa dos Cullens, mas Edward tinha um assunto em especial que queria perguntar a Bella. Só estava esperando o momento certo para abordá-lo. Sabia que depois de entrar em casa não teria oportunidade, pois Bella seria “seqüestrada” por sua família, então decidiu falar assim que estacionou o carro na garagem de casa.
_ Er... Bella? – ele hesitou.
_ Sim? – ela se virou na direção de Edward que continuava calado. – O que foi, meu anjo?
_ Eu queria lhe fazer uma pergunta, mas eu não queria que você pensasse que eu estou lhe pressionando, tudo bem? – disse acariciando o rosto de Bella.
_ Pode falar, Edward! O que você quer saber? – Bella perguntou já sabendo qual seria a resposta.
_ É sobre o seu processo de divórcio. Alguma novidade? – ele perguntou constrangido.
Bella pensou um pouco antes de responder. Sabia que Edward estava tão ou mais ansioso do que ela para que a sentença saísse, mas não queria lhe dar falsas esperanças. Decidiu que não falaria ainda sobre a terceira audiência. Deixaria para falar somente quando soubesse a decisão do juiz.
_ Edward, eu ainda estou esperando que a terceira audiência seja marcada. Leah disse que não deve demorar, mas por enquanto não há novidades. – disse observando a expressão de decepção tomar conta do rosto de Edward.
_ Eu não vejo a hora de você se ver livre daquele... – a raiva tomava conta de Edward.
_ Hey, Dr. Cullen! Não fique assim, por favor! Vamos entrar porque Brian deve estar nos esperando. – disse tentando acalmá-lo.
Brian pulou no colo de Bella enchendo seu rosto de beijos assim que ela passou pela porta. O jantar foi servido às dezenove horas. No cardápio: arroz, feijão, bife e batatas fritas. Escolha de Brian. O menino não desgrudou de Bella até cair no sono deitado em seu colo. Edward ainda não havia esquecido o que Bella tinha falado sobre os telefonemas estranhos. Depois de colocar o filho na cama, levou Bella para casa. Passaria a noite lá. Algo lhe dizia para não deixá-la sozinha.
Durante a noite, o telefone tocou várias vezes, mas sempre que Bella ou Edward atendiam ninguém dizia nada. Edward estava cada vez mais preocupado. Estava certo de que isso era coisa de Michael, provavelmente tentando intimidar Bella por causa do processo. De qualquer forma, não deixaria que ela ficasse sozinha em casa.
Na manhã seguinte, durante o café da manhã, Edward convenceu Bella a dormir em sua casa com ele. Ela sabia que ele estava preocupado com sua segurança e decidiu atender ao seu pedido. Passaram o dia juntos no hospital e, como prometido, Bella dormiu na casa de Edward aquela noite. Brian não queria se separar da tia Bella e pediu ao pai para dormir com eles. O menino agarrou-se ao corpo da tia dormindo em seus braços, deitado entre Edward e Bella.
Edward observava, enfeitiçado, as duas pessoas mais importantes de sua vida dormindo abraçadas. Acariciava ora os cabelos do filho, ora os cabelos de Bella e agradecia a Deus em uma prece silenciosa por ter colocado aquela mulher maravilhosa em seu caminho. Olhava, encantado, as feições tranqüilas de Brian e Bella dormindo tão perto dele e sonhava com o dia em que Bella se tornaria a Sra. Cullen. O celular de Bella que vibrava no modo silencioso o trouxe de volta de seus devaneios. Edward atendeu rapidamente o telefone. Ninguém disse nada. Atendeu ainda mais três vezes o celular de Bella antes de desligar de vez o aparelho. Agora ele tinha certeza: não se tratava de um trote, mas de coação. Michael estava tentando amedrontar Bella para que ela desistisse do divórcio. Edward não estava disposto a deixar que ele continuasse. Faria o que fosse necessário para manter Bella longe do canalha. Ele jamais a tocaria de novo.

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